Don't Panic! As viagens de 'O Guia do Mochileiro das Galáxias'

Por Andressa Neves RSS | em 09.08.2016 às 09h57

Estrelas Espaço Universo

Escritas por Douglas Adams, as obras que compõem a saga "O Mochileiro das Galáxias" tiveram origem como uma série de rádio, na BBC, em 1978. Por conta do sucesso, a história acabou sendo ampliada e transformada em cinco livros, que conquistaram, e ainda conquistam, a atenção de milhões de fãs em todo o mundo.

De acordo com algumas fontes, Adams teve a inspiração para escrever a série a partir de um guia de viagem da Europa. A ideia apareceu durante um sonho, enquanto dormia embriagado na Áustria por estar chateado pela dificuldade de comunicação com os moradores locais. 

Apesar de seu início ter sido cômico e parecer uma narrativa de fantasia e ficção científica, toda a obra traz questionamentos sobre a vida, fazendo o leitor refletir sobre o funcionamento do mundo e se divertir ao mesmo tempo. "De onde viemos? Para onde vamos? Por que estamos aqui?" são algumas das perguntas que os novos viajantes acabam sendo convidados a tentar responder.

Mas afinal, quem foi Douglas Adams?

Considerado por muitos como "um dos autores mais perspicazes de nossos tempos", Adams nasceu em 11 de março de 1952, em Cambridge. Apaixonado pela leitura, humor, animais e tecnologia, o autor conseguiu reunir seus mais diferentes interesses em livros que mostram conceitos completamente abstratos e teorias bastante avançadas. 

Sua capacidade de levar os leitores por caminhos completamente desconhecidos torna toda a saga em uma experiência bizarra, de ampliação de pensamento e um prato cheio para a imaginação. Provavelmente é por isso que "O Mochileiro das Galáxias" continua atraindo tanto o público geek.

Mas apesar de todo o sucesso da saga, Douglas Adams passou por situações, no mínimo, peculiares. "Em um determinado momento, com suas ocupações literárias temporariamente 'em suspenso', ele foi empregado como 'limpador de galinheiros e guarda-costas da família governante do Qatar'. Depois de entrar de cara em becos sem saída, finalmente encontrou seu lugar ao produzir a série de rádio da BBC".

A oportunidade permitiu que o autor pudesse falar sobre suas mais íntimas preocupações de forma bem humorada. É realmente incrível perceber sua habilidade de falar de forma praticamente subliminar de questões contemporâneas como política, instituições, burocracias e meio ambiente enquanto apresenta uma narrativa aparentemente fantástica.

O fato é que se percebe, inevitavelmente, uma forte influência da paixão de Adams pelo mundo da tecnologia em suas obras. De acordo com Bradley Trevor Greive, autor de "Um Dia Daqueles", Adams acreditava que "a tecnologia poderia ser usada para salvar nosso planeta de quase todos os males, incluindo o tédio e a extinção da espécie". Ora, pensando que "O Guia do Mochileiro das Galáxias" mostra exatamente a tecnologia alienígena sendo utilizada a favor de um terráqueo, não fica difícil perceber a conexão entre as opiniões do autor e a sua narrativa ficcional.

Infelizmente, o autor que via as novas tecnologias como "a extensão mais natural da mente humana" acabou falecendo subitamente no dia 11 de maio de 2001, aos 49 anos, de um ataque cardíaco. Apesar de sua morte, o legado de Douglas Adams continua chamando cada vez mais leitores para as suas viagens.

Douglas Adams

"O Guia do Mochileiro das Galáxias"

O primeiro volume da "Trilogia de Cinco", e o mais famoso entre todos, é "O Guia do Mochileiro das Galáxias", que traz de forma bizarra e hilariante o dia a dia de Arthur Dent, que teve sua residência e seu planeta destruídos no mesmo dia. Por ser amigo de Ford Prefect, que se revela nascido em um planeta perto de Betelgeuse, Dent consegue escapar da Terra, começando sua saga com o companheiro através de uma carona em uma nave alienígena.

Parece uma verdadeira confusão, concorda? E se o leitor não estiver atento, a sensação que o livro passa é exatamente essa. Diferentemente da grande maioria das obras de ficção científica, Douglas Adams não tenta salvar o planeta Terra: na verdade, é a sua destruição que impulsiona toda a saga, o que pode causar estranhamento a primeira vista. 

Como o livro se passa em ambiente extraterrestre, toda a história acontece em cenários mirabolantes, com criaturas diferentes de tudo o que já se viu (uma ótima pedida para quem gosta de colocar o cérebro para trabalhar). Além disso, a obra apresenta uma série de inovações tecnológicas bastante interessantes, com teorias de física nuclear que desafiam o pensamento dos leitores. Sobre isso, vale destacar que não é necessário ter conhecimentos prévios sobre física ou biologia, mas quem souber do assunto terá uma leitura mais fluida.

Não entre em pânico!

O título do primeiro livro faz referência a um dispositivo que Ford Prefect carregava em sua mochila desde que saiu de seu planeta natal. O "Guia do Mochileiro das Galáxias" nada mais era que um livro eletrônico com um milhão de "páginas". O handset possuía aproximadamente 100 pequenos botões e uma tela quadrada, em que qualquer uma das páginas poderia ser exibida instantaneamente. 

"Parecia um aparelho absurdamente complicado, e esse era um dos motivos pelos quais a capa plástica do dispositivo trazia a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO em letras grandes e amigáveis. O outro motivo era o fato de que este aparelho era na verdade o mais extraordinário livro jamais publicado pelas grandes editoras da Ursa Menor - O Guia do Mochileiro das Galáxias. O livro era publicado sob a forma de um microcomponente eletrônico subméson porque, se fosse impresso de forma convencional, um mochileiro interestelar iria precisar de diversos prédios desconfortavelmente grandes para acomodar sua biblioteca."

Durante a saga, a dupla Arthur Dent e Ford Prefect utiliza as preciosas informações e dicas do Guia para sobreviver no espaço, o que inclui a importância das toalhas, vogons, o restaurante no fim do universo, o Babel Fish, entre tantos outros assuntos cuidadosamente detalhados no livro digital.

O Guia do Mochileiro das Galáxias

A Toalha

Um dos principais pontos que chama a atenção do leitor durante "O Guia do Mochileiro das Galáxias" é a importância que as toalhas têm na trama. De acordo com a narrativa, "a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar". Mas por quê? Apesar de parecer uma ideia cômica, a explicação do dispositivo digital de Ford Prefect é bastante convincente:

"Você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você - estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e, naturalmente, pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa."

Claro que são situações justificáveis a um viajante das galáxias, mas o motivo principal para que qualquer mochileiro tenha uma toalha é outro. Seguindo as explicações do Guia, a razão mais importante para se carregar sempre uma toalha é o seu valor psicológico.

"Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha 'acidentalmente perdido'. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito."

O conceito da toalha se popularizou tanto entre os fãs da história que para homenagear Douglas Adams, após a sua morte, todo dia 25 de maio O Dia da Toalha é comemorado. Nesta data, diversos fãs carregam consigo uma toalha durante o dia todo: seja apenas levando na mochila, seja usando como capa ou como turbante. 

Toalha

O que é 42?

Talvez o conceito mais interessante da obra seja o do número 42. Na saga, o 42 é a resposta para todas as questões fundamentais da vida e do universo. No livro, Douglas Adams satiriza uma sociedade que está sempre em busca de respostas para tudo, e que, para solucionar todos os seus questionamentos, acaba construindo um robô com capacidade de responder a qualquer dúvida. 

O problema é que ao questionar o protótipo sobre "o sentido da vida, o universo e tudo mais", o robô explicou que seria necessário um prazo de milhares de anos para que os cálculos pudessem ser feitos até se chegar a uma solução. E adivinhe qual foi a resposta? Sim, 42.

É bastante comum que os fãs de "O Guia do Mochileiro das Galáxias" digam "42" para questões inexplicáveis. É uma forma mais simples de responder dúvidas que até o momento não têm solução, claro. Mas por que 42? Apesar de muitos gastarem esforços em significados simbólicos, certa vez Douglas Adams explicou o mistério do número, e a resposta foi tão surpreendente quanto a do robô: “A resposta é muito simples. Foi uma brincadeira. Tinha que ser um número, um ordinário, pequeno e eu escolhi esse. Representações binárias, base 13, macacos tibetanos são totalmente sem sentido. Eu sentei à minha mesa, olhei para o jardim e pensei '42 vai funcionar' e escrevi. Fim da história.”

Mas mesmo depois de dizer que o número não passou de uma brincadeira, diversos autores continuam expondo diferentes teorias sobre o significado do 42 e sobre as possíveis motivações secretas de Adams para a escolha do número.

Para saber mais

Ler a "Trilogia de Cinco" é, sem dúvida, a melhor opção para quem quer conhecer e desvendar o mundo elaborado por Douglas Adams. A riqueza de detalhes e de elementos despertam a imaginação e a reflexão sobre assuntos contemporâneos, então vale a pena a leitura. Mas para quem prefere outros meios, há uma série, de 1981, baseada na obra, disponível no YouTube. Outra opção é a adaptação cinematográfica de 2005 feita sob a direção de Garth Jennings.

Com informações de: Superinteressante, Independent, ConversaCult

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