Autores opinam sobre os novos rumos da ficção científica atual

Por Redação | 07 de Fevereiro de 2018 às 14h57

Muitos cenários e situações fantásticas que estamparam os roteiros da ficção científica do passado acabaram se tornando realidade. Podemos citar coisas como smartphones, headsets de realidade virtual, robôs e até mesmo a internet como exemplos de tecnologias que, quando vislumbradas por autores de sci-fi, ainda não existiam, mas, hoje, fazem parte do nosso cotidiano.

E com a tecnologia avançando a passos largos, fica a questão: o que será da ficção científica daqui para frente, em uma era em que praticamente qualquer invenção surreal pode acabar se tornando realidade? Afinal, roteiros envolvendo tecnologias ainda não existentes como o teletransporte ou a visita a outras galáxias, por exemplo, já estão saturados, e o imaginário popular está carente de "viagens" novas.

Então, o pessoal da revista Nature conversou com seis autores proeminentes da ficção científica atual para descobrir o que o gênero ainda pode oferecer além das distopias já manjadas.

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Lauren Beukes aposta no afrofuturismo

A autora sul-africana gosta de mesclar temas relevantes da atualidade com ficção científica. Em As Iluminadas, um assassino em série viaja no tempo, ganhando o troféu da "Escolha do Leitor" no Exclusive Books, prestigiada premiação de literatura na África do Sul. Beukes também lançou um thriller chamado Zoo City que venceu o prêmio Arthur C. Clarke como melhor romance de 2011, além de Moxyland, romance cyberpunk que acontece em uma versão futura da Cidade do Cabo.

E ela acredita que a ficção científica segue relevante em uma época em que vivemos mudanças climáticas e crises políticas, além de embates sociais que impedem uma verdadeira globalização. Em sua opinião, o sci-fi pode nos ajudar a vislumbrar cenários futuristas com base nos acontecimentos atuais, ajudando a humanidade a não cometer erros que causem um futuro ainda mais caótico.

Arte faz parte do afrofuturismo (Reprodução: Ðrojan Visuals)

"A ficção é como nós lidamos com nós mesmos. Ao imaginar o inimaginável, é possível tornar a realidade mais suportável", acredita. E Lauren também acredita que, em um mundo em que as pessoas brancas sejam a minoria racial na África do Sul, mas detêm grandes poderes, fazendo com que a população negra ficasse historicamente marginalizada por lá, abordar o afrofuturismo seja um caminho interessante para o sci-fi.

Em suas palavras, "o afrofuturismo é um movimento artístico, estético e filosófico que combina ficção científica, magia, crenças tradicionais, história negra e cultura". Já existem obras recentes que abordam questões sociais e raciais de maneira criativa, no universo da ficção científica, e Beukes entende que "o aspecto mais emocionante do afrofuturismo é, talvez, a forma como se atreve a imaginar um futuro para o que foi historicamente e descaradamente negligenciado, não sendo necessariamente sobre cidades alternativas imaginadas, mas sobre os verdadeiros caminhos em que a transição e a descolonização estão acontecendo agora".

Kim Stanley Robinson, viagem no tempo e telepatia

O norte-americano ficou especialmente conhecido pela Trilogia de Marte, ganhando diversos prêmios renomados na literatura. Ele acredita que "agora, estamos vivendo uma novela de ficção científica em que todos escrevemos juntos".

Isso porque, em sua opinião, o presente parece perigoso e volátil, e o futuro é radicalmente incerto. Então, para lidar com essa amplitude de futuros possíveis, o autor costuma implantar um conjunto de ideias que organizam um determinado cenário.

Ele aposta, neste momento, em temas como viagens no tempo e telepatia. "A ficção nos leva a outras épocas e lugares, e nos leva dentro das cabeças das pessoas, onde ouvimos seus pensamentos e sentimos seus sentimentos", disse. E a ficção científica pode descrever qualquer momento, desde o amanhã até bilhões de anos no futuro.

Ken Liu não acredita que a ficção científica preveja o futuro

Nascido na China e naturalizado estadunidense, Ken Liu, além de lançar obras próprias, se dedica a traduzir livros de ficção científica chineses para o inglês. E ele não acredita que o sci-fi exatamente preveja o futuro, mas, sim, dá um vislumbre do que pode estar por vir. "A ficção científica, mesmo o tipo que leva a sério a idéia de 'futurologia', não tem sido muito boa em prever a realidade. Olhe ao redor: onde estão as colônias na Lua ou os portais para vagar pela Matrix?", questiona.

Futurologia é o campo de estudo que tenta prever, com abordagem científica, o futuro da humanidade (Reprodução: Divulgação)

Ele entende que nossas tentativas de imaginar o futuro sejam frustradas pelo fato de que a evolução da tecnologia acontece, muitas vezes, além das previsões iniciais. "Ninguém que viu a primeira página HTML poderia ter previsto o Tumblr ou o Twitter, ou imaginou que a aplicação de filtros para selfies se tornaria um negócio de bilhões de dólares", argumenta.

Contudo, ainda que as histórias cyberpunk não tenham previsto com exatidão muito do que já existe em nosso mundo, como redes móveis avançadas ou a realidade aumentada, por exemplo, o gênero "nos deu base para refletir sobre a presença virtual como parte essencial das relações humanas, mediadas pela tecnologia".

Hannu Rajaniemi e seus mundos estranhos

Finlandês, este autor de ficção científica e fantasia acredita que explorar mundos estranhos seja uma boa pedida para o sci-fi atual, mais ou menos como tem sido feito na série Stranger Things, da Netflix. "O leitor deve se engajar na criação de sentido afetivo, com a garantia implícita do autor de que existe uma ordem subjacente detectável", acredita. "Quando isso acontece, há muitas vezes um momento transcendente e gentil que abre visitas ainda maiores além das páginas, na imaginação do leitor".

Então, Rajaniemi entende que o gênero, agora, deve tornar seus mundos mais estranhos, instigando a imaginação do leitor. "Quando voltamos da jornada, o mundo pode não ser menos estranho ou chocante, mas pode ser mais maravilhoso", opina.

Alastair Reynolds aposta na turbulência de ideias

Especializado em histórias obscuras e space operas, o britânico aposta na turbulência de ideias na ficção científica atual, fazendo o leitor parar para pensar. "A ficção científica é menos interessante quando o caminho para o futuro não é controverso", em sua opinião, e o autor concorda que "em um presente de ciência e ficção, pensar em futuros pode ser difícil".

No entanto, períodos de grandes transformações como o que vivemos hoje em dia dão origem a novas eras na ficção, o que inclui a científica. "Temos grupos de reflexão e institutos de futurologia", revela, justamente para que os acontecimentos atuais possam moldar as novas criações do gênero. "A ficção científica não está no âmbito da tranquilidade. Em vez disso, é dedicada à turbulência, transformação e imprevisibilidade. E nesses tempos turbulentos, precisamos dela mais do que nunca", conclui.

Aliette de Bodard e o impacto no cotidiano

A franco-americana ficou conhecida por seu tom especulativo em suas obras, e acredita no poder da ficção científica para causar impactos em nosso cotidiano. Ela entende que estamos vivendo uma era de grandes mudanças socioeconômicas, "para o bem ou para o mal", em suas palavras.

"Hoje, a ciência é penetrante, desde novas vacinas até smartphones onipresentes que atuam como assistentes pessoais e terminais de pagamento. E a ficção científica, agora, como no passado, constitui as histórias da ciência", acredita. Essas histórias, por sua vez, acabam por moldar as regras da realidade, sendo "nossas bases para dar sentido ao mundo e fazer com que ele mude".

Cenário distópico (Reprodução: Wai Think Tank)

Aliette entende, ainda, que, para quem escreve ficção científica, "desafios assustadores também podem ser estimulantes". Ela crê que o sci-fi possa nos dizer caminhos possíveis que uma nova tecnologia ou estudo científico podem nos levar, podendo dizer que tipo de sociedade estamos moldando, bem como "as grandes desigualdades entre aqueles que se beneficiam dos avanços científicos e da riqueza, e aqueles que ficaram para trás".

Finalizando seu raciocínio, a autora entende que "à medida em que o ritmo da descoberta científica se acelera e seu impacto nos aprofunda, a ficção científica está cada vez mais enredada com a ficção convencional". Afinal, a ciência atualmente pode beneficiar a sociedade de forma seletiva ou ser usada de forma inadequada, e a ficção fornece meios para que o leitor vislumbre cenários possíveis, bem como seus impactos em nosso cotidiano. "Precisamos lembrar o que a ciência pode fazer, dos horrores às maravilhas, e mostrar isso nas histórias que criamos", conclui.

Fonte: Nature

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