6 livros para entender como é a vida sem tecnologia na Coreia do Norte

Por Ricardo Ballarine | 19 de Setembro de 2017 às 18h28

A ONU esgotou todas suas opções sobre Coreia do Norte, estampou o noticiário recentemente, dias após o restrito país asiático dizer ao mundo que seu objetivo de desenvolver força nuclear está ‘quase concluído’.

A pressão internacional sobre a Coreia do Norte vem aumentando nas últimas semanas, enquanto os testes nucleares caminham na mesma direção. Isso faz com que a tensão na península coreana fique cada vez mais forte e as ameaças de guerra pipoquem a cada dia de um lado.

Japão e Coreia do Sul vivem amedrontados e já preparam ações antimísseis. Enquanto isso, Kim Jong-un continua a fazer seus testes e divulgar os feitos.

A realidade é que ninguém sabe qual é o verdadeiro poderio militar e nuclear da Coreia do Norte. Existem dúvidas sobre o alcance dos mísseis e se esses artefatos, quando lançados a grandes distâncias, não explodiriam na atmosfera.

O fato é que Kim e seu exército ignoram ameaças e boicote e colocam na mira, além dos seus vizinhos asiáticos, os Estados Unidos.

Teste de míssil feito pela Coreia do Norte (Foto: Agência Central de Notícias)

Enquanto a guerra não começa, e poucos sabem dizer qual seria a extensão de um conflito entre a Coreia do Norte e o restante do mundo, especialmente com Donald Trump na cadeira de presidente dos EUA, resta entender como esse país funciona.

Considerada como a nação mais fechada do mundo, a Coreia do Norte controla tudo o que é divulgado para o exterior. Seus cidadãos não podem sair do país e quem entra é acompanhado por um funcionário do governo, que vigia todos os passos de turistas. Sim, há turismo para lá, incentivado pelo líder supremo.

Internet? Praticamente, não existe. Somente 1.000 pessoas podem acessar a rede simultaneamente, incluindo funcionários do governo. E quem consegue entrar na internet não pode acessar sites estrangeiros, apenas os 28 endereços registrados no país.

Fazer uma ligação de celular para o exterior é impossível. As chamadas são controladas e ninguém se arrisca. Mas o aparelho é muito utilizado pelos cidadãos, mesmo com funções básicas, como enviar mensagens de texto e tirar fotografias. Já o 3G é permitido apenas para estrangeiros, que pagam preços altíssimos pelo uso.

Quem for pego usando um celular para falar com parentes que fugiram do país é enviado para campos de prisioneiros políticos ou centros de detenção, conforme relatório publicado pela Anistia Internacional. Isso levou a Comissão de Inquérito da ONU sobre Direitos Humanos a afirmar que o grau de controle e repressão não tem paralelo no mundo moderno.

Os meios de comunicação são controlados rigidamente, não importa a plataforma. Relatos de jornalistas norte-coreanos informam que as reportagens passam por três filtros de censura: interna, estatal e a chamada a posteriori.

Toda a programação televisiva é também controlada e editada antes de ir ao ar, e isso vale até para desenhos, como Tom & Jerry. Além disso, só existem quatro emissoras de TV, todas estatais. Imagens, fotos e comentários são liberados apenas por fontes oficiais, como a Agência Central de Notícias.

O resultado é que a Coreia do Norte aparece em último lugar no ranking de liberdade de imprensa da ONG Repórteres sem Fronteira.

Este cenário indica que a Coreia do Norte prefere concentrar esforços tecnológicos no seu poderio militar, deixando de lado inovações que melhorariam a vida do coreanos. O que faz sentido, considerando que implantar banda larga e rede de celular abriria o país para o mundo, o que a dinastia Kim não quer.

Para entender melhor como o país funciona, o Canaltech selecionou quatro livros e uma HQ que retratam o cotidiano da vida na Coreia do Norte e como a repressão afeta os cidadãos, que vivem isolados do resto do mundo.

Dentro do Segredo — Minha Viagem pela Coreia do Norte

O turismo para a Coreia do Norte nasce da vontade de ver como funciona um país fechado, sem tecnologia e reprimido, mas que mesmo assim se abre para o olhar estrangeiro.

O escritor português José Luís Peixoto queria conhecer o país asiático e empregou uma viagem para desbravar a terra de Kim Jong-un. Em Dentro do Segredo (ed. Companhia das Letras), o autor relata como foi a aventura, com impressões pessoais do cotidiando.

Em tom de crônica, Peixoto conta que, para entrar no país, o visitante tem que deixar seu celular no aeroporto. Seus passos são acompanhados por um tradutor, que faz o papel de vigia do governo.

O controle da viagem é rígido, não se faz nada sem autorização. Peixoto, autor de Livro e Morreste-me, identifica ainda a maquiagem feita em Pyongyang, a capital da Coreia do Norte, para tentar retratar uma nação feliz e desenvolvida.

Ao final, o que ele conseguiu enxergar foi um isolamento brutal e a idolatria cega ao líder.

Na Amazon, o livro físico sai por R$ 33,90 e o e-book, R$ 8,25.

Nada a Invejar — Vidas Comuns na Coreia do Norte

A jornalista norte-americana Barbara Demick conta a história de seis norte-coreanos e, por meio desses personagens, acaba por retratar como é viver no país.

Por meio da investigação dessas seis pessoas, ela expõe o regime repressor e como isso acabou ceifando histórias de amor, relações familiares e sociais.

O ponto mais forte do livro é o relato da fome, um mal que acomete praticamente toda a população da Coreia, exceção feita aos membros do regime. Longas filas para conseguir algum alimento, períodos extensos com dietas mínimas, o tráfico de comida, esse é o cenário que emerge das páginas de Nada a Invejar (ed. Companhia das Letras).

Uma das histórias mais fortes é a de uma mulher que tenta sair do país para viver na China. O desejo de encontrar familiares faz com que ela enfrente perigos e a morte.

Todas as histórias têm como base a incomunicabilidade. As pessoas têm sérias dificuldades em se relacionar com as outras por questões que vão além da vigilância.

Quem foge do país entra num buraco negro e se mantém em silêncio absoluto até atravessar a fronteira. Nenhum tipo de comunicação é permitido, mensagens, telefonemas nem cartas.

Quem mora na cidade e quer construir uma relação afetiva não consegue marcar encontros a não ser que seja pessoalmente. O leitor que está acostumado a usar o celular para conversas banais e marcar encontros com amigos se choca com a dificuldade que é construir um relacionamento na Coreia.

O livro sai por R$ 39,90 (físico) e R$ 31,07 (e-book) na Amazon.

Querido Líder

Jang Jin-sung é um dissidente norte-coreano que viveu parte de sua vida voltado a criar fantasias sobre o regime de Kim Jong-il, o líder supremo do país entre 1994 e 2011.

Seu trabalho era maquiar informações sobre o país e criar livros, músicas e poesias que exaltassem o regime e a vida na Coreia do Norte. A estratégia para essas tarefas era mergulhar na cultura sul-coreana — isso mesmo, o país vizinho e inimigo — e produzir material de propaganda como se fosse escrito pelos irmãos capitalistas.

Essa foi uma das formas encontradas para mostrar para a população que a dinastia e o modo de viver do Norte eram admirados pelo inimigo.

Jang fazia parte de um grupo de privilegiados, não só por ter contato com a cultura aberta dos seus vizinhos. Ele tinha acesso a comida farta e importada, em tal quantidade que não sabia o que fazer com o volume imenso de produtos que recebia.

Um dia, Jang emprestou uma peça proibida pelo governo a um amigo, que esqueceu em um trem. Ambos seriam acusados de traição e não esperaram para ver o resultado: decidiram fugir do país.

Querido Líder (ed. Três Estrelas) então muda o rumo, até então descritivo sobre o modo de viver na Coreia do Norte, para construir uma narrativa tensa, quando a dupla resolve fugir para a China e pedir asilo na embaixada da Coreia do Sul.

A força do livro está em mostrar o lado de quem vivia com privilégios, em contato com produtos e itens proibidos à população, sem contar o acesso a livros e jornais.

Por questões de segurança, o nome do autor não é verdadeiro. Ele vive na Coreia do Sul, sob proteção policial.

Na Amazon, o livro está por R$ 46,90 — o preço normal é R$ 69,90.

Fuga do Campo 14

Já assistiu a Prison Break? Guardadas as devidas proporções, este livro lembra a tensão passada pela série de TV, especialmente na primeira temporada. O jornalista Blaine Harden conta a história de Shin Dong-hyuk, o primeiro e único prisioneiro, até onde se sabe, a fugir de um campo de trabalhos forçados na Coreia do Norte.

Ele nasceu e cresceu no chamado Campo 14, destinado aos presos políticos. Viveu 23 anos de sua vida e estaria condenado a morrer por lá. A lei impõe a prisão perpétua os descendentes de condenados por crimes políticos.

O regime nesses campos, como descreve o autor, é tão severo que os presos não têm contato nem com a doutrina norte-coreana. Isso quer dizer que eles não aprendem os ensinamentos do líder supremo, algo obrigatório a qualquer cidadão norte-coreano.

Tratados como escória, os presos trabalham de 12 a 15 horas por dia e vivem até morrer por acidente, doenças ou execução.

Em Fuga do Campo 14 (ed. Intrínseca), o leitor tem contato não só com o cotidiano, mas também com os horrores vividos pelos prisioneiros, como sessões de tortura e os traumas originados pelo passado.

Shin conseguiu escapar de um campo considerado à prova de fuga. Sua rota para o mundo exterior, algo que ele nunca tinha visto na vida, começou pela China, passou para a Coreia do Sul até chegar aos Estados Unidos. O último capítulo se dedica a mostrar como foi a adaptação de Shin no mundo livre.

A vida nos campos é desprovida de qualquer conforto. É a parte mais dura do regime, e o livro mostra o quanto a liberdade é um conceito ignorado na Coreia do Norte.

Na Amazon, o livro físico sai por R$ 45 e o e-book custa R$ 17,91.

O livro virou o documentário Campo 14 — Zona de Controle Total, dirigido por Marc Wiese, narrado por Blaine Harden e que tem trechos em animação para ilustrar a vida no campo de prisioneiros.

Pyongyang — Uma Viagem à Coreia do Norte

O artista canadense Guy Delisle é o autor de uma série de HQs que mostram sua vida em outros países, acompanhando sua mulher, que trabalha para a ONG Médicos sem Fronteiras.

Normalmente, ela é deslocada para atuar em países em conflito, politicamente instáveis ou com sérios problemas de direitos humanos, caso da Coreia do Norte.

Seus livros funcionam como uma espécie de diário de viagem. Narrado em primeira pessoa, Delisle se coloca como personagem principal, em viagens em que ele fica em casa e tenta trabalhar num lugar desconhecido.

Neste Pyongyang (ed. Zarabatana), entre caminhadas para reconhecer a vizinhança e lidar com problemas banais, como comprar comida, ele desenha a relação com um jovem que seria seu intérprete. Com ironia e posição crítica, o quadrinista mostra como funciona a tecnologia no país e como é viver sempre desconfiado de estar sendo vigiado.

O bom humor é um traço marcante não só neste, como em todos seus livros de viagem.

A HQ está fora de catálogo, mas vale a busca por sebos.

Trecho da HQ Pyongyang, de Guy Delisle
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