Será que o império da Microsoft foi criado em cima de um código roubado?

Por Luciana Zaramela | 09 de Agosto de 2012 às 18h48

Um pesquisador de computação forense pode ter resolvido uma das maiores controvérsias da tecnologia: se a versão original do sistema operacional da Microsoft MS-DOS continha um código copiado de um sistema operacional mais antigo, conhecido como CP/M.

O "x" da questão gera outra polêmica: o pesquisador possui laços estreitos com a Microsoft.

Segundo a Wired, de qualquer maneira, sabe-se que o império da Microsoft foi construído com base no antigo MS-DOS. A empresa sempre teve suas ferramentas para vender a programadores, mas sua grande chance veio em 1980, quando licenciou o MS-DOS para a IBM, para que a empresa utilizasse o sistema em seus primeiros desktops.

A ironia nisso tudo é que a Microsoft não desenvolveu o sistema operacional "em casa". Ela adquiriu o 86-DOS - originalmente chamado de QDOS, uma abreviação de "Quick and Dirt Operating System" (em tradução livre: sistema operacional rápido e sujo) - uma criação de Tim Paterson, na Seattle Computer Co.

Segundo a lenda da tecnologia, a negociação com a IBM poderia simplesmente ter sido feita com o falecido Gary Kildall, criador do antigo sistema operacional para PCs, o CP/M, e fundador da Digital Research Inc. (DRI).

Conforme explicado em um artigo da BusinessWeek em 2004, as histórias divergem quanto às razões pelas quais a IBM não comprou ou licenciou o CP/M. Mas, sejam quais forem as circunstâncias, Kildall foi um pouco amargo em suas decisões.

Gerry Davis, advogado da DRI na época, disse à BusinessWeek que os investigadores forenses da empresa descobriram que o 86-DOS infringia a propriedade intelectual da DRI. Esta, por sua vez, nunca moveu uma ação judicial contra a Microsoft ou a IBM. Kildall morreu em 1994, mas o rumor sobre a Microsoft ter copiado sua criação persiste até hoje.

Recentemente, um homem chamado Bob Zeidman decidiu resolver o assunto de uma vez por todas. Ele examinou o código em questão, utilizando um conjunto de ferramentas que ele mesmo desenvolveu para detectar violações de direitos autorais de software, e no mês passado, publicou suas descobertas nas páginas da IEEE Spectrum. Resultado: ele não encontrou qualquer evidência de que o MS-DOS copiou o código do CP/M.

Mas acontece que Zeidman tem uma história com a Microsoft. Rebecca Mercuri, outra investigadora de computação forense, apontou nos comentários do artigo da IEEE Spectrum que o currículo de Zeidman dizia que ele era um perito na batalha em curso entre Microsoft e Motorola, sobre o sistema operacional móvel Android. Este laço não foi revelado no artigo. Zeidman dirige uma empresa chamada Ziedman Consulting, que, entre outras coisas, oferece serviços de testes e laudos de peritos em casos de propriedade intelectual envolvendo software.

Em uma entrevista à Wired, Ziedman disse que sua empresa foi contratada há pouco mais de um ano para testemunhar em nome da Microsoft no caso com a Motorola. "Nunca nem passou pela minha cabeça (quando escreveu o artigo para a IEEE Spectrum)", disse. "Já trabalhei contra a Microsoft no passado." Ele ainda diz que se algo acontecer, seu artigo irá prejudicar as chances de ser contratado novamente para testemunhar pela Microsoft.

Zeidman diz que seu envolvimento com o caso está "em espera" desde agosto do ano passado e que ele começou a dar atenção ao caso CP/M versus DOS em dezembro, já que tinha tempo livre o suficiente para isso. Ele havia lido sobre essa controvérsia antes e pensou que seria um projeto divertido para trabalhar.

A maior parte da análise de Zeidman foi feita em um código fonte do CP/M, disponibilizado no The Unofficial CP/M Website, e em um código fonte do Q-DOS, disponibilizado no Howard’s Seattle Computer Products SCP 86-DOS Resource Website. Zeidman afirma que verificou os códigos por inteiro - o que não foi difícil, visto que, antigamente, os códigos possuíam milhares de linhas, contra os milhões presentes nos programas de hoje - e não encontrou nenhuma evidência de cópia.

Zeidman também verificou o código binário de uma versão bastante primitiva do MS-DOS e não encontrou nada. Ele observou no artigo que a análise binária pode facilmente perder os resquícios de cópia, já que o código foi traduzido do código fonte original para o binário. Mas ele afirma que, neste caso, isso não tem a menor importância, pois se tivesse ocorrido plágio, seria facilmente visível no código fonte do Q-DOS.

Em um episódio de 2006 do podcast This Week in Tech, o ex-colunista da revista Byte e escritor de ficção científica Jerry Pournelle disse que o código do CP/M incluía um comando secreto que exibiria uma nota de direitos autorais e, quando digitado no MS-DOS, exibia o nome completo de Kildall. "Não foi ninguém que me disse isso, o Gary foi quem me mostrou", disse Pournelle no podcast. Zieldman também procurou esse comando, mas não encontrou nenhuma evidência.

Isso não significa que tal evidência não esteja lá, mas Ziedman afirma que seria extremamente difícil ocultar tal mensagem em um código. Além disso, se a prova do crime realmente existisse, por que Kildall não traria o comando secreto à tona, logo quando a controvérsia começou a virar polêmica?

Lendas urbanas são difíceis de morrer, e dada a conexão entre Ziedman e a Microsoft, parece que um dos detratores da empresa irá dispensar seus achados. Mas, como Ziedman observou, o código está lá fora para que qualquer investigador forense possa examinar.

Além disso, sua análise só diz respeito ao código copiado, e não com o look and feel do sistema operacional. Em 2004, Little Brown publicou um livro de Harold Evans chamado They Made America: From the Steam Engine to the Search Engine: Two Centuries of Innovators (Eles fizeram a América: do motor a vapor ao motor de buscas: dois séculos de inovadores). No livro estão incluídas as alegações de Kildall a respeito da API e do look and feel do 86-DOS, que teria copiado o CP/M.

Em 2005, Paterson tentou processar Evans e Little Brown por difamação, mas o caso acabou sendo encerrado, já que o juiz considerou que Paterson havia, de fato, copiado a API do CP/M.

Considerando a recente decisão de que APIs não estão sujeitas a direitos autorais, não parece que a DRI terá muita sorte no tribunal. Ainda assim, a disputa entre as semalhanças entre os dois sistemas operacionais é algo bem difícil. Talvez nunca saibamos se houve ou não cópia de códigos.

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