Análise | Space Dance e os dois minutos mais longos da sua vida

Por Rafael Arbulu | 10 de Julho de 2019 às 09h57
(Imagem: Divulgação/Steam)

Pouco a pouco, o mercado de jogos independentes vem se tornando palco de produtos realmente desafiadores mesmo em suas execuções mais simples: o exemplo mais recente disso talvez seja Space Dance, desenvolvido e produzido pelo designer alemão Hajo Nils Krabbenhöft, que, mesmo sem o financiamento de um grande estúdio assegurando a divulgação do título, consegue entregar uma experiência igualmente dolorosa e divertida.

Space Dance ressuscita o longevo gênero “jogo de navinha”, pelos quais tornaram-se conhecidos grandes clássicos Geometry Wars e simuladores como Sins of a Solar Empire, da Stardock. O próprio Hajo, aliás, admite ter na simplicidade e dificuldade vistas em Geometry Wars a sua principal inspiração. É notável o empenho do designer em trazer ao jogo uma experiência ao mesmo tempo simples e desafiadora.

Aqui, você não vê nada além do básico. E reforço o termo: básico mesmo. O visual não passa de um fundo preto e linhas aleatórias e coloridas iluminadas por neon, que compõem tanto a sua nave como os inimigos disformes. A ideia é que você se concentre bastante no gameplay, deixando para admirar os visuais depois.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

E Space Dance faz isso com maestria: o jogo não se torna um esplendor visual até que um certo tempo de sobrevivência seja despendido em cada nível, quando a tela fica recheada de luzes e inimigos mirabolantes em seus visuais, a ponto de gerar um espetáculo psicodélico que engana você a simplesmente parar de jogar para admirar o que se desenrola na tela. É uma viagem praticamente pornográfica de visuais estranhos, mas muito charmosos.

O mote do jogo é fazer com que você sobreviva por diversos rounds, divididos entre si pela duração de uma música. É por meio do tempo de duração de uma música da trilha sonora que você fica sabendo por quanto tempo terá de se dedicar a uma fase do jogo. Ou, se preferir que a gente traduza para você, algo entre dois e três minutos por round.

A dificuldade aqui vem na jogabilidade: Space Dance segue a mecânica twin stick shooter, ou seja, um analógico do joystick é usado para a movimentação, o outro é usado para executar e direcionar seus disparos. Há uma variante no teclado também: as teclas WASD movimentam a sua nave, enquanto as setas direcionais atiram. Neste esquema, porém, o jogo, que já é bem complicado, fica praticamente impossível. Note pelo vídeo de um dos meus gameplays que gravei, logo abaixo, que eu morro várias vezes: essa parte do teste, eu estava usando o teclado do laptop.

Um dos pontos mais interessantes deste jogo é o fato de que ele não possui foco na estratégia, mas sim no improviso e reflexo na tomada de ações. Explico: outro jogo que já analisamos recentemente aqui no CanaltechMy Friend Pedro — possui recursos de câmera que lhe permitem enxergar os inimigos em uma área próxima e, a partir daí, planejar a sua abordagem de progressão.

Em Space Dance, porém, os oponentes aparecem na tela em caráter aleatório. É praticamente impossível determinar um padrão e, por conta disso, você deve se adaptar a todo momento, sem saber o que vem pela frente. Exceto por você saber que tipo de inimigo pode aparecer dependendo do momento em que se encontra no round (depois de alguns inimigos abatidos, você ganha um item de aprimoramento, o que traz novos tipos de adversários), não há como saber de onde vem o fogo.

Essa premissa de “resolver tudo no improviso” é o principal motor de satisfação e de raiva para o jogador: chega um determinado momento em que a fase está recheada de oponentes, e navegar ao mesmo tempo em que você atira em todos eles torna-se uma tarefa hercúlea e desumana. Se você perder (e as chances de isso acontecer são imensas), fica aquele nervosismo de ter de recomeçar a fase do início. Se você, por algum milagre, passar por esses momentos, a satisfação da missão cumprida tem um sabor todo especial.

(Captura de Imagem: Rafael Arbulu)

Space Dance remonta às antigas memórias dos arcades da década de 1980 e 1990, quando o seu objetivo principal não era apenas o de passar pelo jogo inteiro com um punhado de fichas, mas também bater as pontuações da máquina (e de qualquer outro jogador que tenha passado por ela antes de você). Essa corrida pelo high score, aqui, não tem o aspecto da competição humana, haja vista que você joga sozinho, pela sua máquina, mas o jogo em si é difícil o suficiente para que você morra várias vezes, reiniciando a partida com o objetivo de tentar vencer o game pelo cansaço.

Em um mercado cheio de jogos AAA, blockbusters com milhões de dólares disponíveis para adquirir recursos avançados de desenvolvimento, Space Dance consegue o mesmo feito — o de ser um jogo extremamente cativante e divertido — tendo sido criado em um quarto, por um designer em trabalho solo. Mais do que um simples jogo, temos aqui a prova de que “criatividade” não depende de dinheiro, mas de capacidade e vontade. Definitivamente, vale a compra na Steam.

Space Dance foi analisado no Canaltech com cópia gentilmente cedida pelo desenvolvedor Hajo Nils Krabbenhöft.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.