Análise | Mesmo tropeçando, Where the Water Tastes Like Wine tem o seu carisma

Quem não gosta de ouvir aquelas histórias de fantasmas contadas por avós, ou histórias de amor que nos fazem arfar e nos colocar na pele de quem está contando, se aprofundando na narrativa, escutando os mínimos detalhes sem deixar escapar nada? Até mesmo as histórias infantis que nos são contadas como homem do saco, Papai Noel, João e Maria, Saci, entre outras. Where the Water Tastes Like Wine nos leva a esse universo, mostrando onde as histórias e narrativas são criadas, contadas e como elas mudam à medida em que são recontadas para uma próxima pessoa.

Era uma vez...

Desenvolvido pela Dim Bulb Games e publicado pela Good Shepherd Entertainment o game nos leva ao mundo de narrativas fictícias e intensas, nos envolvendo em diversos tipos de histórias e como elas surgem e são passadas adiante. São diversas as narrativas e elas vão desde as simples, como o encontro com um animal na floresta e casais apaixonados, a contos mais mirabolantes como a de cavaleiros fantasmas e cowboys tentando laçar um tornado.

Quando o assunto se trata de detalhes, temos dois pontos importantes a citar: existem mitos bem simples, às vezes isso ocorre apenas com um breve diálogo ou a descrição de um lugar; por outro lado, parece que em algumas narrativas a empresa não poupou esforços em envolver o máximo possível de detalhes para demonstrar o que está se passando em algumas cenas, dizendo, em alguns casos, como está o clima do lugar, os odores, se o cenário está intacto ou destruído, a temperatura ambiente, entre vários outros fatores que promovem ainda mais a imersão ao jogo.

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Where the Water Tastes Like Wine não é um jogo para todos, por dois fatores principais: é necessário ter uma boa noção do inglês, pois o jogo não oferece a opção de legendas em português e em muitos momentos temos gírias locais, algum tema de folclore americano ou um detalhamento grande de lugares e sensações, exigindo, assim, um bom conhecimento do inglês e sua cultura. Outro fator é que, em sua maioria, este é um jogo no qual você caminha muito pelo mapa, deixando o público que gosta de ação ou os que são pouco pacientes irritados com o ritmo lento, pois o personagem anda muito devagar e alguns lugares ficam longe.

O pacto com o lobo e a longa jornada

Basicamente, acompanhamos a história de um viajante misterioso que entra em uma cabana para descansar após dias de caminhada sem encontrar ninguém. Neste lugar, ele se depara com uma mesa de poker e decide participar, já que ele sente que sua sorte está favorável. Ganhando e desbancando os outros jogadores da mesa um a um, ele se depara com seu último adversário, que faz uma última aposta muito alta e deixa o viajante sem ter o que apostar.

Disposto a arriscar tudo, o personagem coloca um pouco de seu sangue na mesa e faz um pacto. Sendo assim, o último oponente revela a sua face de lobo e mostra as suas cartas, com uma mão perfeita. Em débito com o lobo, agora o viajante deve ouvir e contar histórias por todos os Estados Unidos em uma longa viagem.

A partir deste ponto, o jogo se divide em duas partes: temos que controlar um personagem por uma pequena réplica dos Estados Unidos, pedir carona para chegar a cidades grandes mais rápido, pegar trens clandestinamente, cruzar rios, ou simplesmente caminhar para encontrar histórias e ouvi-las. O objetivo é simples: visitar o máximo de lugares possíveis ouvindo e interagindo com outras pessoas, animais, trabalhadores ou que for encontrado, conseguindo diferentes tipos de histórias para serem repassadas. Podemos pegar narrativas em cidades, moinhos, fábricas, minas, florestas, e entre muitos outros locais.

Uma viagem pelo folclore americano

Temos cinco diferentes tipos de histórias, que são baseadas em tristeza, fatos ou ações, comédia, horror e esperança, entretanto elas se subdividem em dezesseis diferentes categorias baseadas em cartas de tarô. Dessa forma, é necessário entender cada narrativa para escolher decisões coesas para que as narrativas tenham um alto nível de detalhamento e elementos que despertem a curiosidade do interlocutor.

No mapa, existem diferentes tipos de acampamentos, nos quais podemos repassar as histórias vividas em diversas localidades já exploradas. Geralmente esses acampamentos possuem diferentes tipos de personagens, mineiros, músicos, soldados, indígenas, fazendeiros, entre outros, que exigem diferentes tipos de histórias, fazendo com que se escolha a melhor narrativa para ser contada naquele momento, convencendo ou não o ouvinte.

Ao todo são 219 histórias que o jogo disponibiliza para serem ouvidas e contadas por todo os Estados Unidos, fazendo com que seja necessário viajar por vários estados e andar bastante para ouvir e vivenciar os enredos. Vale notar que personagem precisa dormir, juntar dinheiro e se preocupar com a sua saúde. Conforme já foi mencionado, durante a sua jornada, é necessário escolher algumas opções nas narrativas, e as suas escolhas podem culminar em uma morte ou em um pagamento generoso.

É possível trabalhar nas cidades grandes para ganhar dinheiro, comprar itens que supram a necessidade de dormir e completar seus pontos de vida. Estes locais também são pontos de viagens para outras cidades grandes, fazendo com que não precisemos ficar andando sempre de um ponto a outro, mas custam bastante dinheiro.

Escolhendo o seu caminho

A segunda parte do jogo se dá às narrativas. Nessa parte, a história é contada por um narrador, na maioria das vezes interpretando as situações e fazendo as vozes de diálogo dos personagens. As interpretações são convincentes e nos fazem entender melhor o que está se passando ali naquele cenário. Essas narrativas acontecem com uma imagem muito bem desenhada e detalhada da história — é nessa hora que o jogo faz nossa imaginação fluir, pois existe uma junção harmônica entre a música, imagem, e o narrador nos dizendo o que está acontecendo.

Há narrativas que nos proporcionam escolhas, como, por exemplo, qual decisão deseja tomar após descansar em seu acampamento: ir para esquerda ou direita? Essas pequenas decisões podem refletir diretamente no status do personagem, fazendo com que ele perca pontos de vida, ganhe ou perca dinheiro ou fique mais cansado. De forma resumida, essa é a melhor parte do jogo, fazendo imaginar diversas situações diferentes para aquela cena, a descrição detalhada do lugar com algumas histórias interessantes nos fazendo lembrar livros e filmes que gostamos ou que fizeram parte da nossa infância.

Trilha sonora primorosa e visual contrastante

O que não se pode ser deixado de lado em Where the Water Tastes Like Wine são suas músicas, cada uma delas agregando muito valor ao jogo e à narrativa, com um repertório variado de estilos, incluindo folk, blues e country, todas criadas para tocar nas diferentes regiões do mapa. Ou seja, quando se sai de um estado e vai para outro, as melodias mudam e representam a característica daquela região.

Muitas das trilhas sonoras são cantadas e, dependendo de cada região, elas podem ser mais animadas, ou tocar um instrumento diferente condizente com o local. Esses traços sonoros deixam o jogo ainda mais divertido e combinam muito com o clima do game.

Na arte gráfica temos desenhos sombrios cheios de detalhes e que nos trazem um pouco do jogo Darkest Dungeon. Cada arte representa uma parte dos Estados Unidos, seu folclore e suas características. Porém, o estilo de navegação no mapa geral decepciona por destoar de todo o resto da bela arte desenha do game, com um ambiente 3D pouco caprichado e que pode ser facilmente confundido com um jogo amador.

Veredito

Para quem gosta de jogos artísticos e game novels ou para aqueles que se simpatizam com propostas criativas e pouco convencionais, Where the Water Tastes Like Wine é praticamente uma obra de arte com narrativas interessantes e bem variadas, apresentando um visual sombrio e intrigante, em uma mistura que convence aos que gostam de sentar e ler um bom livro nas horas vagas.

As músicas são um destaque à parte, com trilhas cantadas que variam de região para região e acrescentam muito à experiência como um todo. A relação entre a parte visual com a parte sonora e a narrativa envolvente deixam o jogo com um aspecto artístico único.

Todo esse clima de sentar na fogueira para contar e ouvir contos e lendas trará boas experiências para os viciados em narrativas. O jogo tem aproximadamente 20 horas de conteúdo, e boa parte desse tempo você vai caminhar pelo imenso mapa do game, o que pode ser um pouco cansativo. Mas, se experiências com o ritmo lento e o idioma em inglês não são barreiras no seu caso, vale muito a pena conhecer Where the Water Tastes Like Wine.

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