Venezuela persegue mineradores de bitcoins sob acusação de lavagem de dinheiro

Por Redação | 05 de Setembro de 2017 às 15h29
photo_camera Bitcoin

Investir em bitcoin tem sido visto como uma opção ainda arriscada, mas em países como a Venezuela essa pode ser também um ação perigosa. Para enfrentar a grave crise econômica que o país atravessa, muitos estão apostando na moeda digital. Só que o governo não vê isso com bons olhos.

Entre as acusações, estão lavagem de dinheiro e terrorismo. Por isso, na Venezuela, a mineração de bitcoin é secreta, e o câmbio já bate na casa dos US$ 5 mil (cerca de R$ 15,7 mil) — no Brasil, a cotação do bitcoin de 5 de setembro é de R$ 13 mil.

Entrar no mercado de bitcoins foi a forma que muitos venezuelanos encontraram para sobreviver financeiramente. A Venezuela já é considerada o país mais endividado do mundo e seu PIB está em colapso. Além disso, comida e itens de necessidades básicas são racionados.

Para completar o quadro, o FMI acredita que a inflação supera os 1.100% ao ano no fim de 2017. E a moeda da Venezuela, o bolívar, está em queda livre e perdeu 99,4% do seu valor.

Como consequência, a opção pelo bitcoin pareceu ser a solução para os venezuelanos. É uma moeda descentralizada, portanto, imune ao que acontece em qualquer país. Teoricamente, minerar seria uma saída.

Histórias repetidas

Vamos contar como foi que tudo aconteceu para o venezuelano de 29 anos conhecido como Irmão, que entrou na mineração porque seu salário de US$ 43 não era o suficiente para sustentar sua família — ele é casado e tem uma filha pequena.

Ele começou a usar os computadores no escritório governamental onde trabalhava de forma ilegal para fazer a mineração. Depois de um tempo, ele já abandonou seu emprego e agora minera em seu próprio equipamento de casa.

A história de Irmão é familiar à de David Fernando Lopez, que já deixou o país e dirigiu uma fazenda de mineração de bitcoin em Caracas por três anos. À época com 40 anos, ele não conseguia emprego e a opção pela moeda digital foi a saída para tirá-lo da pobreza.

O processo de mineração não é tão intuitivo, e muitos pesquisam em fóruns on-line e tutoriais do YouTube para aprender como fazê-lo. Outro venezuelano que tem a história parecida é Randy Brito, administrador de um canal de discussão chamado Bitcoin Venezuela, que ensina as pessoas a minerar. Ele opera remotamente da Espanha, pois fugiu da Venezuela com sua família quando tinha 14 anos. No ínicio, era uma comunidade com 10 membros, e hoje já são 10 mil.

Com o saldo de bitcoins, os venezuelanos importam de Miami produtos básicos, como sabonetes, desodorantes e xampus. Há quem também compre remédios no estrangeiro.

Processo totalmente legal

O fato é que minerar moedas digitais é completamente legal na Venezuela, mas a polícia tem prendido quem opera com bitcoin. Entre os motivos alegados, está o fato de que a moeda digital se ampara na cotação do dólar paralelo.

O auge do terror surgiu quando dois venezuelanos foram presos em 2016, acusados de roubo de energia e posse de contrabando. O uso intenso de computadores, medido pelo gasto de energia, chamou a atenção da polícia venezuelana, que alegou que os mineradores de bitcoins estavam explorando sem documentação.

Há outra explicação para a perseguição aos mineradores. O governo venezuelano veria o bitcoin como uma ameaça para o bolivar já fraco e suas regras rígidas sobre fuga de capitais. Por isso, muitos são chamados de terroristas e acusados de lavagem de dinheiro.

A Venezuela é, hoje, um país em profunda crise política e econômica, mas seu caso ilustra o porquê de as alternativas digitais, como o bitcoin, estarem ganhando importância.

Fonte: CNBC