Em um futuro de tecnologias invisíveis, "offline" pode não ser mais uma opção

Por Carlos Ferreira | 29 de Fevereiro de 2016 às 11h15
photo_camera Google

Talvez não seja arriscado dizer que uma tecnologia é tão boa quanto mais facilmente ela puder se fazer invisível. Afinal, a despeito do culto organizado atualmente em torno de modelos e marcas de fabricantes, originalmente a ideia era que uma tecnologia, como o “estudo de uma técnica/arte”, pudesse facilitar de alguma forma a vida do ser humano – de maneira que, quanto menos intrusiva uma ferramenta fosse, melhor.

Se isso já era bem verdade na época em que uma criatura iluminada conseguiu inventar a roda, também hoje a coisa parece rumar constantemente para um ponto em que as novas tecnologias possam nos facilitar o cotidiano sem que necessariamente tomemos conhecimento da sua existência. Em plena era digital – apesar do referido culto -, o que se vê é uma integração cada vez maior entre o indivíduo e as inúmeras ferramentas do dia a dia.

Mas não apenas isso: conforme avançamos por este período orquestrado pela internet, torna-se mais e mais evidente certa fusão entre o universo virtual e o físico. Senão, basta andar pelas ruas: deve demorar bem pouco para que o primeiro sujeito corcunda apareça, andando decidido enquanto envia mensagens no WhatsApp, se guia pelo GPS ou dá lances em leilões online. E isso deve ser apenas o começo.

A internet vira pano de fundo

Como pivô da nova era hi-tech, há a internet. Mas não aquela internet do início dos anos 90, que existia como um fenômeno próprio, como uma experiência em particular (que o diga quem esperava pela madrugada para acessar páginas estáticas, invariavelmente ouvindo a melodia mecânica dissonante dos modems dial-up).

realidade aumentada

Em vez disso, seguindo o passo do que ocorreu com os dispositivos de música, também a grande rede parece cada vez mais onipresente, cada vez mais como um pano de fundo. “Havia uma época em que você podia ver e ouvir a internet”, lembra Seth Fiegerman em seu artigo para o site big think. “Agora, a internet está no éter; nossos dispositivos estão imersos nela a todo o momento, e o mesmo ocorre conosco”.

O trampolim da realidade aumentada

Se a passagem do ambiente digital para o físico fosse um salto, então seria bastante fácil identificar o trampolim. “A realidade aumentada utiliza câmeras para sobrepor o mundo digital sobre o mundo físico”, conforme define Fiegerman.

Afinal, ainda em seus primeiros passos, essa tecnologia já lança habilmente o meio online para fora da tradicional clausura das telas. Com o aplicativo certo, é possível utilizar mesmo um smartphone mediano para enxergar os céus em forma de constelações, escanear livros e outros produtos físicos - obtendo imediatamente resenhas e conhecendo as lojas em que há os melhores preços.

Já em 2009, Pranav Mistry, um dos pioneiros da realidade aumentada, falava em palestra ao TED sobre a meta de fazer a computação finalmente se juntar ao mundo físico. Entretanto, embora uma ampla gama de gadgets pareça estar pronta para desaparecer como coadjuvante do cotidiano, o resultado, para Mistry, ainda seria um maior controle nas mãos do ser humano – e não o contrário. “[Essas tecnologias] vão nos ajudar a não ser uma máquina sentada em frente à outra máquina”, ele conclui, profético.

Google Glass e o primeiro ciborgue do século XXI

É verdade que os exemplos acima ainda fazem uso de um smartphone. Fazem uso de uma tela. Nesse ponto, entretanto, vale relembrar uma criação bastante recente daquele famoso laboratório de cientistas malucos do Google, o “X”.

Google Glass

Embora ainda esteja longe de qualquer pretensa perfeição, o Google Glass encerra um conceito importante. O periférico permitia chamadas, pesquisas na Web, fotos e direções no trânsito com apenas um mínimo de ação por parte do usuário - que, para todos os efeitos, torna-se realmente um ciborgue. “A porta de entrada para o universo digital está bem sob o seu nariz, ou sobre o seu nariz, para ser mais exato”, diz o referido analista.

De mala e cuia para o mundo digital

Visionários como a equipe do Google X não pretendem que você vá de mãos vazias para um novo mundo interconectado, é claro. Enquanto aparatos como o Oculus VR e o próprio Glass tratam de nublar os limites entre o físico e o digital, a chamada Internet das Coisas (Internet of Things) nos empurra por essa nova fronteira dúzias de objetos inanimados tornados “inteligentes”.

astro teller

Mas há aí um novo desafio. Segundo o chefão do Google X, Astro Teller, é preciso que os criadores dessas novas coisas inteligentes abandonem certa “mentalidade de engenharia civil” do século XX. Para ele, mesmo questões como força, durabilidade e segurança de algo como um carro precisam ser resolvidas por meio da inclusão de sistemas inteligentes.

“Software e hardware são partes da mesma resposta”, disse ele durante uma conferência em San Francisco. “Exclua qualquer uma delas e a sua chance de resolver o problema será cortada pela metade”.

google balloon

Uma amostra desse conceito é facilmente encontrada entre os registros do X. Quer dizer, basta se lembrar dos balões de hélio inteligentes projetados pelo laboratório para levar internet a locais remotos (imagem acima) – enquanto se beneficiam das condições atmosféricas, chegando mesmo a atuar como bandos. Isso para não falar no sempre mencionado carro autônomo, é claro. “Encontre novas formas de acumular um pouco mais de óleo nas mãos e um tanto mais de lama nas botas”, resumiu Teller.

Desconecte-se (se puder)

A tendência inaugurada por aparatos como o Google Glass é bem clara: conquistar muito mais com muito menos gadgets – de forma que os poucos que restarem ainda possam se tornar imperceptivelmente integrados ao seu dia a dia.

Apesar do deslumbramento, essa utopia parece trazer consigo uma armadilha em potencial; uma arapuca bastante insidiosa. Quer dizer, se a conexão entre o virtual e o real for mais e mais diluída, como alguém realmente conseguirá ficar offline no futuro? “No momento, você ainda precisa tomar uma decisão consciente sobre estar ou não plugado”, diz Fiegerman.

internet of things

“Você precisa sacar um telefone ou um tablet e precisa escolher tuitar, tirar uma fotografia ou buscar algo online. O perigo de essas tecnologias desaparecerem cada vez mais em um segundo plano é que essa escolha tende a se tornar cada vez menos óbvia”.

A extinção do offline?

Como conclusão inevitável, no futuro nós talvez permaneçamos conectados em tempo integral ao mundo digital (colhendo todas as inegáveis vantagens dessa ligação)... Porém em detrimento da nossa conexão com o mundo físico. “A questão a ser levada adiante é: Conforme a tecnologia digital desaparece em um pano de fundo – enquanto a própria divisão entre o mundo físico e o digital igualmente desaparece -, nós ainda seremos capazes de preservar a ideia de estar offline? Ou isso também vai desaparecer?”.

A ideia alimentada pelo colunista do big think torna-se ainda mais assombrosa e distópica quando se contempla o exército de “alienados” virtuais que formou a plateia de Mark Zuckerberg durante a última edição da Mobile World Congress – todos devidamente equipados com o Samsung Gear VR, alegremente ignorando tudo o que ocorria ao redor, incluindo a passagem do sujeito ilustre.

Zuckerberg VR

Mas há nesse mesmo caso um motivo sutil para alimentar algum otimismo: fatos assim ainda conseguem nos causar espanto. Conforme o futuro descortina carros autômatos, mobílias inteligentes e uma ligação imediata e sem precedentes com todos os cantos do globo, surge um novo espaço para a utilização de uma das nossas mais notórias vantagens tecnológicas: o bom senso.

Fonte: big think, Wired<a href="http://bigthink.com/think-tank/the

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