Como uma cidade de 3 mil habitantes virou referência para smart cities no Brasil

Por Rafael Romer | 17 de Agosto de 2015 às 12h42
photo_camera Rafael Romer/Canaltech

Com uma população de pouco mais de 3 mil habitantes, a pequena cidade paulista de Águas de São Pedro, localizada a 187 km de distância de São Paulo, é hoje um bom exemplo brasileiro do que podemos esperar para o futuro das chamadas Cidades Inteligentes, ou smart cities.

O projeto de Águas de São Pedro começou há pouco mais de um ano, quando a Telefônica-Vivo abordou pela primeira vez a prefeitura da cidade para realizar um acordo de colaboração com o plano de torná-la uma cidade digital — ampliando a oferta de conectividade do município.

A cidade então oferecia um cenário ideal para o projeto: além de ser o segundo menor município do estado de São Paulo, com área de 3,46 km², Águas de São Pedro tinha uma população pequena e predominantemente idosa (65% do total), com o segundo melhor IDH do país e com apenas uma área urbana de relevo pouco acidentado.

Com um investimento de R$ 2 milhões, a primeira fase do projeto começou a ser implementada pela operadora, que substituiu a infraestrutura de cabeamento de cobre para uma infraestrutura com fibra óptica. Com a nova conectividade, a média de 10 Mbps de conexão passou para 15 Mbps em 70% dos domicílos da cidade. Em quatro meses, a Vivo já começou a ver os primeiros resultados positivos do projeto para seu negócio. Cerca de 25% dos clientes da cidade fizeram upgrade de velocidade, de uma média de 3,8 Mbps para 9,2 Mbps, além de um aumento da base de clientes de 16%.

Após disponibilizar a conectividade, a segunda fase da iniciativa foi a implementação de sistemas inteligentes em outras áreas do município, com o objetivo de melhorar a eficiência de serviços públicos municipais. Em parceria com a chinesa Huawei, a cidade instalou 15 câmeras Full HD para monitoramento em tempo real de pontos estratégicos da cidade, como a entrada e o centro comercial.

Além de realizarem gravações e disponibilizarem as imagens em tempo real dentro do centro de monitoramento da prefeitura, as câmeras são carregadas com uma série de tecnologias que permitem buscas inteligentes nas imagens. É possível, por exemplo, realizar uma varredura por pessoas vestindo uma cor específica de roupa. Há também um sistema capaz de tirar fotos da placa dos carros que entrarem na contra-mão na estrada que leva à cidade.

Com a implementação dos pilotos, a cidade passou a incluir cada vez mais sistemas inteligentes. Atualmente, ela mantém um sistema de vagas inteligentes, que utiliza sensores para avisar para os moradores (e os cerca de 5 mil turistas semanais) onde há vagas disponíveis nas ruas do centro da cidade, através de um aplicativo.

Há também um sistema de iluminação pública no parque municipal que utiliza lâmpadas com sensores: além de avisarem quando estão prestes a queimar, as lâmpadas regulam sua luminosidade de forma independente, ficando mais fortes durante a noite e progressivamente menos brilhantes durante a madrugada até o amanhecer. O sistema levou a uma economia de 35% do consumo de energia do município.

Há também aplicativos que estimulam a participação popular na administração pública. Com a ajuda de um aplicativo para indicar possíveis focos de dengue com imagens, a cidade conseguiu no ano passado reduzir de 86 para 28 os casos da doença no município entre o ano passado e este ano, tornando-se uma das poucas cidades de região a observar uma queda.

Um outro aplicativo semelhante permite aos moradores enviarem notificações à prefeitura sobre problemas na cidade, como buracos na rua ou falta de manutenção de algum item público. Toda mensagem gera um protocolo e obriga a prefeitura a enviar uma resposta ao cidadão. De acordo com a prefeitura, 95% dos casos indicados são resolvidos.

Água de São Pedro

O secretário municipal de turismo de Águas de São Pedro, Fabio Pontes, demonstra o sistema de câmeras inteligentes da cidade (foto: Rafael Romer/Canaltech)

Vitrine

Com os resultados positivos, Águas de São Pedro aos poucos se torna um case de cidade inteligente para outros prefeitos que buscam implementar iniciativas semelhantes em seus municípios. O caso também ajudou a Telefônica-Vivo a formatar suas ofertas de cidades inteligentes, e a companhia passou a contar com uma vitrine de expertise nacional nas disputas por licitações de projetos de outros municípios do país.

"Uma vez que a gente implementou, o benefício foi a possibilidade de trazer prefeitos, secretários... a gente trouxe aqui o Presidente da Anatel, e isso ajuda a contar a história e mostrar o que é o conceito", explicou o gerente da divisão de Smart Cities da Telefônica-Vivo, Eduardo Iha. "Nós criamos um ecossistema para mostrar o que se pode fazer com uma cidade inteligente".

Como exemplo de projetos que a Vivo só teve chance de participar por causa da atuação em Águas de São Pedro, Iha cita casos como a Parceria Público-Privada (PPP) de iluminação inteligente da cidade de São Paulo, que foi iniciada no ano passado e trocará 600 mil lâmpadas na capital.

Outro projeto foi a implementação de Wi-Fi público em Vitória, que também teve a participação da operadora facilitada pela experiência em Águas de São Pedro. No total, Iha afirma que a empresa já está participando hoje de "mais de dez" iniciativas que envolvem algum tipo de tecnologia para cidades inteligentes no país, todas facilitadas pelo projeto no interior de São Paulo.

Águas de São Pedro também estimulou o interesse de outros municípios na adoção dessas tecnologias. Segundo Fabio Pontes, secretário municial de turismo de Águas de São Pedro, os ganhos de eficiência e economia da verba pública estimularam mais de 70 prefeitos e gestores públicos a visitarem a cidade para conhecer o modelo adotado pela prefeitura local. "Ano passado dei cinco palestras sobre o caso de Águas de São Pedro. Só neste ano já foram quinze, até na França já estivemos", comentou Pontes. Entre eles, a prefeitura de Porto Alegre se mostrou interessada pelo sistema de vagas inteligentes para os arredores do estádio Beira Rio.

Os resultados positivos trazidos pela adoção de tecnologias também ajudaram na concientização de outros órgãos do poder público em relação ao investimento nesse tipo de inciativa. Pontes citou o caso do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que antes impedia a cidade de investir parte de seu orçamento de turismo em iniciativas como Wi-Fi público ou sistemas de segurança. "Agora, com o projeto aqui, nós já conseguimos fazê-los entender que nós podemos fazer uma licitação para uma prática de cidade inteligente", afirmou. "Não tinha caso nenhum, nós somos um piloto".

"Nós temos hoje um cenário bem mais favorável. Não quer dizer que está resolvido, muita coisa tem que ser trabalhada ainda", explicou o executivo da Telefônica. "Mas nosso papel não é só conceitual, a gente tem trabalhado com prefeituras mais próximas para acelerar esse processo".

Água de São Pedro

Eduardo Iha afirmou que o caso de Águas de São Pedro abriu a possibilidade da Telefônica implementar iniciativas de Cidades Inteligentes em outros municípios (foto: Rafel Romer/Canaltech)

Próximos passos

A cidade agora tem planos para implementar novos programas para tornar sua administração ainda mais eficiente através do uso de tecnologias.

Há previsão da instalação de identificação por biometria de 900 moradores para atendimento apenas de habitantes da cidade no serviço municipal de saúde de Águas de São Pedro. A "invasão" de moradores de cidades vizinhas é um problema frequente do município, que por ter uma população pequena, acaba oferecendo um serviço melhor do que a média da região e sobrecarrega os 12 médicos que deveriam atender apenas moradores locais.

Outro plano é integrar os serviços hoje disponíveis na cidade para aumentar ainda mais a eficiência das tecnologias empregadas. "A cidade, para se tornar inteligente, tem que começar a cruzar os dados", afirmou o secretário. Pontes afirmou que uma da ideias é que o sistema de câmera converse diretamente com a iluminação pública inteligente para que, no caso de alguma ocorrência, os postes possam ajudar a iluminar as imagens buscadas pelo sistema de vigilância em vídeo.

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