Como o grande volume de dados que temos atualmente é benéfico para todos

Por Raphael Andrade | 05.10.2016 às 19:35
photo_camera Divulgação

A crescente demanda por informações e a alta conectividade presente na vida das pessoas são duas características inerentes ao cotidiano de muitos atualmente. Sabemos que permanecer conectado muito tempo à internet pode ser prejudicial e causar até distúrbios nos usuários, mas a internet também é uma dos sistemas mais benéficos que existem hoje em dia. Em primeiro lugar, a internet é extremamente útil para todos, sem distinção de poder aquisitivo ou classe social, e ela oferece muitas ferramentas e oportunidades que outrora não poderiam ser acessados por muita gente.

Uma das reclamações mais acentuadas em torno da internet é a grande quantidade de informações que chegam em enxurradas aos internautas, que muitas vezes não conseguem absorver todo esse conteúdo e tem dificuldade em parar o consumo de novas informações. É claro que isso é preocupante, e deve ser tratado com cuidado, mas o ponto é que esse excesso de dados também pode ser algo muito positivo, e não é difícil perceber isso.

O portal colombiano La Gaboteca disponibilizou em abril a obra completa do escritor Gabriel García Marquez, com mais de 1.500 materiais e 600 livros traduzidos em cerca de 40 idiomas. Há dez anos, a obra completa de Mozart, com mais de 600 peças e 24 mil partituras, foi posta em sua integridade na internet. O Museu do Louvre já é parte de experiências em realidade virtual, permitindo que pessoas no mundo todo apreciem mais de 35 mil objetos do local, e portais como o Hora do Enem, do Ministério da Educação, permite que alunos estudem centenas de conteúdos gratuitamente.

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Mesmo em relação à mídia isso é positivo. São muitas as opções de portais noticiosos à disposição dos usuários, e eles oferecem conteúdos intermináveis e diversos. É possível comparar dados e informações, complementar leituras com outras fontes e se aprofundar o quanto quiser num determinado assunto. A força das redes sociais também se encaixa nesse contexto. Com as manifestações contrárias ao governo atual, não são poucos os que recorrem à grupos independentes de mídia, como o Mídia Ninja e Jornalistas Livres para se informar, ambos gerenciados por iniciativas sem vínculos com empresas.Pessoas comuns também são geradores de notícias: nos Jogos Olímpicos 2016, o engajamento de usuários no Twitter resultou em 75 bilhões de tweets, que falavam de tudo, desde o desempenho dos atletas até as experiências dos turistas nos locais das provas.

A onipresença de dados é um resultado que se deve a matemática da lei geral da demanda, uma relação inversa (e proporcional) da demanda por algo e o preço do mesmo. Com as facilidades tecnológicas, a ânsia por novidades cresceu de tal maneiras que a oferta por informações também acompanhou esse aumento. E isso também vale para a tecnologia que dá base à internet: em 1957, a IBM lançou um computador do tamanho de uma sala com armazenamento de 5 MB que custava cerca de US$ 1 milhão. Hoje em dia, 5 MB custam US$ 0.0005. O preço tão baixo dos bytes, somado à facilidade de produzir conteúdos explicam a abundância de dados na rede mundial de computadores.

Dados que são pessoais

Mas ao invés de olharmos números e textos como algo impessoal e sem vida, mudar a perspectiva com a qual encaramos as informações na internet pode ser a chave para enxergar um mundo novo.

A jornalista norte-americana Lam Thuy Vo se refugiu em meio a dados para lidar com o fim de um relacionamento. Nas palavras dela, a razão que olhamos com tanto desinteresse para planilhas, dados e números é que eles parecem secos, sem relação alguma com as emoções humana. Mas não é bem por aí. "De certo modo, dados são resultado de alguém perguntando as mesmas perguntas várias e várias vezes para pessoas diferentes", conta Lam.

Ela explica que descobriu que, em março de 2014, era uma das 147.451 pessoas divorciadas no Brooklyn, um dos bairros mais famosos de Nova York. Para lidar com a separação, uma amiga sugeriu que ela trabalhasse em gráficos, e foi o que ela fez.

"Eu me surpreendi com a quantidade de emoções que eu pude coletar de dados. Claro que você deve abordar as informações com metodologia de um cientista, mas para destravar o potencial emocional dos dados, você precisa saber fazer as perguntas certas".

Em um dos gráficos produzidos por Lam, ela mostra como após um divórcio as pessoas acabam comprando coisas que não precisam. Os números são interessantes. Na faixa entre US$ 250 e US$ 300, as pessoas tendem a comprar vestidos e roupas, coisas que não faziam anteriormente. Para quem tem o orçamento mais apertado, os produtos escolhidos são plantas e canetas, pelo menos no que se refere a Lam. Já no campo de relacionamentos online (saca o Tinder?), a jornalista também documentou suas trocas de mensagens com caras na rede. Com o primeiro cara que conheceu, míseras cinco mensagens foram trocadas. O segundo, 38, o terceiro, 41, já no sexto pretendente as coisas mudam, 1.249 mensagens.

"Utilizei programas de espião para baixar os dados do meu celular, encontrei maneiras de extrair informações das minhas contas nas redes sociais, e até fui à minha academia para conseguir uma cópia física da minha malhação. Dados não são livres de natureza humana, é bem o oposto", afirma Lam.

Sem escapatória

Em 2013, o Instituto de Gerenciamento de Tecnologias de Comunicação da Universidade do Sul da Califórnia publicou um relatório com dados que chamam a atenção, mas que não deveriam ser tão surpreendentes. Segundo eles, americanos irão consumir tanto mídia tradicional e digital por mais de 1.7 trilhão de horas. Isso significa que uma pessoa irá consumir notícias e informações por uma média de aproximadamente 15 horas e meia de notícias ao dia.

Os números saltam aos olhos. A grande quantidade de dados é uma característica importante do que a internet se tornou e do que ela pode oferecer aos internautas, e é improvável que todos que vivem em sociedade sejam capazes de diminuir a inserção da internet em suas vidas.

Excesso que faz bem

Mapa Pokémon GO

Pegue o game do momento como exemplo, o Pokémon Go. O jogo requer que o usuário percorra a cidade caçando monstrinhos enquanto passa por pokéstops, locais para coleta de item e pontos de experiência. Graças à universalidade do game, e a grande quantidade de dados disponíveis, fãs foram capazes de mapear os pokéstops e criar aplicativos e páginas na web para guiar outros jogadores. O Mapa Pokémon Go é um dos mais famosos em terras tupiniquins, nele é possível escolher sua cidade e receber um mapa completo com pokéstops e ginásios pokémons.

Quer emagrecer e tem um celular Android conectado a sua conta Google? Graças ao armazenamento das suas informações de localização no Google Maps (que talvez você nem saiba que acontece), você pode acessar dados referentes às rotas que você percorre, seja à pé, de carro ou transporte público, e fazer cálculos de quantas calorias perde por dia, pesquisar melhores rotas para seus destinos habituais, entre outras facilidades.

Mesmo que você não se imagine dirigindo um carro automático da Tesla, do empresário Elon Musk, talvez no futuro você se beneficie da tecnologia que está sendo empregada nos carros autônomos da empresa. Todos os meses, bilhões de dados são coletados pelos carros da empresa, que rodam por todo os Estados Unidos. Essa abundância de informações é o que permite aos desenvolvedores do projeto analisar o comportamento dos carros nas ruas e fazer melhorias conforme elas são necessárias.

Esses são apenas alguns exemplos pontuais de como o crescente aumento de dados sobre todos os aspectos da internet é algo positivo para todos, e sem necessidade de pesquisar muito, é possível encontrar outras dezenas de situações que essa quantidade monstruosa de informações beneficial. Por isso, o conselho que fica é que devemos aproveitar ao máximo esse excesso, tentando direcioná-lo para bons resultados e ações no seu dia a dia.