Como a internet alterou a nossa forma de amar e relacionar afetivamente

Por Douglas Ciriaco | 27 de Outubro de 2015 às 15h15

Volte três décadas atrás e provavelmente será um tanto difícil encontrar pessoas com relacionamentos afetivos que começaram de forma não presencial, digamos assim. Atualmente, é mais do que comum ver namoros (e outras formas de se relacionar que não têm o compromisso de durar) sendo mediados pela internet.

O avanço da web, o surgimento dos dispositivos móveis inteligentes e a presença cada vez maior de ferramentas feitas para colocar pessoas em contato direto incrementaram as possibilidades dos amantes. Atualmente, e cada vez mais, a internet serve como ponto de partida para enlaces afetivos das mais variadas ordens.

Apesar de não ser mais uma novidade nem mesmo algo isolado, relacionamentos que começam de forma virtual (ou que se sustentam assim) ainda espantam algumas pessoas. Enquanto uns não veem qualquer problema em relacionamentos assim, outros os definem como superficiais e incompletos.

O mito da superficialidade

Ainda hoje é possível ver olhares desconfiados em direção aos relacionamentos que começam ou acontecem pela internet. Mas uma análise mais cuidadosa deste tipo de relação já é capaz de ajudar a desfazer essa visão. Isso porque as opções de interação via internet disponíveis atualmente nos levam a um caminho contrário.

O contato humano continua existindo mesmo que mediado por aplicativos e por um computador. O nível das interações pode variar, mas, no geral, os mecanismos que temos à nossa disposição permitem um contato direto e quase ininterrupto com pessoas distantes, colaborado para a construção de inúmeros laços.

Amor na era digital

Amor na era da tecnologia (Foto: Alamy)

A forma como enxergamos relacionamentos, afetividade, amor e sexualidade sempre vem sendo construída historicamente pela humanidade. Diferentes épocas e diferentes sociedades enxergaram estes elementos de maneiras distintas, às vezes até contraditórias entre si. A partir disso, podemos enxergar a tecnologia apenas como um novo ingrediente neste emaranhado de complexidades que é a interação humana.

Com base neste raciocínio, a psicanalista brasileira Regina Navarro defende o fim da desconfiança. “Não é possível julgar negativamente os relacionamentos virtuais em favor dos reais, porque nos dois casos estamos diante de processos culturais e sociais de construção de uma experiência que nunca é natural”.

Contato com o universo do outro

Pessoas que usam a web com mais intensidade tendem a manter um universo particular disponível em blogs e perfis de redes sociais. A interação virtual, aqui, passa também por isso, por desbravar este tipo de detalhe, algo que serve inclusive para os amantes que se conhecem primeiro no mundo real.

Neste ponto, a tecnologia apresenta ferramentas para que os encontros aconteçam. O ato de conhecer alguém passa, obviamente, pela interação direta — algo que não é nenhum problema nos dias de hoje. Basta reparar na quantidade enorme de opções que temos para conversas instantâneas, chamadas de vídeos, troca de fotos e por aí vai.

Contudo, essa ambientação em relação ao que o outro pensa, ao que o outro anseia, recebe uma contribuição enorme dos recursos tecnológicos e das redes sociais, reforçando e trazendo cada vez mais substância aos relacionamentos da era digital. “O amor é o laço social por excelência desta nova era”, acredita o psicanalista brasileiro Jorge Forbes.

A favor da casualidade

Relacionamentos casuais também foram favorecidos com os avanços tecnológicos. Aplicativos como Tinder e OkCupid, por exemplo, oferecem um contato rápido entre pessoas que também estão a procura de relações curtas. Este tipo de característica permite que todos os envolvidos sejam mais diretos em suas intenções, o que é sempre um ganho para todo mundo.

Amor na era digital

Direto ao ponto. (Foto: Shutterstock)

Mais uma vez, a internet permite adentrar no universo do outro com cuidado. Serviços como estes oferecem uma série de informações sobre os participantes, permitindo que você saiba se há interesses em comum antes mesmo de iniciar uma conversa. Os mais românticos podem ver isso como o “fim da paquera”, mas não dá para negar a praticidade, especialmente quando você está pouco interessado em conquista.

Até mesmo para quem não quer apenas algo casual, tais aplicativos (e tantos outros serviços do tipo) também podem ser um ótimo ponto de partida. Afinal, os mistérios da afetividade não foram — e provavelmente jamais serão — abolidos pela presença da internet na mediação das relações humanas.

O fim da surpresa?

Saber muito sobre o outro, conhecer quais suas músicas, autores e filmes favoritos, ver fotos de suas viagens e passeios, quais comidas mais aprecia, tudo isso antes mesmo de iniciar uma conversa: a internet nos oferece essa possibilidade em relação a basicamente qualquer pessoa.

A superexposição das redes sociais pode, de alguma forma, significar a ausência de algumas surpresas. Saber demais sobre uma pessoa pode tanto marcar um ponto de partida quando uma linha de chegada — e aí fica a critério de cada um definir o quanto isso pode ser positivo ou negativo.

O mundo muda

A era da informação é uma época urgente. As notícias correm o mundo em frações de segundo e tal urgência alcançou também as relações humanas, especialmente na questão do afeto e da sexualidade. Assim, o saldo de tudo isso pode ser bastante positivo especialmente por permitir que as pessoas se encontrem de maneira mais precisa.

Precisa, aqui, no sentido de estar mais claro para os envolvidos o que cada um aspira daquilo. A partir do momento em que não há mais um imperativo moral, como a religião, para manter um relacionamento, a vontade de cada um é o que conta (inclusive a vontade de não ter um relacionamento ou de ter vários). E a internet e as diversas ferramentas disponíveis por aí tornam isso ainda mais vivo e evidente.

Os jovens de hoje cresceram com o mundo digital à sua disposição. As crianças de hoje são inseridas no mundo da tecnologia ainda mais cedo, o que, sem a menor sombra de dúvidas, vai naturalizar ainda mais este tipo de interação, seja ele com pessoas que moram distante ou com gente que vive na mesma cidade, no mesmo bairro.

O fato é que as formas de amor são diversas e variadas. Das cartas de amor aos e-mails apaixonados, dos anúncios nas rádios e jornais em busca de uma companhia ao Tinder, do Disk Amizade ao Facebook: a tecnologia sempre teve potencial para aproximar pessoas.

Fontes: Nirlando Brandão/CartaCapital, Regina Navarro Lins, TAB

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