Censura chinesa deleta conteúdos sobre Panama Papers após denúncias contra líder

Por Redação | 07 de Abril de 2016 às 12h20

A história do Panama Papers continua dando o que falar. Considerado um dos maiores vazamentos de dados da história do jornalismo, o caso que revelou milhares de empresas de fachada de políticos, celebridades e empresários em paraísos fiscais ganha novos contornos ainda mais polêmicos após o governo chinês simplesmente varrer o conteúdo da internet no país.

A razão para isso é simples: entre os nomes listados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos estão familiares de Xi Jinping, o presidente da China e que, ironicamente, deu várias declarações sobre seu comprometimento em acabar com a corrupção. Além dele, familiares de pelo menos oito membros ou ex-membros da Politburo Standing Committee — uma dos grupos que comanda o país — também aparecem relacionados às empresas de fachada criadas pelas Mossack Fonseca.

E, como a China já não é muito conhecida por respeitar liberdades individuais, a censura logo tratou de impedir que qualquer menção ao caso fosse exibido em seus serviços de busca. Mais do que isso, publicações que já abordavam o tema também foram deletadas. Como aponta o site Global Voices Advocacy, todas as discussões relacionadas ao vazamento foram apagadas, deixando claro que a ordem é impedir que a população local se informe sobre o ocorrido. Há rumores de que até mesmo e-mails foram eliminados.

Diante de toda essa situação, os próprios chineses começaram a se mobilizar para denunciar a censura. Embora a maior parte da população simplesmente não faça ideia do que são os Panama Papers graças ao filtro imposto pelo governo, os poucos que estão inteirados no assunto passaram a fazer postagens frequentes em redes sociais sobre a atual situação por lá.

Como pode ser visto no tweet acima, mecanismos de buscas locais, como o Baidu, 360 Search e Sogou não trazem resultado nenhum quando o usuário procura pelo termo. E a razão é clara: o termo usado não está de acordo com as leis vigentes.

Panama Papers

Outros relatos mostram que o governo chinês censurou até mesmo notícias que repercutiam o caso em outros países. De acordo com outra usuária, notícias de que a população islandesa jogou ovos e bananas no prédio do Congresso também foram apagadas, bem como postagens que citavam bancos, lavagem de dinheiro e o próprio Panamá. Já em relação aos e-mails, até mesmo anexos estão sendo barrados para impedir que o assunto se espalhe por lá.

Mais vazamentos

Diante de toda essa bagunça, eis que as instruções dadas ao censores também vazou e deixa claro como eles devem agir diante de menções ao caso. Segundo esses documentos, os censores devem encontrar e apagar todo o material relacionado ao Panama Papers, sem exceções. Além disso, se o material for encontrado dentro de alguma página internacional, a censura deve ser imposta de maneira ainda mais severa.

Em outro material é possível ver a ordem de que o texto publicado por um site sobre a exposição de que o presidente russo Vladmir Putin teria lavados cerca de US$ 200 milhões fosse apagado, assim como outras matérias relacionadas. A ação deveria ser feita tanto no site do jornal quanto em mecanismos de buscas e redes sociais.

Essas ordens vazadas datam do dia 4 de abril, o mesmo dia em que o escândalo panamenho estourou.

Xi Jinping

A fruta podre dentro do governo

A lista de pessoas ligadas ao governo presente no Panama Papers é bem sensível. Embora não seja tão extensa, os nomes estão diretamente ligados ao presidente chinês Xi Jinping. São eles:

  • Li Xiaolin, filha do ex-premier chinês Li Peng e vice-presidente da estatal China Power Investiment Corporation. Apelidada pelo povo chinês de "Poderosa Rainha;
  • Deng Jiagui, irmão do presidente;
  • Jasmine Li, neta de Jia Qunglin, ex-membro da Politburo Standing Comittee;
  • Patrick Henri Devillers, arquiteto francês e parceiro comercial de Gu Kailai, esposa de Bo Xilai, um político que já havia sido sentenciado a prisão perpétua por corrupção em 2013.

Além deles, a BBC aponta ainda que outros membros da Politburo Standing Comittee também estão ligados ao Panama Papers. São eles Chang Gaoli e Liu Yunshan, cujos parentes também haviam criado empresas de fachadas com a Mossack Fonseca.

E pode ter certeza de que o Canaltech já é um site bloqueado por lá.

Via: Global Voices Advocacy, BBC