Anúncios, bloqueadores e a polêmica do YouTube Red

Por Felipe Demartini | 30 de Outubro de 2015 às 12h42

Lançado oficialmente no último dia 28 e, por enquanto, em fase de experimentação apenas nos Estados Unidos, o YouTube Red é uma realidade. Apesar de muita gente estar falando sobre ele como uma espécie de Netflix para o serviço de vídeos, esse não é bem o seu caráter principal. Aqui, a ideia é não apenas acessar conteúdo exclusivo, mas também se livrar dos anúncios, algo que, para muitos criadores, se transformou no grande ganha-pão durante a atuação no serviço.

Também são os anúncios que acabam sendo alvo de uma categoria de software que está entre os mais usados – e amaldiçoados – da internet: os AdBlockers. Os bloqueadores de propaganda, como o nome já diz, impedem que os reclames sejam exibidos em sites ou antes de vídeos, facilitando o carregamento de páginas, economizando banda em conexões mobile, acabando não só com os anúncios invasivos, mas também com uma boa fonte de receita dos criadores de conteúdo.

Para Felix Kjellberg, que você provavelmente conhece pela alcunha de PewDiePie, um dos maiores youtubers do mundo, foi justamente o uso desse tipo de software que levou o Google a criar um serviço como o Red. Diante de receitas em declínio e das reclamações de criadores para que a empresa fizesse alguma coisa, foi criada uma nova fonte de renda que entrega justamente aquilo que todos querem – menos anúncios, mas sem que a entrada de dinheiro diminua.

Felix Kjellberg (PewDiePie)

Com milhões de visualizações todos os meses, PewDiePie pode servir como uma boa métrica para o YouTube como um todo. Ele diz que cerca de 40% de sua base de inscritos utiliza algum tipo de bloqueador de anúncio, um número que vem crescendo ao longo dos últimos anos e que continuará a aumentar principalmente na medida em que os criadores investem em uma maior quantidade de anúncios e em formatos mais incisivos para conseguir o que podem a partir dos 60% que restaram. É uma situação que se retroalimenta de forma extremamente negativa.

Os pequenos sentem mais

Apesar de falar contra os bloqueadores de propaganda, PewDiePie diz entender exatamente porque eles são utilizados: “anúncios são incômodos, eu entendo”. Mais do que isso, ele afirma que não se importa que seus espectadores utilizem AdBlockers, mas, por outro lado, quer que eles saibam que isso não significa que eles são “espertos ou estão acima do sistema”. Muito pelo contrário, na opinião do gamer, o uso de softwares desse tipo tem um impacto significativo e extremamente danoso, não sobre ele, mas sobre os canais pequenos.

O sueco utiliza a palavra “devastador” para definir esse efeito, que é sentido diariamente pelos criadores menores. Crescer em um ambiente hostil e tão lotado como o YouTube já é difícil o bastante, e se torna ainda mais complicado quando o retorno financeiro, que já é pequeno, torna-se ainda menor devido à ação de agentes externos.

Youtube

Não é como se muita gente estivesse ganhando a vida com o YouTube. Muitos estão, e a esmagadora maioria deseja fazer isso um dia. Os rendimentos com anúncios, por exemplo, são a espinha dorsal da produção online de conteúdo. Seu criador preferido, com certeza, fez aquele vídeo que tanto te divertiu porque gosta, claro, mas também gostaria de ter algum tipo de compensação sobre isso. E é nesse segundo aspecto que soluções como os AdBlockers acabam interferindo.

Propagandas são importantes

É um conceito que, muitas vezes, nem mesmo passa pela cabeça das pessoas. De acordo com uma pesquisa da Teads, empresa que gerencia uma plataforma de monetização para produtores de conteúdo, 68% dos usuários subestimam ou desconhecem a influência das receitas de publicidade para sites ou criadores independentes de conteúdo.

Mais do que isso, ao usarem bloqueadores, eles não desejam deliberadamente cortar a fonte de renda de quem está trabalhando, mas sim se livrar de anúncios invasivos e melhorar a própria experiência. No final das contas, por desconhecimento, acabam tendo acesso, sim, ao conteúdo, mas minando o já baixo retorno de quem trabalha com isso.

Patreon

Essa dinâmica motivou, por exemplo, a criação de serviços como o Patreon, que permite aos criadores recorrerem diretamente aos fãs para monetização. Um valor determinado por eles é pago todos os meses, como um salário, daí o nome do serviço, “patrão”, em inglês. Enquanto isso, produtores mais especializados em vídeo apostam em sistemas de assinaturas no Twitch ou no próprio YouTube, oferecendo conteúdo exclusivo, ofertas especiais ou um contato mais dedicado.

São diversas as maneiras, mas nem todas acabam funcionando para 100% dos criadores. Resta a cada um buscar exatamente qual a alternativa que mais se adapta a seu estilo e formato, e, claro, se frustrar ao perceber que uma delas pode não ser tão rentável assim. O resultado de tudo isso é um fogo cruzado entre criadores e usuários, com vídeos agressivos de um contra outro e uma disseminação ainda maior da desinformação que pode acabar engolindo a todos.

Não é como se o YouTube Red fosse a grande solução também. Apesar de ela representar uma alternativa “oficial” ao AdBlock e reverter receitas para o Google, o repasse para criadores ainda é ponto de polêmica. A empresa, por exemplo, não disse a exata porcentagem de assinaturas a ser revertida para eles, afirmando apenas que “boa parte” dela será repassada, tampouco explicou exatamente como essa partilha vai acontecer, citando apenas o tempo de visualização como um dos critérios.

O próprio PewDiePie se mostrou preocupado com isso. Apesar de fazer parte do rol de criadores que terá conteúdo exclusivo disponibilizado no YouTube Red, ele não se mostra como um apoiador da plataforma. Para ele, algumas questões ainda devem ser respondidas. Quanto dos US$ 10 mensais de assinatura será repassado aos criadores? Esse total será igual, maior, ou menor às receitas oriundas de publicidade? Qual o benefício para os canais menores? E, acima de tudo, será que estamos diante de uma oferta que realmente vale a pena tanto para criadores quanto usuários?

A ideia de que todos deveriam aderir ao Red, independente de sua posição com relação ao serviço, também desagradou. Não existe uma opção de disponibilizar os vídeos apenas na versão “comum” do serviço – ou tudo aparece em todos os lugares, ou nada. Isso levou grande nomes como a ESPN, por exemplo, a retirarem todo seu conteúdo do YouTube, enquanto os criadores menores se viram sem opção a não ser aderirem aos termos, sob medo de perder sua audiência. Muitos nem mesmo chegaram a ser consultados sobre o assunto.

Luz no fim do túnel

Um estudo da TubeMogul, uma consultoria especializada em conteúdo online, pode indicar um caminho a seguir. De acordo com o trabalho, 64% dos usuários de internet afirmam que seriam mais simpáticos à exibição de anúncios caso eles fossem menos invasivos e mais relevantes, trazendo conteúdo e informação tanto quanto um vídeo ou texto em si.

Propagandas irritantes

O próprio Adblock, um dos maiores nomes entre os bloqueadores de anúncios, é prova dessa ideia. Recentemente, a empresa que o controla lançou um programa de “propagandas confiáveis”, que podem ser exibidas mesmo caso a extensão esteja instalada pelos usuários. Isso mediante, claro, pagamento, em uma solução que soou como desonesta para muitos criadores.

Apesar de tudo isso, o engajamento parece ser mesmo o caminho a seguir. A ideia é que existam anúncios melhores, que tragam conteúdo e sejam reproduzidos até o final apenas se o usuário assim desejar. Uma atrativa principalmente para os produtores de vídeo, são os acordos de product placement, nos quais a propaganda de um produto, por exemplo, é feita no próprio vídeo. Um gameplay patrocinado, por exemplo, serve tanto como propaganda quanto conteúdo, enquanto o uso de um microfone de uma marca específica pode servir como uma prova da qualidade do equipamento, enquanto o criador fala de algum outro assunto.

O principal problema, entretanto, é que isso nem sempre depende dos produtores e, mais uma vez, para os canais pequenos, obter contratos desse tipo é bastante complicado. Eles acabam tendo que recorrer aos anúncios convencionais do YouTube e, pelo menos por mais algum tempo, devem continuar a ser o lado mais frágil de uma corda que parece sempre estar prestes a estourar.