Word of Mouth 2014: depois do 'selfie', qual será a palavra do ano?

Por Colaborador externo | 17.11.2014 às 16:08

por Ana Laura Mello e Juliana Kataoka*

A cada ano, milhares de gírias e palavras nascem, mas apenas algumas têm força para morar na eternidade de um dicionário. Para ser o número #1 neste ENEM etimológico, a palavra tem de ser popular, ter originalidade — mesmo quando não for assim tão nova — e, principalmente, sintetizar o zeitgeist do ano que se encerra.

Em 2013, a escolha de “selfie” pela Oxford University Press não chegou a surpreender. Apesar de sua primeira menção datar de 2002, só no ano passado o termo caiu de verdade na boca da galera com um aumento de 17.000% no número de menções.

Selfie, na verdade, só é verbete porque somos ansiosos, inseguros e carentões. Por ação e consequência, viciados em nossos smartphones, de um jeito exibicionista, narcisista e individualista, só nosso. A popularização do termo traz um certo alívio. Ninguém vai te massacrar por postar uma selfie, não importa o tamanho do seu espelho ou da sua duckface.

Neste ano, a tag cloud linguística gira menos em torno do individual e mais do coletivo. Afinal, 2014 foi um ano de confronto, posicionamento e muito textão no Facebook.

Vivemos intensamente as manifestações, a Copa e as eleições. Pelo mundo, as pessoas ficaram apreensivas com o ebola, celebridades tiveram suas fotos devassadas e jogadas na rede. Uma negra foi escolhida a mulher do ano e uma garota paquistanesa defensora do acesso à educação levou o Nobel da Paz.

Bancando os videntes, tentamos imaginar as palavras, quatro em inglês e uma em português, com maior potencial de eternização nos dicionários do ano que está por vir.

1. Feminism

O significante já existe, mas o significado precisa se atualizar. O feminismo não é o mesmo que aprendemos quando crianças, muito menos o mesmo do ano passado. Mais inclusivo, menos taxativo, a cada dia que passa somos surpreendidos com uma personalidade inesperada a sair do armário feminista.

Há dois anos, quem diria que Beyoncé iria samplear uma leitura de uma escritora feminista e jogar o "adjetivo que nenhuma mulher deve querer se associar" no telão?

2. Shippar

Fruto de nossa obsessão por saber e falar da vida alheia, o termo shippar (ou shipping, em inglês) nasceu para que possamos dar nossas "bençãos virtuais" aos casais reais, fictícios ou imaginários. No Brasil, o maior momento do termo aconteceu no BBB14 quando os espectadores começaram a shippar o casal Clanessa e garantiu que uma das integrantes desse feud (panelinha) vencesse o reality. Recomendamos a leitura deste artigo que explica o conceito de forma memorável.

3. YOLO

Sob o risco eminente de escassez de recursos, aquecimento global, o mundo como estamos acostumados pode acabar amanhã, começando pela água do seu banho. Surge daí uma ansiedade desesperada para fazer tudo o que não fizemos antes. Assim, a abreviação em inglês da expressão You Only Live Once  —  "só se vive uma vez"  — se torna um moto de domínio público, o lema de uma geração.

4. FAP

Com a guinada do feminismo, o sexismo ortodoxo se viu obrigado a responder. O termo fap, antes restrito ao público onanista, foi forçado goela abaixo para o público em geral com o fappening, ocasião em que fotos íntimas de celebridades se tornaram públicas. Este ano, você foi obrigado a saber, querendo ou não, o significado de fap.

5. Miga

Para tristeza das inimigas e dos pessimistas, sediamos a "Copa das Copas". Um evento esportivo com cerveja e gringos suficientes para unir o povo em uma verdadeira nação verde-amarela. Do dia para noite viramos todos amigos, mas como esse aqui é o ano do feminismo, viramos amigas.

Miga, na verdade, surgiu como uma forma de ridicularizar o jeito "afetado" de falar de algumas pessoas. Ou mesmo quando você entra em uma loja e a vendedora resolve fazer a íntima. Como qualquer história que quando repetida suficientes vezes se torna verdade, quem chamou muito de miga no Twitter, mesmo que de brincadeira, invariavelmente vai trazer o hábito para a vida real e, se não tomar cuidado, a sério.

As migas, assim como as selfies, antes hostilizadas, venceram a Copa do Mundo do vernáculo e caminham para serem aceitas e incorporadas à sociedade.

Não temos a expectativa de acertar a seleção do Oxford ou do Aurélio, mas tentamos ir além das gírias da internet, trazendo palavras que consideramos uma tradução livre do espírito do nosso tempo. E que tempo!

*Ana Laura Mello é co-fundadora e diretora de criação da Remix Social Ideas e Juliana Kataoka é Coordenadora de Conteúdo na Remix Social Ideas