Conversamos com Scott Lamb, VP do BuzzFeed, para entender qual o futuro do site

Por Rafael Romer | 22 de Julho de 2014 às 08h45

A não ser que você esteja se escondendo sob uma pedra sem conexão nos últimos anos, é bem provavel que já tenha esbarrado com um link do BuzzFeed compartilhado na sua timeline do Facebook ou Twitter. É bem provável, aliás, que isso já tenha acontecido hoje. Talvez mais de uma vez, na verdade.

Nascido em 2006, em Nova York, o BuzzFeed surgiu como uma espécie de "laboratório de virais": uma página experimental para curadoria, criação e explicação de memes e cultura da web. Sempre com conteúdo divertido e de linguagem próxima à utilizada por grande parte dos internautas norte-americanos, o site foi responsável por divulgar vários memes e virais em um momento no qual as redes sociais ainda não eram onipresentes na web.

Mas a partir de 2012 o site começou a se preparar para uma nova empreitada na direção de um conteúdo editorial de jornalismo sério. Com a cobertura de eventos como política, eleições, cultura e economia, o site passou a investir não só na fórmula que já fazia sucesso, mas em um modelo tradicional de redação notíciosa. Hoje, a sede do Buzz Feed, em Nova York, já tem equipes separadas: a equipe "criativa" e a "editorial", que atuam para os setores de entretenimento e jornalismo, respectivamente.

"Nós queremos um equilíbrio entre ambos. As coisas engraçadas, listas, quizzes, tudo isso é muito importante para nós, as pessoas amam e muitos leitores vão ao BuzzFeed para isso. Ao mesmo tempo, investimos muito para contratar jornalistas, começamos uma unidade investigativa, temos correspondentes ao redor do mundo", explicou Scott Lamb, Vice Presidente Internacional do BuzzFeed.

Na última sexta-feira (18), Lamb esteve em São Paulo para uma apresentação no festival de cultura de rede YouPIX, onde falou sobre a atual imagem e relevância do site, quando deu entrevista ao Canaltech. "Nós sabemos que vai levar um tempo para as pessoas perceberem que isso é o que fazemos, nós começamos como uma coisa e agora estamos mudando. Vai demorar para as pessoas mudarem suas percepções".

BuzzFeed

Na última sexta-feira (18), Lamb esteve em São Paulo para uma apresentação no festival de cultura de rede YouPIX, onde falou sobre a atual imagem e relevância do site (foto: Rafael Romer/Canaltech)

Mas como funciona o BuzzFeed?

Acelerando para 2014, o BuzzFeed já é hoje o 112º site mais acessado do mundo, segundo dados do Alexa. Nos Estados Unidos, o www.buzzfeed.com é o 39º domínio mais visitado, com uma média de permanência diária de quatro minutos e 15 segundos por usuário.

Em março deste ano, o BuzzFeed desembarcou oficialmente no Brasil, com o lançamento de uma página totalmente em português e com conteúdo localizado para o mercado nacional.

O país foi o quinto a fazer parte do grupo dos que possuem hoje um página própria do BuzzFeed, que, além dos Estados Unidos, é claro, inclui o Reino Unido, Austrália, França e Espanhol - esse último focado em toda a América Latina de língua espanhola, além da própria Espanha.

Todas essas unidades do BuzzFeed juntas geram atualmente uma média de 400 posts diarios, que incluem conteúdo noticioso e de entretenimento, como as famosas listas e quizzes.

E como era de se esperar, as ideias para criação do conteúdo de entretenimento vêm de todas as fontes possíveis: sugestões de outras pessoas, inspiração própria dos autores, eventos do cotidiano, memes e notícias recentes e redes sociais como Twitter, Facebook e até o Reddit. No caso de bloqueio criativo, o site tem até um gerador de chamadas randômico com cara de BuzzFeed - vai que alguma ideia boa sai daí.

"É um processo muito colaborativo, todo mundo tem espaço para experimentar. Tem muito de blog, onde o redator vem com a ideia, escreve uma chamada, escreve o post, coloca as imagens", conta. Para agilizar o processo, as equipes são dividas em times menores e mais próximos, de quatro ou cinco pessoas, que colaboram entre si para trocar ideias.

Há poucas restrições sobre o que os redatores não devem postar no site - os redatores possuem basicamente carta branca para publicar suas próprias ideias no site. Eles também não têm nenhum tipo de meta diária de postagens, o que, na opinião de Scott, só colaboraria para tornar o processo maçante e não-criativo.

Em linhas gerais, Scott afirma que postagens "sem sentido", "bobas" ou que nao refletem a cara do site, como um tema muito obscuro, geralmente ficam de fora. A publicação também mantém uma política de "no haters": "BuzzFeed é muito mais sobre entusiasmo e pessoas curtindo coisas do que sobre críticas", explica.

Expansão internacional

Criado há cerca de um ano e meio pela proximidade cultural e da lingua, o escritório de Londres foi a primeira experiência do BuzzFeed fora dos Estados Unidos. Em seis meses, a iniciativa se provou bem-sucedida e hoje o escritório inglês já conta até com equipe de vendas própria.

O próximo passo foi observar outros potenciais espaços com "cara de BuzzFeed" nos quais novos escritórios fariam sentido. E São Paulo se encaixou bem na proposta. "Há muita cultura de startups por aqui. Mídia, memes e vídeos interessantes saem do Brasil, então pensamos que seria um lugar onde poderíamos contratar pessoas para trabalhar", explica o executivo.

Aqui no Brasil, a equipe do BuzzFeed existe deste março e tem somente três colaboradores, que são responsáveis por todo o conteúdo local da página. Por causa disso, Scott reconhece que muito do conteúdo postado no BuzzFeed ainda tem cara de Estados Unidos e vem de traduções de posts da matriz.

Mas isso deve mudar em breve: assim como já por lá, o BuzzFeed está planejando uma cobertura especial das eleições brasileiras deste ano, o que deverá aumentar o fluxo de conteúdo local, além da equipe por aqui.

"Nós queremos falar das eleições de um jeito que ninguém na mídia brasileira está falando", conta Lamb. Na avaliação do BuzzFeed, e assim como a Copa do Mundo foi, o pleito eleitoral será um prato cheio de conteúdo de cultura de internet e memes, o que deve ser explorado pela versão nacional da publicação. "Nós queremos ser parte disso, curando ou criando conteúdo", explica.

E o site não deve parar por aí. De acordo com Scott, até novembro deste ano, três novas versões locais do BuzzFeed devem ser lançadas: na Alemanha, na Índia e no México. "Possivelmente", o Japão também deverá receber um novo BuzzFeed até o final do ano.

Vai durar para sempre?

Quase tudo na Internet parece ter uma "vida-útil". No começo deste mês, por exemplo, nós brasileiros recebemos com tristeza a notícia de que o Orkut deixará de existir a partir do próximo dia 30. E se hoje o modelo de listas e quizzes que torna o BuzzFeed tão popular funciona, será que os usuários poderão se enjoar dele?

"É difícil dizer, mas eu acho que a pergunta mais importante para nós é se a ideia de que pessoas compartilham mídia como parte de suas identidades vai continuar existindo nos próximos 20 anos", pondera o executivo. "Se esse for o caso, alguma versão da ideia do BuzzFeed vai continuar por aí".

Sem deixar espaço para suposições, o BuzzFeed já está pondo em prática seus experimentos para continuar evoluindo e transformando seu conteúdo e não perder o momento que já acumulou. A presença da marca no YouTube também é parte disso.

O canal principal do BuzzFeed existe há dois anos e já reúne mais de 2,5 milhões de inscritos. Há pouco mais de um ano, o site criou um segundo canal, o BuzzFeed Yellow, focado em moda e lifestyle, que já tem mais de 1,4 milhão. Com dois meses, o mais novo da família é o BuzzFeed blue, focado em ciência e com pouco mais de 300 mil assinaturas. "Nós nos preocupamos que, talvez, em três meses ninguém mais vai querer compartilhar listas. Então nós temos que constantemente nos forçar a tentar criar novas ideias", explica.

Como parte da estratégia de renovar a marca, o BuzzFeed causou alguma polêmica na semana passada quando notícias de que o site estava deletando seus conteúdos antigos surgiram na web. Segundo um artigo do Gawker, o site estaria deletando vários post populares de 2010 e 2011, o que, de acordo com o BuzzFeed, faria parte de uma readequação do site às suas novas linhas editoriais. "Nós não tinhamos muitos padrões editoriais. Escrevíamos sobre qualquer coisa, de qualquer jeito que quiséssemos. E sentimos que algumas coisas do arquivo não cumprem com os requisitos editoriais que temos agora", justifica.

"Nós estamos tentando construir uma empresa que esperamos que estará por aí em 20, 50 anos, da mesma forma como as empresas de mídia que existem hoje começaram quando jornais foram inventados ou rádios e TV explodiram", explica.

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