Poder midiático do ISIS preocupa autoridades americanas

Por Redação | 01 de Setembro de 2014 às 12h00

Quem acompanha não só o noticiário de tecnologia, mas também as informações do mundo está ouvindo falar bastante no ISIS, um grupo extremista islâmico que vem sendo a pedra no sapato do governo norte-americano. A facção segue em sua luta armada cidade por cidade na Síria e no Iraque, enfrentando dissidentes e estabelecendo controle na busca pela criação de um Estado islâmico unificado – o califado –, baseado em uma interpretação bastante literal e, muitos diriam, arcaica do Alcorão.

Apesar de seus métodos de combate e execuções lembrarem os do passado, a estratégia para passar sua mensagem ao mundo, porém, é bem moderna. E é exatamente isso que preocupa o governo dos Estados Unidos: a utilização massiva de redes sociais, vídeos extremamente bem editados e imagens limpas para mostrar sua supremacia e crescimento ao longo do tempo.

É justamente todo esse poder midiático do ISIS que é assunto de uma reportagem do jornal The New York Times. Em edição deste domingo (31), a publicação cita o grupo islâmico como tendo a aparência de uma força implacável, a primeira capaz de lutar contra fronteiras e divisões estabelecidas pelos ocidentais há quase 100 anos, durante a Primeira Guerra Mundial.

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Um dos fatores que mais preocupam as autoridades americanas é o alcance que tal mensagem está tendo, motivando o recrutamento de, estima-se, quase dois mil ocidentais. Os números incluem pelo menos 100 americanos, entre mercenários, soldados e ex-membros das Forças Armadas, que os Estados Unidos acreditam terem sido seduzidos pela mensagem de poder e revolução propagada pelo ISIS.

ISIS

O dinheiro obtido por meio de roubos a banco, saques nas cidades conquistadas e até mesmo golpes online facilitam a conquista de territórios que, por consequência, ajudam muito no recrutamento. Ninguém quer ajudar o time que está perdendo, mas as imagens de soldados desbravando cidades a bordo de imensos tanques de guerra soam à libertação. Ajuda, também, o fato de muitos dos vídeos falarem idiomas como o inglês, acessíveis para todos, e com pouco sotaque, o que reduz a rejeição. “Venha fazer parte de algo maior do que você mesmo” é a palavra de ordem, voltada principalmente aos jovens.

Outro fato importante é a ausência de ameaças aos Estados Unidos ou ao estilo de vida de quem está deste lado do mundo, uma tradição em mensagens de grupos como o ISIS. Apesar delas aparecerem eventualmente – como no grotesco clipe no qual o jornalista James Foley é decapitado diante das câmeras –, elas não são muito comuns e acaba passando a impressão de que se trata de um grupo islâmico cuidando “dos próprios negócios” e não tentando impor um padrão a todo o mundo.

É uma ameaça pouco citada, mas que para o governo dos EUA, está vindo. Para os órgãos de segurança e inteligência, o ataque ao Ocidente pode não ser uma prioridade, mas a ideia geral é garantir que a ameaça seja destruída antes que a própria América, bem como outros aliados. E é aí que está a grande dificuldade de se contar um grupo de cresce mais a cada dia e ganha aliados de todo o mundo, tudo por meio da rede.

Domínio tecnológico

A internet, desde sempre, vem sendo um meio de divulgação das ideias de grupos como o ISIS. Mas nenhum, como aponta o NYT, mostrou um conhecimento tão amplo de como funcionam as redes sociais. As imagens divulgadas são limpas e coloridas. Poucas informações são censuradas e os clipes apresentam cortes rápidos, além de referências ou linguagem parecidas com videogames ou séries de televisão.

São trabalhos que parecem prontos para compartilhamentos, e eles realmente são. O SoundCloud, por exemplo, é usado para o lançamento de relatórios de combate diretamente das fronteiras, enquanto grupos no WhatsApp e contas no Instagram divulgam vídeos e imagens. Uma vez bloqueados, eles retornam rapidamente e continuam o trabalho como se nada tivesse acontecido.

Apesar de todo tipo de interessado ser aceito, o grande foco aqui são os jovens muçulmanos, para quem o ISIS fala no califado como um dever e uma honra. A mensagem é glorificante e discorre sobre abandonar as mordomias do mundo ocidental em troca do trabalho divino. Ou, em outras palavras, trocar uma vida indigna por algo grandioso e glorioso.

ISIS

É uma abordagem que, de acordo com o jornal, vem tendo resultado. Contas oficiais no Ask.fm vêm sendo inundadas de questões sobre logística, de gente que quer saber para quais cidades na Turquia ou Síria devem se dirigir, o que devem levar em termos de roupas e calçados ou se itens de higiene como escovas de dente ou xampu estão disponíveis. Os membros do ISIS respondem a tudo, mas não são específicos. Ao chegarem, os interessados no recrutamento devem usar o mensageiro Kik para se comunicarem com membros do grupo e continuarem o papo em particular.

Campo de batalha digital

A resposta ocidental vem na forma de ataques de drones e reposicionamento de tropas em solo. Mas a maior batalha, segundo o jornal norte-americano, acontece na internet, no mesmo front em que o ISIS exibe suas vitórias e recruta novos aliados. Uma campanha de propaganda já está em andamento, segundo informações oficiais.

Uma hashtag, por exemplo, serve para demonstrar o lado mais obscuro das batalhas do ISIS, com imagens de destruição e morte nas cidades por onde o grupo passa. Contas no Facebook e Twitter contam histórias de horror sobre alguns dos sobreviventes das cidades conquistadas, também com imagens tão límpidas e gráficas quanto as usadas pelos islâmicos.

Houve pouco confronto direto. Mas uma conta relacionada ao Departamento de Estado norte-americano, uma única vez, respondeu a um militante do ISIS. Abu Turaab afirmou saber que muita gente está enfrentando obstáculos para se unir ao grupo, mas pede que todos mantenham o desejo pela Jihad vivo em seus corações. A resposta veio na forma de ameaça: “Os recrutas têm duas escolhas: cometer atrocidades e morrer como criminosos, ou serem presos e passarem a vida na prisão”.

No momento em que a reportagem do The New York Times foi escrita, a mensagem inicial contava com mais de 30 “favoritadas”, enquanto a dos EUA tinha zero. Após a publicação da edição, porém, 31 usuários curtiram a mensagem do Departamento de Estado, misteriosamente empatando-a com a do ISIS. Para muita gente, essa é só mais uma indicação de que, pelo menos na internet, um dos lados parece estar vencendo.

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