NETMundial: Assange e outros ativistas digitais falam em painel sobre vigilância

Por Joyce Macedo | 24.04.2014 às 23:24

São Paulo recebeu nesta semana o evento #ArenaNETmundial ParticipaBR, que foi palco de discussões acerca de uma internet livre, colaborativa, democrática e plural. Nesta quinta-feira (24), um dos temas centrais foi a "Soberania digital e vigilância na Era da internet".

Especialistas na defesa pela privacidade e segurança digital participaram do painel, que foi uma espécie de “lado B” do NETMundial, evento que reúne na cidade representantes de mais de 90 países para discutir a governança da internet.

Entre os debatedores estavam Jacob Appelbaum, um dos principais nomes por trás da Rede de Anonimato Tor, Roy Singham, da ThoughtWorks, Natália Viana, responsável pelo WikiLeaks Brasil e até mesmo Julian Assange, o próprio criador do WikiLeaks.

A base da conversa foi o caso do ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), Edward Snowden, que revelou uma série de documentos confidenciais que apontam para uma vigilância indiscriminada por parte do governo norte-americano.

Criptografia

Durante a conversa, o sociólogo e ativista digital Sérgio Amadeu defendeu fortemente o uso de comunicação criptografada para comunicação pessoal como uma forma de proteção – e também como uma forma de "dar prejuízo para a NSA". Isso porque, de acordo com Roy Singham, a NSA gasta US$ 0,13 ao espionar cada cidadão do mundo. Logo, quanto mais criptografia gerarmos, mais difícil e cara será essa tarefa.

Roy também aproveitou para fazer um apelo à comunidade hacker do Brasil, dizendo que os cidadãos comuns precisam de sua ajuda para tornar a criptografia algo mais popular, afinal nem todos sabem como lidar com ela. A criação de sistemas mais “palpáveis” ajudaria na disseminação dessas técnicas e aumentariam a segurança de suas informações.

“Quem mais invade as máquinas das pessoas não são crackers nem hackers, são grandes corporações”, disse Sérgio. O professor seguiu dizendo que é preciso colocar nossa privacidade acima dos interesses dessas corporações. "A fronteira da guerra cibernética é o nosso computador. As pessoas deveriam exorcizar o Windows das suas máquinas”, concluiu Sérgio.

NETMundial e o Marco Civil

Todos os participantes elogiaram a iniciativa do governo brasileiro em promover um dos maiores debates acerca de internet no mundo, citando-o inclusive como “um grande passo em direção a mudanças nas diretrizes da governança da internet”.

Roy chegou a dizer que o Marco Civil da Internet foi uma das primeiras legislações a levar os direitos humanos para a área digital, e, mesmo sem ser perfeito, é a primeira vez que alguém levantou a mão para dizer que a internet é para o povo, e não para as corporações.

O CEO da ThoughtWorks também foi o responsável por estabelecer uma videoconferência com Julian Assange durante o debate. Apesar de alguns problemas técnicos durante a conexão, o criador do WikiLeaks, que está há exatos 1.233 dias na embaixada equatoriana em Londres, também se manifestou em favor do Marco Civil, dizendo que trata-se de algo “louvável”.

Assange, que vestia uma camisa do Brasil durante a transmissão, fez questão de destacar a importância de cobrarmos tudo o que diz o documento assinado pela presidente Dilma Rousseff, pois apenas porque algo foi aprovado, não quer dizer necessariamente que será cumprido.

Arena NETMundial

Julian Assange participa de videoconferência usando camisa do Brasil

Censura

Jacob Appelbaum foi firme ao dizer que o evento foi afetado pela censura que ainda existe no Brasil, e que pouco antes de subir ao palco ainda acreditava que o painel pudesse ser cancelado devido às fortes opiniões dos participantes – em grande parte, contrárias aos governos.

Assange compartilhou da opinião do criador do Tor, e disse ainda que o NETMundial foi comprometido pela pressão geopolítica dos EUA e seus aliados. “Os EUA têm sido colonialistas na internet e reconhecem a ameaça brasileira nesse campo”, disse. "Ocupar a Internet é ocupar a sociedade”, completou.

Arena NETMundial

Jacob Appelbaum, um dos criadores do Tor, fala durante o #ArenaNETmundial ParticipaBR

Asilo político

Natália Viana, responsável pelo WikiLeaks Brasil, puxou um dos assuntos que mais agitaram a plateia durante o painel: a posição do Brasil nos casos Assange e Snowden. Para ela, a presidente Dilma deveria conceder asilo político ao ex-analista da NSA, principalmente devido ao fato de ter se mostrado tão ofendida com a descoberta de que também foi vítima da espionagem norte-americana.

Ela ressaltou ainda que o país é um forte candidato para intermediar o impasse entre Equador e Reino Unido no caso de Assange, principalmente devido à competência do Itamaraty na solução de casos internacionais.

Por fim, enquanto sua situação segue estagnada, Julian Assange convocou todos para lutarem juntos a favor de uma mudança na atual situação em que vivemos.