John Lasseter, do lápis até a Pixar!

Por Gustavo Linares | 10 de Fevereiro de 2012 às 18h58

Talvez você não reconheça o nome e nem mesmo a pessoa, mas caso tenha crescido durante a década de 90, John Lasseter é a principal mente criativa por trás de filmes já clássicos de nossa geração, responsável por obras como Toy Story, Vida de Inseto, Wall-E e UP, além de produtor e consultor de todos os filmes feitos pela Pixar e - atualmente - Disney.

John com uma de suas criações

John Alan Lasseter, nascido em 12 de Janeiro de 1957, na California, já sabia desde jovem a sua vocação para desenhos. Filho de um vendedor de carros e uma professora de artes, se interessou desde cedo por histórias e contos de fada, mais especialmente filmes feitos em animação, decidindo assim, desde jovem, que seu caminho realmente seria se tornar um animador.

Embora tendo seguido a tradição familiar e ido estudar primeiro na prestigiada faculdade Pepperdine, em Malibu, como seus pais e irmãos antes dele, John logo percebeu que não conseguiria ficar longe de seus sonhos e, com a família o encorajando, abandonou a faculdade para se tornar o então segundo matriculado de um novo curso de animação do California Institute of the Arts, a renomada faculdade CalArts. Seus colegas de classe? Os então desconhecidos Tim Burton, Brad Bird e John Musker, diretores de futuras obras-primas como Noiva Cadáver, Os Incríveis e A Pequena Sereia, respectivamente. Na foto, enquanto Brad Bird (atrás do professor, ao centro) e John Musker (sentado, a direita) aparecem tranquilos, Lasseter eterniza sua descontração, algo que viria a ser sua marca registrada ao longo da vida, aparecendo - ao fundo - prestes a estrangular um de seus companheiros de curso.

Foi em seu ano de formatura na faculdade que John Lasseter se tornou guia turístico nos parques da Disneylândia, na California. Promovido a responsável pela atração Jungle Cruise - onde fazia a apresentação do brinquedo, narrando ao vivo a aventura bem humorada de um barco passando por uma selva - que Lasseter desenvolveu seu timing para contar histórias, já que o público, dependia apenas de sua narrativa para entrar naquele mundo.

Será que veio daí sua obsessão por camisas com estampas havaianas?

Do lápis ao Computador!

Em 1979, depois de ganhar certo prestigio na CalArts ao receber um Student Academy Awards, prêmio de votação popular da facudade para trabalhos de estudantes, pelo seu curta-metragem "Lady and the Lamp", John conseguiu uma vaga de animador em tempo integral dentro dos estúdios Disney, onde pode desenvolver suas técnicas ao trabalhar em diversas animações do estúdio na época, tais como os clássicos filmes "O Cão e a Raposa" e "Contos de Natal do Mickey". Em 1980, mesmo ano de sua formatura, John ainda ganhou um segundo Student Academy Awards, desta vez por "Nitemare", curta que escreveu e dirigiu como trabalho de seu último ano.

Foi dentro dos seus cinco anos de trabalho como animador na Disney que John teve sua primeira experiência em animação digital. Durante a produção do filme TRON, de 1982, que misturava atores com computação gráfica, que Lasseter vislumbrou o poder que a nova tecnologia podia gerar. Com o apoio do chefe do departamento começou a desenvolver um curta animado que misturava animação tradicional com a digital, baseado no clássico infantil "Onde Vivem os Montros". Pouco depois, contudo, a própria Disney cortou os recursos do desenvolvimento do curta alegando que "não via futuro para animação digital". E junto com o corte de orçamento veio a demissão de Lasseter.

Mas, acreditando estar a frente de um novo tipo de mídia, aceitou o convite de Ed Catmull e se integrou a Divisão de Informática da Lucasfilm Ltd, departamento de desenvolvimento de novos hardwares para efeitos especiais da Industrial Light and Magic, pioneira empresa de efeitos especiais de George Lucas. Foi lá que John ganhou certa notoriedade na área ao desenvolver e assinar a direção do curta "As Aventuras de André e Wally B.", oficialmente o primeiro curta animado a apresentar personagens e cenários totalmente gerados em 3D. Em 1985, foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento do personagem "Cavaleiro de Vitral" para o filme "O Enigma da Pirâmide", considerado nos dias de hoje o primeiro personagem totalmente feito por computador e integrado a um filme. Só para reforçar... isso em 1985!

O nascimento de um Império

Ed Catmull, Steve Jobs e John Lasseter

Foi em 1986, porém, que a história começou a ser definitivamente escrita! Endividado por causa de um complicado divórcio, George Lucas tinha a necessidade de gerar dinheiro rápido e, ao cortar recursos de sua empresa, vendeu a Divisão de Informática para o então presidente da Apple Inc, Steve Jobs. O renomado diretor ainda o alertou: "Sabe, esses caras só querem saber de animação", sem saber, contudo, que essa era realmente a intenção de Jobs. "Eu quis comprá-la porque estava realmente interessado em computação gráfica", declarou ele anos mais tarde. "Quando vi o pessoal da informática da Lucasfilm sabia que estavam bem a frente de outros na combinação de arte e tecnologia, que foi o que sempre me interessou". Jobs comprou a empresa por cinco milhões de dólares, prometendo investir outros cinco em capital.

Com um novo dono, novos recursos e um foco diferente para se trabalhar, a então divisão da Lucasfilm virou a Pixar Inc., empresa que continuava a desenvolver hardware para animação digital, mas que mantinha John Lasseter na folha de pagamento como "chefe de animação", encarregado direto na criação de curtas animados que pudessem ilustrar as qualidades técnicas da nova empresa. Ganhando grande simpatia de Jobs, que o considerava como um igual, tanto artista quanto visionário, John ganhou também carta branca dentro da empresa. Ele então escreveu e dirigiu "Luxo Jr.", uma história de dois minutos que conta a história de duas luminárias - pai e filho - atrás de uma bola. Veja:

O vídeo, criado para demonstrar a nova tecnologia (toda iluminação da história é gerada pelos próprios personagens, por exemplo), levou a empresa a um novo patamar. Durante a primeira exibição pública do filme, na SIGGRAPH, conferência anual de animação gráfica, que Steve Jobs percebeu a total capacidade de sua empresa. "Nosso filme era o único que tinha arte, não apenas tecnologia. O negócio da Pixar era fazer essa combinação, a junção entre tecnologia e arte". No fim daquele ano, Luxo Jr. foi indicado ao Oscar por Melhor Curta de Animação, prêmio que - embora não ter ido para a Pixar - deu a Jobs a visão dos rumos que a empresa deveria realmente seguir. A companhia, então, virou a Pixar Animated Studios, e passou a usar a luminária Luxo Jr. como símbolo da empresa.

Logotipo da empresa

"Desde o começo eu já falava, não é a tecnologia que vai entreter o público, é a história! Quando você vai assistir um ótimo filme, com atores, você não sai do cinema e fala 'ei, aquela câmera nova da Panavision é realmente boa hein, fez o filme ótimo', é apenas uma ferramenta a serviço da história", afirmou Lasseter.

Com isso, John recebeu a missão de assinar um curta metragem por ano para o estúdio. Com a liberdade que sempre sonhou, Lasseter podia escrever, produzir e dirigir seus próprios projetos. Em 1988, com "Tiny Toy", o segundo curta animado do estúdio, que mostrava a aventura de um pequeno brinquedo para fugir de um bebê (primeiro personagem humano feito inteiro em CGI, sigla para Computer Generated Image, ou no bom português, imagem gerada por computador). O agora diretor ganhou, então, o Oscar por Melhor Curta Animado, o primeiro dele e da Pixar. O sucesso havia chegado!

Ao Infito e Além

Com o sucesso de Tiny Toy e o constante avanço da tecnologia na época, a própria Disney se interessou pelo novo estúdio e tentou uma parceria. Se em um primeiro momento o interesse era produzir um especial de fim de ano de Tiny Toy para a televisão, no final das negociações, em 1991, os estúdios Pixar haviam conseguido um contrato de financiamento para três longa-metragens, além de 10% da participação dos lucros. Com isso, John ganhou a missão de escrever e produzir o primeiro longa-metragem totalmente feito em computação gráfica, projeto que demorou quatro anos para sair do papel.

Toy Story, a história de dois brinquedos que brigavam pela atenção de seu dono se tornou um marco na história do cinema e um verdadeiro fenômeno mundial, tanto de crítica quanto de bilheteria, comovendo crianças e adultos carentes de contos de fadas e arrecadando mais de 400 milhões de dólares ao redor do mundo. Embora tenha recebido outras quatro indicações naquele ano, Lasseter recebeu um Oscar Especial por Realizações Técnicas, prêmio especial mais do que merecido por suas contribuição no desenvolvimento técnico de novas tecnologias que permitiram a criação de um longa metragem em CGI. É curioso percebemos como o filme representa o ápice de uma vida criativa, já que ele integra elementos que já haviam sendo desenvolvidos por Lasseter a algum tempo, como a antropormofização de objetos (transformar objetos em seres vivos, como a lúminária Luxo, o pequeno soldado de brinquedo Tiny Toy, até chegarmos finalmente a Toy Story). Receita testada e aprovada!

"Nós fazemos o tipo de filme que gostaríamos de ver, nós amamos poder rir, mas também acreditamos naquilo que Walt Disney dizia, que para cada risada deve haver uma lágrima. Eu amo filmes que me fazem chorar, porque eles mexem com emoções que são minhas, e sempre penso como eles conseguiram isso?'

Com o financiamento e o sucesso já garantidos, John pode se concentrar naquilo que sempre o moveu, a ambição de criar grandes histórias aliando arte e tecnologia. Como chefe de criação da Pixar, virou o centro criativo e a força motivadora por trás de todos os filmes seguintes do estúdio, dirigindo de forma contínua os primeiros filmes do estúdio, os sucessos "A Vida de Inseto" (1998) e "Toy Story 2" (1999).

E mesmo fora da direção, Lasseter ainda produziu todos os filmes do estúdio já feitos, estando por trás da criação de obras como "Monstros S.A" (2001), "Procurando Nemo" (2003) e "Os Incríveis" (2004). Surpreendentemente, não só os filmes foram seguidos sucessos de bilheteria mas também verdadeiros marcos de crítica em seus anos de lançamento. Em 2006 ele voltou para a cadeira de diretor para dirigir um projeto especial para ele, "Carros", que misturava duas paixões de sua vida, carros e estradas.

Muitos personagens de sucesso, não?

Foi em 2006, também, que aconteceu o maior salto na já espetacular carreira de Lasseter. Após o sucesso dos três primeiros filmes da Pixar em parceria com a Disney, o contrato entre eles foi refeito para se estender a seis obras originais (além de uma divisão adicional de 50% nos lucros), contrato que se encerraria com o lançamento de "Os Incríveis", em 2004.

Porém, em uma jogada estratégica por parte da Disney, o segundo filme da série Toy Story, por ser uma continuação, não era legalmente considerado como obra original pelo contrato, pressionando a Pixar a fazer um novo acordo com o estúdio. Eles, sentindo-se traídos pela empresa, passaram então a negociar contratos de distribuição com outros estúdios, o que forçou a Disney - que tinha nos personagens criados pela Pixar seus maiores sucessos nos últimos 10 anos - a reforçar outra cláusula do contrato: os direitos dos personagens, que os permitiam fazer continuações sem qualquer participação da Pixar.

Em uma série de decisões erradas, os estúdios Disney passaram então a produzir "Toy Story 3" sem a participação de seus pais e criadores, a Pixar. Isto em uma época em que o nome do estúdio já era sinônimo dos seguidos sucessos de crítica e público, mesmo período em que a Disney amargava fracassos seguidos em todos segmentos, fossem animações 2D (Planeta Tesouro, Irmão Urso) ou mesmo em 3D (Galinho Chicken Little, primeiro filme CGI da Disney, fracasso tanto de bilheteria quanto crítica).

Talvez eles tivessem esquecido quem era o dono da Pixar, pois Steve Jobs, famoso por ser um negociador implacável, era alguém assumidamente rancoroso. Com sua recusa em ceder em qualquer um dos termos em que exigia mais poder pra Pixar, Jobs não deixou outra alternativa se não a compra por parte da Disney de todo o estúdio Pixar. O preço? "Apenas" sete bilhões de dólares em opções de ações da Disney Inc., o que o transformava no maior acionista da empresa, além de uma promoção para Lasseter, que agora era o Presidente de Criação de todo o Departamento de Animação Disney, garantindo a ele todo o controle criativo sobre futuras produções do estúdio, fossem elas em 3D, 2D, cinema ou televisão, com os personagens da Pixar ou não. Ou seja, o futuro em suas mãos!

Essa nova posição de Lasseter como chefe-criativo de animação e a retomada de sucesso nas produções da Disney garantiram a John sua fama de verdadeiro salvador dos estúdios Disney. Além de estar por trás das produções que vinham da Pixar, que manteve sua autonomia quase independente, impôs seu crivo criativo em todas as partes, de roteiro até design de produção, de todos os novos filmes de animação que vinham da Disney, cancelando e reformulando diversos projetos nas enormes divisões do estúdio.

Isso tudo garantiu os primeiros sucessos da Disney em anos, para filmes que não eram tercerizados, produzindo obras como "A Princesa e o Sapo" (em 2D), "Bolt" e "Enrrolados" (ambos em 3D).

John Lasseter já como Presidente de Criação da Disney... e ainda de camisetas havaianas!

Apesar de ter se tornado um dos presidentes da maior empresa de animação do mundo, ele ainda é uma figura que inspira carisma e simpatia. Figura facilmente reconhecivel para quem gosta de cinema, já que ama falar sobre a arte que vive, conseguiu com seu novo cargo a chance de promover aquilo que sempre o atraiu, o amor por animações e grandes histórias. Graças ao seu novo poder, por exemplo, os filmes de animação japonesa de Hayao Miyazaki, que até então tinham elementos claramente plagiados por obras da Disney em anos recentes, passaram a ser distribuidos dentro dos Estados Unidos pela própria Disney, com Lasseter fazendo a direção de roteiro para a tradução para o inglês. De todos eles!

Para se ter idéia da influência do diretor, Lasseter é também um dos principais consultores do Walt Disney Imagineering, o laboratório de criação das atrações de todos os parques temáticos do Walt Disney World. Um salto e tanto pro jovem que anos antes era apenas um mero funcionário dos parques da Disneylândia. Em 2011, aos 54 anos, mesmo ano em que ganhou uma estrela na calçada da fama na famosa Hollywood Boulevard por sua contribuição para o Cinema, voltou para a cadeira de direção. Sem deixar seu posto de CCO.

Como ele consegue dirigir um filme produzindo diversos outros? Bem, durante a produção de "Carros 2", a própria Disney realizou um documentário sobre um dia na vida de John Lasseter. O filme, que você pode conferir abaixo, mostra um dia na vida do diretor enquanto ainda produzia o filme, nos levando para dentro da sua casa e apresentando seus filhos, gato, coleção de trens e camisas havaianas… Além de seus seis iPads e todo o dia a dia de decisões na produção de um filme dentro dos estúdios Pixar.

Imperdível.

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