Em entrevista exclusiva ao CT, CEO do Mega fala sobre Kim Dotcom e privacidade

Por Rafael Romer | 31.01.2014 às 13:23 - atualizado em 31.01.2014 às 14:17

*de Wellington, Nova Zelândia

No dia 20 de janeiro de 2012, a polícia neozeolandesa promoveu uma operação de invasão e apreensão na mansão do hacker e fundador do então site de compartilhamento de torrents Megaupload, Kim Dotcom, em Coatesville, Auckland, Nova Zelândia. As acusações de conspiração para quebra de direitos autorais e de lavagem de dinheiro contra Dotcom tinham partido duas semanas antes da Virgínia, nos Estados Unidos. Com dois helicópteros e 76 homens, a polícia apreendeu bens como carros de luxo, TVs gigantes e obras de arte em um total de US$ 17 milhões. Além de Kim, foram presos os outros co-fundadores do site, Finn Batato, Mathias Ortmann e Bram van der Kolk. A conta bancária de Kim, de US$ 175 milhões, também foi congelada.

Exatamente doze meses depois, no aniversário de invasão de sua casa, o executivo lançava seu novo site para armazenamento criptografado de dados, o Mega. Com todo o hype envolvendo a notícia do lançamento do "novo Megaupload", o site teve mais de um milhão de usuários inscritos em três dias e uma série de problemas de banda com a turbulência de acessos.

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A mansão de Kim Dotcom no bairro de Coatesville, ao norte de Auckland (Foto: Rafael Romer/Canaltech)

Agora, exatamente um ano após o lançamento do site, o Mega continua a crescer no número de usuários e acessos e já começa a mirar em novos mercados. Em entrevista dada no final de novembro do ano passado ao Canaltech em Wellington, cidade onde mora e chefia o site, Vikram Kumar, atual CEO do Mega indicado por Kim em fevereiro de 2013, afirmou que podemos esperar três coisas para este ano: além da expansão dos serviços de nuvem, o site deverá entrar no mercado de comunicação por voz, vídeo e mensagens instantâneas criptografadas, batendo de frente com serviços como Gmail e Skype. "Eu não ficaria surpreso se daqui a um ano o Mega for mais conhecido como um serviço de comunicação criptografada do que é conhecido hoje por armazenamento em nuvem", afirma.

Um outro foco de crescimento do serviço deve ser como plataforma back end para empresas que quiserem armazenar dados de forma protegida. Ainda neste mês o site também deve anunciar a chegada de seu app para iOS.

Atualmente, o site conta com uma base de 5,5 milhões de usuários e cerca de 450 milhões de uploads de arquivos, o que equivale a 12 petabytes de dados armazenados. A média de novos registros diários é de 15 mil usuários. No seu pico de uso, o Mega chegou a movimentar 160 Gb de banda larga por segundo, tráfego que, sozinho, é maior do que toda a banda de Internet que a Nova Zelândia exige no mesmo período (uma média de 120 Gb/segundo). O site opera atualmente com servidores na Alemanha, Luxemburgo e, mais recentemente, na Nova Zelândia – que tem 10% do total de infra do site.

Com experiência na área de telecom e internet nos setores público e privado na Nova Zelândia, Vikram deixou seu último emprego na agência de regulação da internet do país, a Internet NZ, no começo de 2013. Em fevereiro, foi chamado por Kim Dotcom para ser o CEO do seu então recém lançado Mega.

O executivo conta que sua resposta inicial foi negativa, motivada principalmente pelos problemas judiciais e notícias pejorativas que envolviam o hacker alemão e seu site fechado. "Pelo que ouvia, eu tive a impressão que o Mega seria apenas outro Megaupload, eu não estava pronto para isso", contou.

Após um encontro com Kim e a equipe do Mega em sua mansão, Vikram mudou de ideia e resolveu aceitar o cargo. "Até então ainda não se falava sobre Edward Snowden ou sobre a NSA, mas já estava ficando claro que um dos principais problemas que enfrentaríamos seria a privacidade", disse. "Ele acreditava que a privacidade se tornaria um modelo de negócio muito importante. Como já tinha trabalhado muito nessa área, me interessei".

Segundo Vikram, o que o Mega propõe é uma alternativa ao modelo mais comum de serviços disponível atualmente na Internet: em troca de serviços gratuitos, os usuários fornecem suas informações e têm publicidade direcionada por sites como Google e Facebook. "Seja e-mail, documentos, busca, qualquer coisa, alguns usuários preferem pagar para ter sua privacidade ao invés de subsidiá-la com publicidade", afirma.

"No momento não estamos focados nos pagamentos ou lucros, e a razão para isso é que nossa estratégia de negócio é tentar crescer o mais rápido o possível", explica. "Nós ainda estamos montando as funcionalidades do Mega e tentar monetizar nesse estágio não faz sentido". Segundo Vikram, a expectativa é que o site triplique seu tráfego até o final do primeiro trimestre de 2014 e então as receitas devem começar. Atualmente, o site fornece uma opção gratuita de até 50 GB de armazenamento por usuário, mas também tem opções pagas de até 4 TB. "Nós podemos nos tornar rentáveis em duas semanas, se quisermos, mas isso significaria que o crescimento iria parar".

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O atual CEO do Mega, Vikram Kumar, em entrevista ao Canaltech em Wellington (Foto: Rafael Romer/Canaltech)

Não há dúvida, no entanto, de que esse será o modelo de negócio do serviço: pagar por criptografia. Atualmente o serviço promove um sistema end-to-end de criptografia para o armazenamento dos dados. Vikram, que já classificou o Mega como "um Dropbox mais rápido e mais seguro", explica que a chave de criptografia é única para cada usuário e não fica armazenada com o serviço, mas no dispositivo do usuário. Quando um upload é iniciado, o dado já segue criptografado para os data centers do Mega e só pode ser visualizado depois, quando retornar para o dispositivo do usuário. Também é possível compartilhar arquivos criptografados que só podem ser acessados através de uma URL específica.

Segundo Vikram, o Mega hoje oferece segurança para proteger os dados de usuários contra espionagem de governos, mas é obrigado a cumprir com ordens judiciais que demandem que informações sejam entregues. "O que nós fazemos é estabelecer um patamar elevado para a entrega dessas informações", explica. "Se qualquer agência simplesmente pedir, nós não entregamos a informação. Eles precisam ir até uma corte e trazer a decisão judicial". Ainda assim, a empresa fará uma distinção entre "privacidade e anonimato" e fornecerá as informações de usuários em casos que envolvam, por exemplo, abuso de menores.

No caso dos pedidos de retirada de material motivados por quebra de direitos autorais, Vikram afirma que as empresas estão frequentemente preocupadas com o compartilhamento de arquivos, e não com apenas o armazenamento. Se os usuários simplesmente guardam seus dados no Mega, é impossível para as empresas acessarem informações sobre o que está lá. Mas a partir do momento que esse conteúdo é compartilhado através de uma URL, por exemplo, é possível que empresas proprietárias identifiquem e peçam pela retirada do dado.

Do total de arquivos do site, apenas 0,5% recebeu algum tipo de notificação de retirada do ar por violação de direitos autorais. "Nós tivemos um ou dois incidentes isolados, mas já está claro para todos que o Mega não está sendo utilizado para quebra de direitos autorais", afirma. Segundo ele, o site ainda recebe, em média, 100 notificações diárias.

Futuro de Kim Dotcom

Durante quatro meses, o Canaltech tentou, sem sucesso, marcar uma entrevista com o fundador do Megaupload em Auckland. A última resposta, vinda do próprio co-fundador do site e amigo pessoal de Kim, Finn Batato, foi de que "Kim está super ocupado no momento. Nós temos tantas coisas difeferentes para cuidar que nem sequer temos tempo para as coisas básicas".

Livre após pagar fiança, Kim voltou para Coatesville. Em 5 de setembro do ano passado, o criador do Mega anunciou em sua conta no Twitter que deixaria seu cargo como diretor do site. "O Mega está em ótimas mãos", twittou na época. "Eu renuncio ao cargo de diretor-gerente para me concentrar em direitos autorais e em meu novo partido político".

De acordo com Vikram, a saída de Kim não mudou muita coisa na rotina ou na relação entre o executivo e a empresa. Kim ainda trabalha de maneira próxima aos gerentes do Mega, mas legalmente não faz mais parte da companhia. "A família dele ainda controla uma grande parte do Mega, ele não é um acionista, um funcionário ou um consultor, mas continua como a alma da empresa", brinca. "Eu acredito que não mudou muita coisa".

Também em setembro, Kim anunciou que começaria a se envolver com a política neozeolandesa. Por ser alemão e não ter ainda cidadania do país onde reside, o executivo não pode se eleger para o parlamento, mas pode presidir um partido político. Segundo anunciou, ele já estaria fazendo contatos para conhecer potenciais candidados para se unirem ao seu novo partido, que deve concorrer já nas próximas eleições, em novembro de 2014.

Parte da decisão de Kim de se afastar legalmente do Mega está relacionada ao plano político do executivo. "Uma coisa que nós sempre vamos fazer é manter o Mega politicamente neutro, por isso acredito que foi um passo importante o Kim deixar o cargo de diretor", opina o CEO. Apesar de só agora mostrar intenções de se envolver diretamente, Kim já causou algum tumulto na política neozeolandesa no passado. Em outubro, John Banks renunciou sua posição de ministro de reforma e pequenos negócios após alegações de fraude eleitoral envolvendo uma doação de NZ$ 50 mil que Dotcom fez à sua campanha.

O próximo episódio da extradição de Kim deve acontecer em abril, para quando está prevista a próxima audiência do caso. Até lá, o executivo continua em sua mansão e se dedica a projetos em sua maioria secretos e paralelos ao Mega.

Entre eles está o Baboom, anunciado oficialmente na última segunda-feira (20). A plataforma de streaming de música permitirá que os artistas vendam seus próprios álbuns diretamente aos fãs e fiquem com 90% dos lucros. Por enquanto, apenas o mais recente projeto musical de Kim está no ar, o álbum de música eletrônica Good Times. Ao Canaltech, Vikram afirmou que não está envolvido diretamente com o projeto, mas adiantou o que podemos esperar para o site nos próximos meses. "O serviço será um misto de iTunes com Spotify, tanto para usuários quanto para músicos", encerra.