As produções independentes do YouTube e o futuro do entretenimento

Por Redação | 10 de Fevereiro de 2014 às 19h15

Olga Kay é dona de uma rede de conteúdo no YouTube. Ela tem 31 anos e administra uma série de canais que garantem a ela mais de um milhão de assinantes. Kay não conta com equipe de produção, nem mesmo com a ajuda de roteiristas ou cameraman: ela é tudo dentro de sua própria rede de canais.

Kay não está sozinha. Ela faz parte de uma geração de artistas de YouTube, em sua maioria jovens que conseguem ganhar a vida com conteúdo de entretenimento sendo publicado na rede. O rendimento vem de anúncios veiculados pela própria rede do Google, ações de merchandising, patrocínio e até mesmo produtos licenciados.

Em reportagem especial, o jornal The New York Times acompanhou o dia a dia de Kay e de alguns outros produtores de conteúdo para o YouTube. Todos eles têm uma coisa em comum: criatividade, flexibilidade e muita vontade de crescer.

No caso de Kay, a publicação ressalta a vontade da jovem em transformar tudo em sua vida em conteúdo para o YouTube. Ela não esconde nada da rede e transformou sua casa em um enorme estúdio, local onde faz as gravações.

Olga Key

Olga Kay em seu quarto: espaço foi decorado especialmente para as gravações

A sala foi redesenhada para virar estúdio de seu canal de games. O quarto ganhou uma aparência mais infantil do que a idade de Kay, apenas para virar o cenário ideal para seu canal voltado para o público adolescente, quando as dicas de maquiagem viram o principal assunto. A copa da casa deixou de servir para refeições e transformou-se em uma ilha de edição improvisada.

Semanalmente, a jovem produz e publica sozinha ao menos 20 vídeos em seus canais. Para chegar a este número, ela exige muito de si mesma e chega a uma rotina exaustiva. “É muito estressante”, diz ela. “Toda manhã eu acordo e penso: ‘O que eu posso fazer de diferente para me manter relevante por mais um ano?’”.

A preocupação de Kay é legítima: no ano passado, o YouTube bateu a marca de um bilhão de usuários, grande parte publicando conteúdo com potencial para concorrer, em maior ou menor grau, com o que Kay publica. Manter-se no topo definitivamente não é tarefa simples.

A corrida pela publicidade

No ano de 2012, o YouTube anunciou um programa de parcerias que torna ainda mais simples o faturamento por meio de venda de publicidade. Com apenas um clique, o usuário concorda em ter sua renda compartilhada com o YouTube ao receber anúncios em seus vídeos.

Segundo o Google, o YouTube já conta com mais de um milhão de parceiros, todos fazendo de tudo para ganhar dinheiro com a plataforma. Os investimentos em negócios no YouTube são os mais variados: desde empresas apoiadas por capital de risco até indivíduos amadores, que fazem vídeos nas garagens de suas casas.

YouTube Space

Estúdio do You Tube em Los Angeles

Como incentivo, o Google distribuiu cerca de mil dólares para mais de 100 produtores de conteúdo ao redor do planeta, com a intenção de que eles melhorassem a qualidade de seu material. A iniciativa não parou por aí: em Los Angeles, Londres e Tóquio a empresa construiu enormes estúdios recheados de equipamentos profissionais para que qualquer “YouTuber” faça suas próprias produções sem nenhum custo. Em Nova York, um estúdio deve ser inaugurado até o final de 2014.

A mensagem do YouTube é bastante clara: junte-se a nós, crie sua própria rede, conquiste seu público, crie uma marca e ganhe dinheiro. Em alguns casos, muito dinheiro. Embora o YouTube não divulgue os valores repassados aos canais (dizendo apenas que milhares de parceiros chegam “ao menos a seis dígitos de receita”), Olga Kay afirma que ganhou entre US$ 100 mil (R$ 240 mil) e US$ 130 mil (R$ 310 mil) por ano nos últimos três anos de trabalho no YouTube.

Contraponto

Jason Calacanis foi um dos parceiros do YouTube que receberam o incentivo de US$ 1 mil para investir em seu canal, porém, recentemente, ele publicou um artigo com um desabafo sobre o funcionamento da rede e as formas de ganhar dinheiro com ela. Calacanis parou de produzir conteúdo para publicar na rede do Google por achar os termos de divisão de lucros injustos.

Estima-se que o Google retenha ao menos 45% de toda a receita publicitária dos vídeos, algo que não é interessante para produtores mais exigentes. Na visão de Calacanis, a rede é uma ótima alternativa para começar e ganhar público, mas não é o melhor espaço para se manter. “Nós éramos grandes fãs do YouTube, mas não estamos criando mais conteúdo porque simplesmente não é sustentável. O YouTube é um lugar incrível para construir uma marca, mas é um lugar horrível para construir um negócio”.

Em entrevista ao NYT, Robert Kyncl, Diretor de Operações de Conteúdo e de Negócios do YouTube, reconhece que o modelo de negócios promovido pela empresa não é muito animador e que a renda para os criadores de conteúdo tende a diminuir ainda mais em um futuro próximo.

Mesmo assim, ele acredita que o YouTube ainda seja a melhor plataforma para publicação de vídeos e arrecadação de receita na web. “Nenhuma outra rede de vídeos tem investido na entrega de conteúdo como nós, tanto em termos de volume de anúncios quanto em tecnologia. Por trás disso existe um enorme número de pessoas trabalhando e isso custa muito”, complementa.

YouTube: plataforma atraente para anunciantes

Enquanto não agrada tanto aos produtores de conteúdo, o YouTube ainda continua sendo vantajoso para os anunciantes. O custo médio de veiculação de um anúncio pre-roll (os comerciais de 30 segundos que aparecem antes dos vídeos) é de US$ 7,60 por lote de mil visitantes. O número fica abaixo da média de US$ 9,35 que era praticada em 2012. O mesmo anúncio pre-roll publicado em um vídeo disponível no site de grandes emissoras, como a CBS ou a CNN, ultrapassa o investimento de US$ 20 a cada mil visualizações.

A questão agora é saber se, mesmo com divisões de lucros menos interessantes, os “YouTubers” continuarão produzindo conteúdo de qualidade para a rede. Enquanto o Google ainda atrai anunciantes e investe cada dia mais para incentivar a publicação de vídeos, o modelo de negócios afasta quem teria potencial para produções maiores e totalmente exclusivas do YouTube.

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