A primavera escolar e as redes sociais na Web

Por Luciano Sathler

Final do ano de 2010, dezembro. Um jovem tunisiano se imolou em praça pública, pôs fogo no próprio corpo para protestar contra o desemprego, os desmandos das autoridades e a falta de liberdade no seu país, que era assolado por um tirano na presidência desde 1987. A família do mártir sofria privações em nada diferentes de outros milhões de conterrâneos. A situação parecia normal, sob controle, nada de novo.

No entanto, a indignação acumulada por décadas transbordou numa onda de protestos organizada por meio das redes sociais na internet. Um gesto trágico e desesperado despertou a fúria das multidões. Primeiro na Tunísia, depois no Egito, na Líbia e no Iêmen. Hoje em dia é a Síria que está em guerra civil. Ditaduras, miséria, corrupção, descaso das autoridades, enriquecimento absurdo de políticos e seus apaniguados, abandono dos empobrecidos e violência. Traços comuns em culturas não democráticas com ranços de colonialismo. O de sempre, ricos demasiadamente ricos, pobres cada vez com menos. De repente, jovens, crianças, adultos e idosos se rebelaram e usaram os recursos da Web 2.0 com muita competência e criatividade para se organizarem, mobilizarem, consolarem e apoiarem mutuamente. As praças se encheram, a repressão militar matou milhares, mas não deu conta de sufocar o movimento então batizado de primavera árabe, alusão à estação que sucede o triste e tenebroso inverno daquela região. O futuro ninguém sabe onde e como vai chegar. Porém, do passado todos queriam se livrar.

Início de semestre letivo, agosto de 2012, Brasil. Uma adolescente de 13 anos se dispôs a enfrentar a timidez e criou uma página no Facebook para denunciar os problemas de infraestrutura na sua escola e da atuação docente em algumas aulas que, em sua opinião e de seus colegas, estavam demasiadamente bagunçadas e conduzidas com desleixo. Publicou fotos, filmes e comentários. Sua escola se parece com milhares de outras no Brasil, talvez até ficasse numa média superior de avaliação se comparada com o lastimável estado no qual se encontra boa parte das instituições públicas de ensino no país. Nada de novo, tudo normal, a situação parecia sob controle. Porém, sua mensagem ecoou nos ouvidos e corações de milhões de famílias, no Brasil e no mundo. Se tornou viral, a indignação gerou protestos, matérias na imprensa, políticos procuraram a garota para tentarem sair bem na foto em época de eleição e a Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis, Santa Catarina, rápida e sabidamente se mobilizou para tentar diminuir o calor das chamas.

Milhares de páginas foram e estão sendo criadas no Facebook com propósitos semelhantes ao Diário de Classe concebido por Isadora Faber. A meu ver, trata-se de um momento histórico. Quem sabe, uma primavera escolar no Brasil, que nos livre da indiferença e da usurpação. A filosofia política já afirmou há muitos anos que a verdade tem o mesmo efeito da luz quando esta alcança ambientes fechados há muito tempo. É a transparência que desinfeta, que nos esbofeteia com a realidade nua e crua à qual nossas crianças e adolescentes estão expostos cotidianamente, sofrendo junto com professores e dirigentes os efeitos da falta de mobilização popular para pressionar autoridades políticas e gestores públicos para sanear a situação de nossas escolas.

Usar as redes sociais na internet para gerar indignação e transformar a realidade social é algo desejável e louvável, especialmente em termos dos objetivos educacionais. É expressão prática do pensamento crítico, da busca por resolução de problemas, do agir colaborativamente, ser capaz de escrever e se comunicar, da criatividade, da autonomia, da liderança, adaptabilidade, responsabilidade e cidadania. Um conjunto de características que deve se tornar parte do currículo para a formação de professores e estudantes no Século 21. Nos EUA, há uma associação que promove o quadro de formação traduzido na figura abaixo (The Partnership for 21st Century Skills), que contempla um conjunto de competências e habilidades a serem desenvolvidos pelas instituições educacionais em nossos tempos. Vamos abordar esse assunto com maior detalhamento nas próximas colunas.

Viva Isadora! Que você inspire muitos seguidores, imitadores e fãs. Te curtimos muito.

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