Mais importante do que inovar na educação é educar para a inovação

Por Lucas Rocha | 22 de Janeiro de 2020 às 21h10
DepositPhotos/bloomua

Foi a partir de uma sequência de evoluções tecnológicas que os irmão Lumiere conseguiram capturar imagens em movimento e produziram, em 1895 na França, as primeiras produções cinematográficas do mundo. O primeiro filme da história data de 22 de março desse mesmo ano, e retrata um grupo de mulheres saindo de uma fábrica, cena cotidiana em plena revolução industrial. Assim como esse, muitos outros filmes foram produzidos, a grande maioria retratando situações do dia a dia.

Contudo, foram precisos oito anos para que, em 1903, um inglês chamado George Albert Smith inventasse o close-up, técnica de cinema que permite aproximar e destacar a parte de um corpo ou um objeto. Ele estava filmando duas garotas cuidando de um gato machucado na rua. Ao perceber que estava muito distante para que seu público entendesse o que estava acontecendo, moveu sua câmera para perto e focou nas mãos das meninas.

Ou seja, demorou oito anos desde a invenção da tecnologia para que alguém pensasse em algo tão simples quanto o close-up. Até então, todos usavam o cinematógrafo como usavam as máquinas fotográficas, a partir de um ponto de vista estático.

E como isso se relaciona com inovação em educação? Da mesma maneira que o cinematógrafo continuou a ser usado como a câmera fotográfica era utilizada, em grande parte nossa sociedade usa a tecnologia disponível hoje apenas para reforçar um modelo tradicional de educação, sem enxergar e usufruir das novas possibilidades que ela traz - livros são digitalizados para tablets, as bibliotecas cedem lugar aos buscadores online e as folhas de papel almaço são substituídas pelos documentos na nuvem. Na teoria de inovação esse movimento é chamado de adaptação, pois apenas acompanha um movimento que já acontece em outros setores, de inovador mesmo não tem quase nada.

E não é porque internet e tablets já são notícias velhas. Estamos fazendo a mesma coisa com a inteligência artificial. A China é hoje o país que mais investe em inteligência artificial para a educação. É de lá uma das empresas líderes no setor, a Squirell AI, avaliada em mais de 1 bilhão de dólares por uma solução que oferece uma inteligência artificial como tutora de estudantes na preparação para o gaokao, o equivalente ao nosso Enem ou vestibular. Em resumo, a Squirell dividiu as áreas de conhecimento em pequenos pedaços de conteúdo e, utilizando aprendizado de máquina, é capaz de avaliar estudantes por meio de questões e sugerir exercícios, vídeos e artigos que ajudem os estudantes a aprender aquilo que eles precisam para ir bem no gaokao.

Contudo, para entender o real impacto da inteligência artificial na educação é preciso pensar no seu impacto nas outras esferas da nossa vida, em especial no nosso trabalho. Muito rapidamente a máquina está se tornando mais eficiente do que nós para as tarefas repetitivas, ou para aquilo que exige a memorização ou utilização de uma quantidade massiva de dados. Mesmo carreiras tidas como mais sofisticadas, como medicina e direito, estão sendo transformadas pela inteligência artificial. Livres das tarefas repetitivas, o nosso diferencial enquanto profissionais deveria estar ainda mais fundamentado em competências como criatividade, empatia, comunicação e resolução de problemas.

No entanto, não é isso que a Squirell está fazendo. Seus alunos estão se tornando melhores exatamente naquilo que a inteligência artificial é boa, e para fazer aquilo que eles não serão necessários no momento em que eles se graduarem após terem vencido o gaokao. Ou seja, continuamos a usar uma filmadora para tirar fotos em movimento, talvez mais nítidas, mais coloridas, mas ainda assim fotos em movimento, e não filmes.

Deveríamos parar de falar em inovar na educação e começar a falar de educar para a inovação.

Não está funcionando aplicar tecnologia às salas de aula como um fim em si próprio. Os custos são altos, os ganhos são marginais - e ficam concentrados nas famílias de classes sociais mais altas, ampliando a desigualdade. Deveríamos olhar a tecnologia na educação sob uma nova lente, uma que nos permitisse explorar novas possibilidades, assim como George Smith fez ao experimentar o close-up.

Para nossa sorte, não são poucas as experiências que existem nesse sentido - e nem são tão novas. Desde a década de 80, junto com a invenção do computador pessoal pela IBM, tem gente que estuda maneiras de usar a tecnologia como uma ferramenta de criação e autoria, para estimular a criatividade e formar as pessoas que nossa sociedade atual precisa. No Brasil e no mundo existem casos de sucesso de pessoas que estão experimentando a tecnologia como uma forma de criar experiências de aprendizado mais significativas, mão na massa e criativas. São educadores, empreendedores, gestores públicos e pesquisadores para quem mais importante do que inovar na educação é educar para a inovação.

E são essas pessoas e suas ideias que vamos conhecer nesta coluna. Explorar as tecnologias que estão desenvolvendo e como elas estão contribuindo para formar a nova geração de inovadores do nosso país. Gente que está, todos os dias, experimentando novas maneiras de aproximar a câmera e inventar o close-up da tecnologia na educação. Espero que gostem. E, mais do que isso, espero que possamos aprender e crescer juntos nessa jornada. Até mês que vem!

Lucas Rocha é gerente de inovação na Fundação Lemann, responsável por pesquisar e recomendar como novas tecnologias e metodologias podem contribuir para uma educação mais mão na massa, significativa e colaborativa para todos.

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