Dá para ter uma Sociedade 5.0 sem ter uma Economia 5.0?

Por Eduardo Ibrahim | 16 de Fevereiro de 2021 às 10h00
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A sociedade está em constante atualização, assim como acontece com os sistemas operacionais dos computadores. Grandes mudanças acompanharam a nossa evolução ao longo da história, e o avanço exponencial da tecnologia fez surgir o fenômeno das mudanças aceleradas. Tentando dar nomes aos grandes momentos, rotulamos as versões da sociedade da seguinte forma:

  • Sociedade 1.0 (Caça): os seres humanos eram caçadores-coletores e migravam de região quando a oferta de comida se tornava escassa.
  • Sociedade 2.0 (Agricultura): o cultivo de alimentos nos tornou sedentários e gerou uma explosão populacional no planeta.
  • Sociedade 3.0 (Industrial): o surgimento dos motores aumentou a produção de bens de consumo, a emissão de gases e o efeito estufa.
  • Sociedade 4.0 (Informação): o mundo inicia o processo de digitalização, as pessoas se comunicam globalmente e o poder computacional cresce exponencialmente.
  • Sociedade 5.0 (Inteligência): o processamento massivo de dados com inteligência artificial proporciona soluções para escassez, tornando possível um modo de vida mais inteligente, eficiente e sustentável.

Estamos vivendo um momento de transição gradual e confusa entre a era industrial, a era da informação e a era da inteligência. Assim como aconteceu com as três primeiras transições (era da caça, agricultura e industrial), não existe uma faixa que marque o avanço, cada sociedade local evolui a passos diferentes, mas dessa vez temos uma diferença muito importante: toda a economia mundial está hiperconectada, fisicamente e digitalmente.

O que acontece em um lugar do planeta pode afetar os quatro cantos. Vide a velocidade da pandemia, espalhada pela nossa eficiente malha aérea que permite a uma pessoa (ou a um vírus) viajar de um canto ao outro em apenas um dia. Ou pense nas disrupções tecnológicas decorrentes de aplicativos criados no Vale do Silício, ou ainda na China afetando as economias locais. É um momento de maior grau de complexidade e incertezas.

A parte boa é que a hiperconectividade permitirá, no futuro, que o sistema econômico se comporte como um software de computador, sofrendo atualizações constantes e correções precisas. Quando um software apresenta bugs, demandamos por melhorias e novos padrões de qualidade, porque temos a visão do que está errado e precisa ser corrigido, habilidade que não temos no nosso “sistema” econômico industrial atual.

A geração massiva de dados traz oportunidades para que o ambiente de complexidade e incertezas seja reduzido drasticamente. Na era da inteligência (5.0), as máquinas poderão direcionar as melhores políticas fiscais, monetárias e de incentivos à competição ou colaboração, de forma a tornar cada parte da rede econômica uma célula de contribuição eficiente para o sistema como um todo. Essa é a teoria de sistemas ensinada nas universidades e aplicada em ambientes menores, mas com potencial para nos levar à criação de uma economia exponencial.

Fato é que a economia de hoje está se confrontando com os desafios de transição de versões, e perceber que a arte de fazer economia passa agora pela tecnologia pode ser a chave para nos levar à Sociedade 5.0. Vale lembrar que a economia está na base de tudo ao nosso redor, desde o acesso à educação e cultura para garantir nossa produtividade e competitividade, até o acesso a recursos de saúde física e mental para garantir o nosso bem estar social.

Para ter uma Economia 5.0, precisamos dos mais modernos padrões de inovação e criatividade; ela deve funcionar como uma verdadeira plataforma de promoção de atitude empreendedora centrada nas novas áreas do conhecimento tecnológico. Esse é um ambiente de "co-criação" dinâmico e ativo que envolve e incentiva cada pessoa a participar do grande ecossistema produtivo-social.

Políticas governamentais podem ajudar, mas a Economia 5.0 não será determinada por lei, será construída por todos os atores em uma interação livre impulsionada por lideranças tecnológicas dispostas a quebrar as barreiras de transição do modelo industrial. A aceleração dessa economia depende, em grande parte, de pessoas e instituições com compromisso ativo de desenvolvimento de competências para construir uma agenda de confiança e excelência.

A nova vantagem competitiva entre os países e as empresas está na facilidade de implantação ágil de ideias em uma arquitetura de incentivos que permita sustentabilidade econômica, humana e ambiental, simultaneamente. O fluxo permanente de ideias gera valor em cada ponto da rede, criando um balanço entre competição individual e cooperação coletiva, onde os indivíduos podem participar como contribuintes ativos na reinvenção do sistema.

Uma economia aliada à tecnologia pode criar a plataforma que vai endereçar com precisão os problemas globais que enfrentamos hoje. Um novo padrão econômico é mais do que uma possibilidade, é uma necessidade individual e coletiva para todos nós como cidadãos globais. Se superarmos as barreiras de transição industrial até a Economia 5.0, poderemos então criar o modo de vida mais inteligente, eficiente e sustentável da sonhada Sociedade 5.0.

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