Não precisava do BIM, mas agora...

Por Colaborador externo | 19.05.2015 às 09:24

Por Marcus Granadeiro*

O mercado vive o BIM, as empreiteiras, concessionárias e órgãos públicos estão começando a solicitar projetos em BIM, a grande maioria das projetistas e empresa de engenharia consultiva já tiveram um primeiro contato com o conceito, seja participando de palestras, assistindo demonstrações comerciais comprando softwares sem saber direito para o que, ou, até mesmo, respondendo editais sem uma ideia firme de como realmente atendê-los.

A primeira tendência das empresas foi ir ao mercado comprar software, comprar modeladores BIM, fazer um curso básico oferecido pelas revendas do fabricante e tentar desenvolver um projeto piloto. A grande maioria fez isto dentro do mesmo processo e com os mesmos conceitos que normalmente se faz com a tecnologia CAD. Salvo alguma exceção, a grande maioria naufragou, as equipes não multiplicaram seu conhecimento e os novos projetos continuaram avançando no modelo tradicional. Aprenderam da forma mais dura que BIM não é um software, mas sim um processo.

As poucas iniciativas ficaram no âmbito da produção, sendo mais raro encontrar casos no qual o uso do BIM avançou dentro dos processos de coordenação, gestão da obra, fiscalização e, após a entrega, como base para os sistemas de manutenção e operação. Arrisco a dizer que as iniciativas de sucesso normalmente foram de empreendimentos de edifícios, em que existia um escritório de arquitetura líder do processo que também modelou e um “dono” envolvido, interessado e, principalmente, disposto a assumir riscos.

Se todos falam em BIM, por que o BIM não acontece? Quais são então estas barreiras e dificuldades para que o BIM avance no mercado de infraestrutura e deslanche nos projetos maiores e mais complexos? Alguns falam que trata-se de limitação de recursos financeiros, outros colocam pontos como tecnologia e infraestrutura de TI, além de aparecer também como motivo o tradicionalismo do setor.

No meu entendimento, faltava a necessidade do BIM. Estava bom, todos estavam ganhando, o sistema estava funcionando. Assim faltava aos donos das empresas, ao que o mercado chama de “C Level”, entender o verdadeiro conceito, aplicações e impacto do BIM. Entender como ele pode transformar o mercado, a cadeia produtiva e a empresa. Para tentar exemplificar este potencial transformador, cito aspectos relacionados ao processo de produção e ao produto em si.

Novo processo de produção: de uma maneira muito simplificada a tecnologia vai permitir passar de um processo em série para um processo em paralelo. A engenharia poderá ser desenvolvida em paralelo com a apresentação da documentação, ao passo que hoje o engenheiro trabalha no projeto e normalmente passa para um desenhista, ou projetista, finalizar o detalhamento. Quando houver uma solicitação de revisão não haverá mais necessidade de retrabalho no desenho, pois eles serão atualizados automaticamente. Depois de vencer a curva de aprendizado, o BIM vai impactar no prazo, no custo e na agilidade das empresas.

Novos produtos: com o BIM é possível oferecer novas simulações e estudos, alternativas que hoje não podemos oferecer. Com isso, será possível para uma gerenciadora fazer relatórios associados ao modelo, conhecidos hoje como 4D (três dimensões + planejamento) e 5D (três dimensões + planejamento + custos), incluindo desvios e tendências, indo muito além dos tracionais relatórios em papel. O BIM vai permitir criar diferenciais competitivos para as empresas saírem dos valores commoditizados de projeto e gerenciamento.

No cenário aquecido do mundo pré-Lava Jato era impensável que os sócios e diretores das empresas de engenharia consultiva iriam pensar em se preocupar com o entendimento de uma nova tecnologia e, tão pouco, que parariam para refletir sobre estratégias futuras. O mercado estava muito aquecido, a tecnologia ficava restrita à equipe de produção como uma ferramenta de melhoria marginal e, muitas vezes, encarada como custo. No ambiente de hoje, a tecnologia deve ser entendida como o caminho a ser seguido, pois somente com ela é possível inovar e criar novos valores para continuar crescendo e “engenheirando”, afinal de contas, esta é a vocação de todo os engenheiros.

*Marcus Granadeiro é presidente da Construtivo.com, empresa de fornecimento de solução para gestão e processos de ponta a ponta para o mercado de engenharia, com oferta 100% na nuvem e na modalidade de serviço (SaaS)