Expectativas razoáveis para a 5G

Por José Otero | 20 de Junho de 2018 às 07h18

Há aproximadamente 15 anos, estava eu em Kingston (Jamaica), escutando um especialista falar das vantagens do WiMAX. Para isso, A versão que todos pregavam desta tecnologia na época era conhecida como 802.16d e era apropriada para serviços fixos. Os modelos de negócio propostos nesses ambientes variavam bastante. Ouvíamos as mesmas declarações que uma década antes tinham desempenhado o papel dos vendedores de LMDS, mas agora também era vista como uma possibilidade de criar redes de transporte internacional em lugares do Caribe, onde diferentes ilhas estavam a uma distância apropriada.  

O frenesi causado pelo WiMAX e as promessas voltadas em suas versões 802.16e e 802.16m levaram praticamente todas as operadoras de telecomunicações da América Latina e Caribe ao menos a realizar provas com esta tecnologia. Houve lançamentos tão efêmeros quanto à duração dos comerciais que promovem o serviço na televisão. As promessas de supercobertura, transmissão constante de dados e uma experiência fenomenal de cliente nunca se concretizaram.   

Qual foi o erro? Simples, o exagero desmedido de vendedores vorazes que prometeram mais desempenho da tecnologia que o permitido pela física. Estes problemas junto com a fragmentação do cenário de provedores, a falta de interoperabilidade dos equipamentos e ternos atrasos nos processos de padronização condenaram à morte uma tecnologia que era boa mas que não contava com um elemento essencial para triunfar em mercados em desenvolvimento: economias de escala.

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Afortunadamente, a chegada da 5G não terá que enfrentar muitos dos problemas que teve o WiMAX, pois a interoperabilidade e padronização serão parte da tecnologia desde seu início. Não obstante, existem em alguns casos expectativas demasiadas altas para o que na realidade serão o desempenho da nova tecnologia. De todas as formas, quando se trata da 5G parece haver mais dúvidas do que certezas e a redução de suas capacidades a um simples aspecto: velocidades de transmissão nos serviços de acesso à internet móvel.

Ante este cenário nos encontramos com uma explosão de perguntas sobre a data da chegada da 5G na América Latina. Há um furor em entender qual será a primeira operadora móvel em desenvolver a tecnologia e como ela aumentaria os benefícios já recebidos com a geração anterior. Entre as dúvidas encontram-se perguntas bastante razoáveis focadas no desenho dos celulares, como estes se diferenciam dos modelos da atualidade.

Também há quem deseje conhecer mais sobre as aplicações que justificarão os Gbps de velocidade que em menos de cinco anos estarão disponíveis para muitos consumidores das Américas. Toda esta curiosidade é resultado de expectativas não controlada por parte dos consumidores e também por uma necessidade não atendida de educar o mercado sobre a realidade das tecnologias sem fio, que poderão ser utilizadas para oferecer serviços móveis.

Alguns se confundem e posicionam a 5G como tecnologia primordialmente para usuários quando suas principais qualidades, por exemplo, a baixa latência ou capacidade de suportar grandes quantidades de tráfego viabilizando o crescimento de Internet das Coisas, são características que apontam para um mercado empresarial.

Dá a impressão de que o inconsciente coletivo das pessoas possui como um de seus arquétipos o mandato de que as redes sem fio são utilizadas para oferecer serviços móveis podem somente ser utilizadas para este fim. Assim, há uma crença de que as vantagens devem ser óbvias para o usuário. Já a realidade nos mostra outra história.

O início da 5G tem sido definido por operadoras móveis ao redor do mundo como um serviço focado na oferta de banda larga fixa que permite levar para áreas suburbanas e rurais com velocidades que anteriormente somente se poderiam obter mediante conexão de fibra óptica. O modelo móvel ficará mais de um ano depois da proliferação de redes fixas sem fio que junto a uma conexão de DTH poderiam oferecer um pacote convergente totalmente sem fio como tem oferecido em mercados como Argentina e Brasil.

Outro aspecto da 5G que parece ter sido ignorado pelos consumidores é que seu crescimento será mais lento que o de tecnologias anteriores. Há várias justificativas que servem para explicar esta situação. Por exemplo, ainda o primeiro lançamento da 5G que ocorreu em 14 de maio, os primeiros dispositivos para serviços móveis somente começaram a estar disponíveis durante 2019. Em outras palavras, ainda não contamos com telefones que permitam a comercialização de serviços móveis da 5G.

Assim, o desenvolvimento da 5G precisará da utilização de frequências mais altas às utilizadas por tecnologias anteriores incluindo as chamadas bandas milimétricas. Isto implica, por pura lei da física, que as redes da 5G terão uma maior densificação do que as redes móveis atuais, pois precisarão de um maior número de antenas para poder prover serviço. Ao ser maior o número de antenas necessárias, maior será o tempo de desenvolvimento de infraestrutura. É simples a lógica.

E finalmente, queria declarar que em seu início, as redes 5G não ofereceram vantagens facilmente reconhecíveis pelos usuários. Não teremos novos serviços que não possam ser acessados por redes de LTE-Advanced. A diferença se dá inicialmente nas maiores eficiências na utilização de espectro e na capacidade de poder suportar o tráfego agregado gerado pelo crescente número de coisas conectadas. É aqui, de forma indireta, que os usuários começaram a receber benefícios das redes celulares da 5G, pois se não chegar, esta tecnologia será muito custosa e difícil de poder absorver todo o novo tráfego agregado gerado por usuários de redes móveis no mercado.

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