Redes inteligentes: uma evolução necessária

Por Denis Del Bianco

O crescimento expressivo dos grandes centros urbanos no Brasil e no mundo tem aumentado a procura por soluções que simplifiquem o dia a dia das pessoas, além de tornar ainda mais importante a busca por sustentabilidade e qualidade de vida para as próximas gerações. Preocupações sobre como produzir mais energia com a mesma matriz energética se tornam cada vez mais comuns. Conferir inteligência ao processo de produção, distribuição e consumo por meio de redes inteligentes pode ser uma das saídas.

As smart grids são redes elétricas totalmente integradas por meio de tecnologia, telecomunicações, medição e automação, que possibilitam a transmissão e distribuição de energia com base em informações em tempo real de toda a cadeia. A atribuição de inteligência aumenta consideravelmente a capacidade de atender cenários com fontes intermitentes e distribuídas de energia, evita sobrecarga, reduz o impacto no meio ambiente e melhora o serviço oferecido aos clientes.

Na Europa, a adoção de smart grids já está bem avançada. Em Portugal, por exemplo, mais de 20 mil consumidores também são microgeradores de energia. No Brasil, a geração distribuída ainda não é uma realidade, mas no que depender das concessionárias do setor e do governo, o cenário mudará em breve. Até 2030, as redes elétricas inteligentes devem atender cerca de 74,4 milhões de usuários no país segundo a Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica).

Atualmente, há mais 200 projetos pilotos em andamento no país. Porém, o caminho a ser percorrido é longo e desafiador. As concessionárias precisam fazer um inventário da infraestrutura: equipamentos de TI e Telecom existentes, nível de modernidade da rede de transmissão e distribuição e porcentagem das instalações telecontroladas. Após o diagnóstico, as empresas precisam estabelecer um centro de controle de operações, implementar sensores nas redes, sistemas de automação de processos e medidores inteligentes nas residências e prédios comerciais.

A substituição dos medidores eletromecânicos de consumo por digitais vai conferir inteligência à ponta do processo. Como eles transmitem dados por meio de cabos de fibra ótica ou sem fio, não será mais necessário verificar pessoalmente o consumo de cada residência. Além disso, as pessoas não precisarão ligar na concessionária para reclamar de falta de energia, os sensores instalados ao longo da rede enviarão informações em tempo real ao centro de operações da empresa. O religamento do sistema, bem como a manutenção e o corte poderão ser feitos à distância, agilizando a normalização do fornecimento. Até o momento, na maioria das vezes, um técnico precisa ir até o local do problema para repará-lo.

Os medidores também contribuirão para um empoderamento do consumidor, que além de se tornar um microgerador, conseguirá acompanhar o gasto de energia de sua casa ou empresa por meio de sites ou aplicativos oferecidos pelas concessionárias. Além disso, com o estabelecimento de diferenças tarifárias ao longo do dia será possível escolher o melhor horário para utilizar os equipamentos elétricos que consomem mais energia, como a máquina de lavar, por exemplo.

Os ganhos para o consumidor são claros. No entanto, as companhias do setor também terão vantagens com a implementação de smart grids. Receber informações das redes de transmissão e distribuição e dos medidores em tempo real agilizará a tomada de decisões, diminuindo as instabilidades do sistema. Será possível ainda aprimorar a análise de contingência, bem como o monitoramento de equipamentos e gestão de ativos devido ao alto nível de confiabilidade dos dados adquirido com o uso de tecnologias.

Atualmente, 15% de cada 100 quilowatts (kW) produzidos no Brasil se perdem entre a geração e o consumo, segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A precisão nas medições de consumo e identificação de falhas na rede possibilitadas pelas smart grids devem diminuir essa perda e o furto de energia, conhecido como ‘gato’, capacitando as empresas para atender mais consumidores com a mesma produção.

A adoção de redes elétricas inteligentes também incentivará um comportamento mais consciente por parte dos consumidores, que passarão a interagir constantemente com a concessionária, se tornando parte importante do sistema. Os desafios a serem superados são muitos. No entanto, modernizar o processo de transmissão e distribuição de energia aumentará a eficiência da rede, resultando em um serviço mais confiável e melhor a um custo mais baixo para o consumidor.