Qual é a ideia da Radeon Pro SSG, placa de vídeo com 1 TB de memória dedicada

Por Pedro Cipoli | 03.08.2016 às 23:55

Quantos gigabytes de memória RAM são necessários para rodar um jogo com filtros e efeitos no máximo? Se você joga em 1080p, há uma grande chance de placas de vídeo com 4 GB de memória dedicada serem o suficiente. Resoluções maiores necessitam de mais, naturalmente, em especial os títulos que suportam 4K. As placas de vídeo de alto desempenho voltadas para o consumidor contam com 8 GB, 12 GB (caso da Titan X) ou mesmo 16 GB, mas ainda assim está longe de ser suficiente para uma série de aplicações.

Já a memória do sistema (em máquina high-end) pode chegar a 64 GB ou mesmo 128 GB. Novamente, no segmento consumer, já que estações de trabalho contam com processadores que podem endereçar até 1.536 GB (1,5 TB), ainda que teoricamente, já que é algo difícil de encontrar na prática. Enquanto isso, GPUs corporativas esbarram nos 32 GB de memória dedicada, isso somente em alguns poucos modelos. Por quê? Aumentar ainda mais seria tecnicamente desafiador, além de financeiramente impraticável. A AMD aparentemente "resolveu" esse problema, e vamos entender como nas próximas linhas (assim como faremos algumas reservas).

A Radeon Pro SSG

Basicamente, a Radeon Pro SSG é uma GPU baseada na arquitetura Fiji projetada para usar SSDs como memória RAM. O próprio nome já anuncia essa proposta ("SSG" significa "Solid State Graphics"), e o modelo beta (um protótipo, na verdade) anunciado já chega suportando 1 TB, usando dois SSDs da Samsung série 950 de 512 GB cada uma. Elas são conectadas à placa através de dois slots Sata M.2 em RAID 0, que utilizam o barramento PCI Express da placa-mãe.

Radeon Pro SSG

Basicamente, é uma troca de velocidade de acesso por quantidade de "memória RAM", tendo aplicações específicas que se beneficiam disso.

Sim, SSDs, por mais rápidos que eles sejam comparados aos discos rígidos tradicionais, são bem mais lentos do que as memórias voltadas para as GPUs, como HBM e GDDR5. Então, por que fazer isso? Afinal, se as placas de vídeo atuais já são brutalmente rápidas e conseguem excelentes resultados, por que usam uma memória mais lenta, ainda que tenham mais de 100 vezes a mesma capacidade das GPUs high-end do momento? Acreditem: a demanda de gráficos no mercado corporativo é bem maior do que do consumidor comum. Por ordens de grandeza, aliás.

Para termos uma ideia, empresas de gráficos e modelagem 3D chegam a criar cenas que exigem até 64 GB para serem processadas... por frame. Em uma demonstração feita pela própria AMD, um sistema "não SSG" renderizou um vídeo em 8K (16 vezes mais pixels que o Full HD) a 17 frames por segundo. Já a Pro SSG conseguiu alcançar 30 frames por segundo, o que pode parecer pouco, mas que já representa quase o dobro. Segundo a AMD, é possível alcançar até 90 FPS com as devidas otimizações e drivers mais novos, mas já é um resultado e tanto.

Radeon Pro SSG

Mesmo GPUs de alto desempenho para o mercado corporativo, como a FirePro S9170, trazem "apenas" 32 GB de memória dedicada, mas utilizando o padrão GDDR5.

A implementação da Radeon Pro SSG já tem uma boa demanda. De renderização de imagens médicas, que necessitam ser as mais precisas quanto possível, até mapeamento de campos de petróleo, os benefícios de uma quantidade massiva de memória RAM na GPU são certamente bem vindos. Lembrando que estamos falando da primeira geração, já que novas arquiteturas (como a Vega), bandas maiores e suporte a mais discos sólidos em paralelo provavelmente aparecerão em poucos anos.

Dois questionamentos importantes

Como dissemos na primeira linha do item anterior, a Radeon Pro SSG basicamente usa SSDs como memória RAM. Se por um lado isso permite um aumento exponencial na quantidade de "memória RAM" das GPUs, não podemos deixar de considerar dois possíveis e prováveis problemas em usar essa técnica. Algo que não vimos ser questionado em nenhuma das fontes que consultamos.

Em primeiro lugar, SSDs não foram projetados para trabalhar com um ciclo tão pesado de leitura/escrita, mas sim para armazenamento de dados. Memórias RAM foram projetadas para quantidades massivas de troca de dados, não existindo uma limitação física de quantos dados serão processados nelas. Pentes de memória apresentam defeitos de longevidade, e não de limites de acesso.

Samsung 950

A questão que fica é se o SSD aguentará o "tranco", já que não foi projetado para isso.

Já os SSDs, sim. Fabricantes de SSD, por exemplo, disponibilizam a quantidade de escrita máxima em seus produtos, algo difícil de ser alcançado quando usado em armazenamento, mas provavelmente alcançado se utilizado como memória RAM em poucos meses. Em outras palavras, qual seria a frequência de trocas de SSD nesse sistema? 1 ano? 6 meses? 3 meses? O custo de substituição não chega a ser um problema para as empresas, mas certamente é uma questão de praticidade que precisa ser abordada.

O segundo problema tem a mesma origem no primeiro. SSDs não foram projetados para trabalhar de forma ininterrupta transferindo quantidades massivas de dados. Ou seja, os picos de calor serão contínuos, o que é um problema e tanto, já que SSDs SATA M.2 raramente contam com dissipadores. Coolers, então, nem se fala. Isso para um produto que não foi projetado para ser torturado continuamente por calor excessivo. Se processadores mal refrigerados já apresentam problemas (isso considerando que a CPU é geralmente o último componente a apresentar defeitos), como ficam os SSDs?

Teremos que esperar o feedback dos usuários da Radeon Pro SSG para termos mais detalhes, mas são dois questionamentos que precisam ser levantados, em especial considerando o preço do produto.

Conclusão

As primeiras unidades da Radeon Pro SSG já podem ser adquiridas, com disponibilidade imediata, e já contam com um preço oficial: US$ 10.000. Caras como qualquer tecnologia inovadora – não sendo tão absurdas assim, e com aplicações bem específicas e foco em empresas. É bastante difícil de acreditar que a AMD crie uma "versão consumer" dessa GPU tanto pelo custo quanto pela falta de demanda. Afinal, qual foi a última vez que você usou seu PC Gamer para renderizar imagens de campos de petróleo em 8K em tempo real?

Isto posto, é um produto que alia tecnologias já existentes para resolver um problema antigo de limitação de quantidade de memória nas placas de vídeo. Ainda que tenhamos as nossas reservas em relação ao comportamento dos SSDs sob condições tão severas, que fogem ao seu projeto original, demanda certamente não será um problema. É interessante observar que o mercado de GPUs continua a inovar mesmo depois de tanto tempo, algo que o mercado de CPUs não faz há algum tempo.

Com informações do Extreme Tech e da Ars Technica