AMD compra HiAlgo: o que isso significa para o mercado de jogos?

Por Pedro Cipoli | 02.07.2016 às 17:39

Quem tem, ou já teve, uma GPU da AMD sabe a frustração de ter um modelo de alto desempenho com drivers mal otimizados. Com o passar dos anos, porém, a empresa está trabalhando pesado nesse sentido, no "lado software" do problema, com resultados que não são somente promissores, como também já estão mostrando melhorias imediatas. Um bom exemplo disso são os drivers Crimson, que ofereceram mais estabilidade, controle e performance de hardwares já existentes, habilitando, por exemplo, controle de framerate. Esse é um problema comum nas GPUs da empresa que "persegue" a AMD há alguns anos: o hardware não oferece todo o seu potencial por limitações de software.

Muito disso se deve à frágil situação financeira da AMD, que tem lutado contra a NVIDIA basicamente através do preço. Ou seja, a AMD precisa de capital e, para isso, precisa vender mais produtos. Mas, ataca com um custo-benefício melhor, o que diminui a sua margem de lucro que, por sua vez, faz com que a AMD precise de capital, uma espiral bem problemática de resolver. Exatamente por isso a recente compra da HiAlgo é mais relevante do que parece à primeira vista, então vamos explorar esse assunto nas próxima linhas.

HiAlgo

A HiAlgo é uma startup até bastante nova que foca em otimizar jogos. São basicamente 3 ferramentas dedicadas a isso, com perfis de uso para jogos específicos tendo como base a configuração do usuário. Em outras palavras, a HiAlgo pega um jogo específico (FarCry 3, por exemplo) e otimiza cada etapa dele, trabalhando junto com o próprio driver da placa de vídeo dentro das limitações do hardware (arquitetura, quantidade de cores e frequência de operação, quantidade e tipo de memória RAM, coisa do tipo) para oferecer uma melhor experiência de uso. Note: não mais frames por segundo, mas sim uma melhor experiência de uso.

AMD

Até então pouco conhecida, a HiAlgo tem muito a contribuir com os drivers de vídeo da AMD.

Uma ferramenta de terceiros equivalente ao GameWorks da NVIDIA, resumidamente, mas com um foco maior em estabilidade do que em desempenho, que fica reservado ao próprio hardware. Para isso, a HiAlgo usa as 3 ferramentas que mencionamos acima:

Switch

Um recurso bacana para quem costuma jogar games FPS (first-person shooter) e já não tem um hardware potente o suficiente para manter a quantidade de fps (frames por segundo), quando a o desempenho cai dramaticamente em cenas muitos movimentadas. O recurso em si é basicamente um truque: com um clique, diminui-se a resolução quando o framerate cair.

Por exemplo, uma configuração pode aguentar grande parte das cenas do FarCry 3 em 1920x1080 com alguns filtros e efeitos ativados. Mas, quando começam a aparecer muitos carros e inimigos atirando junto com explosões, o FPS pode facilmente cair de, por exemplo, 45 para 20, o que não somente interfere na experiência de uso como também pode significar a diferença entre vencer ou perder.

Boost

A melhor forma de explicar o Boost é usando a Netflix como exemplo. Quando iniciamos um filme ou série, ele começa com uma resolução menor e, quando a banda estabiliza, ele passa a usar a resolução máxima suportada. Mesmo quando a banda diminui no meio da exibição, a resolução cai, mas o filme não pausa (as vezes pausa, mas quando realmente não há internet disponível), voltando quando a rede estabiliza.

O Boost faz exatamente isso, mas com os jogos. Em jogos FPS, por exemplo, quando movimentamos a câmera e o hardware tem dificuldade de renderizar novas cenas, em vez de deixar a coisa mal renderizada, ou com erros, a resolução diminui. Quando a cena se estabiliza, o Boost recupera a resolução original, oferecendo uma sobrevida àquela configuração mais antiga.

Chill

Dos 3, o Chill é o que mais foca em estabilidade. Como o nome sugere (Netflix and..), ele mantém o hardware "tranquilo", evitando o thermal throttling, que muitas vezes é o responsável pela queda absurda de frames por segundo em jogos pelo superaquecimento tanto da CPU quanto da GPU. Isso acontece pois, dependendo da configuração do driver, o hardware está configurado para funcionar no máximo independentemente da temperatura, só que acaba ficando aquecido demais, cortando o desempenho final quando chega em uma temperatura limite (e a qualidade do jogo) até que a CPU/GPU esfrie.

O Chill tenta evitar a temperatura da configuração chegue nesse limite, deixando de alcançar framerates muito altos em cenas onde não faria tanta diferença (manter 100 fps em cenas calmas, por exemplo) e liberando o desempenho em cenas onde é realmente necessário, não sofrendo com o aquecimento excessivo das cenas mais calmas. Pode não ser tão grave assim em desktops mais refinados e notebooks gamer, que contam com sistemas de refrigeração mais sofisticados, mas certamente é um recurso e tanto para notebooks comuns utilizados para jogos e desktops que usam coolers box e placas de vídeo sem coolers tunados para jogos.

Quem ganha e quais são as desvantagens

Os três recursos acima são basicamente "truques", formas de tentar oferecer uma experiência de uso, e isso acontece pois o público-alvo dos produtos da HiAlgo não é o gamer hardcore, que geralmente contam com um hardware capaz de dar um "max-out" em boa parte dos games antigos, mas sim quem quer aproveitar o hardware que já tem. Nesse caso, são configurações intermediárias ou antigas, que dificilmente conseguem rodar os jogos no máximo.

Isso nos leva à primeira limitação da HiAlgo, a sua principal desvantagem: suporte restrito a apenas alguns games. E, em geral, games mais antigos, que ainda usam o DIrectX 9, com a promessa de fazer a transição para o DirectX 11 no futuro. Alguns dos produtos ainda nem chegaram à versão 1.0, caso do Chill, que ainda está na versão 0.4 na data de criação deste artigo.

AMD

Isso porque não chegamos a comentar nada sobre o DirectX 12, já que nem o suporte ao DirectX 11 foi oficializado. Com a AMD agora usando todos os seus recursos nesse caminho, provavelmente as atualizações chegarão mais rapidamente, para o benefício dos usuários.

Outra "desvantagem" é esperar como a AMD aproveitará esses novos recursos, e em quanto tempo. No primeiro caso, teremos que esperar para ver o nível de integração entre software e hardware que a AMD oferecerá para o seu público-alvo, assim como o número de gerações suportadas. Timing também é essencial, já que é crítico o tempo que a AMD demorará para implementar esses recursos em seus drivers futuros.

Conclusão

O futuro da AMD está em duas frentes: em primeiro lugar, temos o Zen, quando a empresa finalmente mudará a sua arquitetura e (provavelmente) começará a competir com a Intel no segmento entusiasta. Isso oferece ganhos para o usuário médio também, já que variações mais simples do modelo entusiasta também chegarão, algo esperado por muitos usuários que estão esperando o Zen para finalmente atualizarem as suas máquinas. A segunda frente é o software.

Melhorias no Catalyst impactarão em praticamente todas as gerações de placas de vídeo da empresa, já que, com exceção dos modelos top de linha, a AMD tem trabalhado a bastante tempo com o "Rebranding", usando gerações semelhantes do GCN por gerações seguidas. Incorporar os recursos da HiAlgo, junto com as otimizações que já estão sendo feitas com frequência maior no próprio driver, certamente beneficiarão uma boa quantidade de máquinas, em especial que conta com configurações intermediárias.

A questão que fica é: quando isso irá acontecer.

Fonte: WCCFtech, HiAlgo