Qualcomm fala sobre o seu sucesso no mercado de smartphones e traça planos

Por Pedro Cipoli | 15.08.2013 às 07:50
photo_camera Pedro Cipoli/Canaltech

A Qualcomm promoveu ontem (14) em São Paulo uma mesa redonda com alguns jornalistas. O assunto foi o seu sucesso no mercado de smartphones e os projetos que está trabalhando aqui no Brasil. O evento contou com a presença de Bill Davison, vice-presidente sênior de estratégias e operações da Qualcomm Global, e Rafael Steinhauser, presidente da Qualcomm América Latina. Entre outras informações, eles deram detalhes sobre a posição atual da empresa tanto no Brasil como no mundo, e o trabalho da Qualcomm junto às operadoras de telefonia e com o governo brasileiro.

Bill Davison (esquerda) e Rafael Steinhauser (dire

Linha Snapdragon

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"Tivemos um trimestre muito forte e uma receita recorde", comenta Bill. Este fato foi impulsionado principalmente pelas vendas de smartphones com os SoCs criados pela empresa. Essa não é uma informação que causa muita surpresa, afinal, Galaxy S4, HTC One, Lumia 1020, Blackberry Z10 e boa parte dos smartphones top de linha atualmente possuem um processador Snapdragon por baixo do capô. Esse último trimestre também inclui o lançamento de seu novo SoC Snapdragon 800, presente no Optimus G2 da LG, que além de seu clock mais alto (quad-core de 2,26 GHz), é o primeiro chip com suporte ao padrão LTE Advanced, também conhecido como 4G super rápido.

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Bill comentou sobre um dos principais motivos do sucesso da linha Snapdragon: "Você tem que suportar a computação de alto desempenho, mas você tem que fazer isso sem comprometer a mobilidade [autonomia de bateria]. Se você olhar o interior de um processador Snapdragon, a CPU é somente 15-20% do que nós fazemos no silício [área total do chip]. Diferentemente do que acontece nos computadores onde a CPU não se preocupa muito com a duração de bateria ou o calor gerado – SoCs não precisam de coolers como desktops e laptops". A preocupação da Qualcomm em criar um chip que seja ao mesmo tempo potente e econômico é um dos principais temas de nossa entrevista exclusiva com Helio Oyama, engenheiro da empresa.

Modelo de negócios: licenciamento

Os processadores móveis são basicamente uma combinação de núcleos de processamento projetados pela ARM Holdings (família Cortex – entenda mais), GPU também da ARM (série Mali) ou mesmo da Imagination Technologies (série PowerVR) e módulos adicionais, como WiFi, 3G, 4G, Bluetooth e assim por diante. No caso da série Snapdragon da Qualcomm, a história é um pouco diferente: "O que fazemos através de nosso modelo de licenciamento é agir como um agregador. Nós não apenas juntamos núcleos ARM, mas os modificamos, inserimos os módulos adicionais e vendemos a solução completa para as empresas colocarem em seus dispositivos. Atualmente contamos com mais de 240 tipos de licenciamento em nosso portfólio".

"A integração de componentes é a chave para nossos parceiros conseguirem atualizar seus aparelhos de forma mais rápida. Nós integramos um pacote [o chip completo, caso do Snapdragon 600, por exemplo] que é totalmente testado, sendo uma solução completa que os parceiros [Samsung, LG] podem colocar em seus produtos de forma bastante rápida", comenta Bill. Ele também disse que não vê nenhuma outra empresa oferecendo uma solução completa como a Qualcomm. Acreditamos que ele tenha, aqui, dado uma leve alfinetada na Samsung, pois no caso do Galaxy S4 a sul-coreana teve que colocar no mercado uma versão 3G com o seu processador Exynos 5 e outra 4G com o Snapdragon 600 por não saber fazer o 4G funcionar de forma integrada ao resto do chip.

Sobre a aceitação dos SoCs Snapdragon, Bill mostrou os dados com bastante orgulho:

  • mais de 100 parceiros, incluindo as mais conhecidas como Samsung, LG, Sony e HTC
  • mais de 500 produtos em desenvolvimento
  • mais de 1000 produtos anunciados ou já presentes no mercado
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Para Rafael Steinhauser, um dos principais motivos da grande aceitação dos produtos da empresa é o foco sempre presente na era pós-PC. "Sempre tivemos essa visão com três ênfases: computação, conectividade e multimídia. Isso inclui não só smartphones como também TVs, tablets, centros multimídia, e é nessa direção que a Qualcomm está indo". Isso significa que, basicamente, hoje em dia até geladeira se conecta à internet, e tanto a eficiência dos SoCs (da Qualcomm e de outras empresas concorrentes) quanto o desempenho e conectividade são as tendências para quem quer ser bem sucedido no mercado.

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Crescimento das redes móveis

De acordo com a previsão da Qualcomm, o número de conexões móveis (tanto 3G quanto 4G) aumentará cerca de 190% até 2017, indo das atuais 1 bilhão de conexões e chegando próximo de 3 bilhões. O mercado será impulsionado principalmente pelos países emergentes. Um número ainda mais assustador é o de dispositivos que estarão conectados, incluindo desde smartphones e laptops até televisões e geladeiras: esses dispositivos passarão dos 25 bilhões, mostrando que quem quer se dar bem nos próximos anos terá que lembrar que conectividade é um dos pontos-chave em qualquer dispositivo.

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Segundo Rafael, países como o Japão, EUA, e Coreia, atualmente, só vendem telefones com conexão 3G (mínimo) e plano de dados, desde smartphones top de linha até telefones comuns. Na Europa esse número é menor, 90%, mas ainda bastante significante, e na China a proporção é de 70%. Já o Brasil está um pouco atrás: atualmente, estamos na inversão da curva, com mais smartphones vendidos do que os chamados feature phones, ou modelos sem conectividade. Mas isso não quer dizer que as pessoas têm pacote de dados em seu smartphone: essa razão, por aqui, é de 1 para cada 3. Os outros 2 terços incluem pessoas que utilizam apenas eventualmente (com planos onde você paga apenas no dia que usa), e a outra metade não possui qualquer tipo de conexão de dados.

"Por que estamos tão atrás? Por uma série de motivos. Um deles é que os smartphones no Brasil são muito caros, algo que melhorou com a isenção de impostos federais (Lei do Bem). O outro é o alto custo de uma conexão de dados móveis. No primeiro caso isso parece estar mudando com a chegada de smartphones produzidos por empresas nacionais, como CCE, Gradiente, Philco, Positivo e Semp Toshiba. No segundo ainda estamos analisando soluções", completa Rafael.

Planos futuros

Atualmente a Qualcomm conversa com setores públicos e empresas para que elas ofereçam conexão de graça. Mas calma, isso não significa que você poderá assistir vídeos no Youtube ou postar fotos no Facebook em qualquer lugar, mas sim que serviços essenciais, como pagar uma conta pelo celular ou consultar algum site público para informações, possam ser utilizados de graça pela população.

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Para a Qualcomm este é um negócio excelente, uma vez que aquecerá o mercado de smartphones no país. E mesmo que os smartphones vendidos não utilizem SoCs Snapdragon, a empresa ganha no licenciamento de conectivade 3G/4G, afinal, é proprietária do padrão. Além disso, a Qualcomm está diretamente envolvida no projeto de melhorias de nossa rede atual, não só das antenas como também utilizando um dispositivo projetado pela Qualcomm e atualmente disponível em outros países.

O produto é chamado "base station" e funciona da seguinte maneira: você liga para a sua provedora (como a Vivo, por exemplo) e explica que na sua casa o sinal 3G/4G não funciona direito. A empresa fornece, de forma gratuita, uma base station para colocar na sua casa e ampliar o sinal, simples assim. O que ela ganha com isso? Uma ampliação do alcance de forma local. Apenas um cliente não mudaria muita coisa, mas imagine milhares em uma área como São Paulo. Ainda não há a implementação desse serviço no Brasil (tente ligar para a sua operadora para reclamar da falta de sinal), mas se tudo der certo poderemos ver algo semelhante por aqui nos próximos anos.

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Para finalizar, temos o desafio "1000x data", que tem como objetivo aumentar 1000 vezes o volume de tráfego e dados nos próximos anos. Para que isso seja possível, é necessário uma combinação de tudo o que foi dito até aqui: mais processamento, mais duração de bateria e custos menores de aparelhos e planos de dados. A Qualcomm está trabalhando para que isso aconteça e que a "Internet of Everything" seja possível. A intenção é fazer com que o usuário não se preocupe se está em uma rede móvel ou WiFi – algo que, se der certo, só temos a ganhar.