Hacker consultor de Mr. Robot quer tirar férias da série e voltar a hacks reais

Por Rafael Romer | 21.11.2016 às 08:00
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Um dos consultores responsáveis por tornar as cenas de hacking de Mr. Robot tão realistas, o hacker britânico Marc "CJ" Rogers está planejando dar um tempo no trabalho junto à série para voltar aos hacks de verdade.

"Eu ainda quero fazer mais coisas para a televisão, mas provavelmente vou me afastar um pouco para voltar para minhas pesquisas e hackear mais coisas de verdade ao invés de só montar demonstrações", explicou CJ na última sexta-feira (18), em uma palestra durante o evento hacker Roadsec 2016, em São Paulo.

De acordo com Rogers, apesar de gostar do trabalho que faz em Mr. Robot, a pesquisa e desenvolvimento dos hacks fictícios da série têm ocupado uma grande parte do seu tempo, o que tem obrigado o hacker a deixar seus projetos reais de lado. Só para uma das cenas da segunda temporada da série, por exemplo, em que o protagonista Elliot Alderson utiliza uma femtocell infectada para hackear celulares, foram seis semanas de pesquisa e desenvolvimento para alguns minutos de imagem na TV, segundo Rogers.

A gota d'água, no entanto, teria sido por causa de um dos próprios hacks de Rogers. No ano passado, o britânico foi o primeiro a conseguir acesso remoto a um Tesla Model S, através de um hack que emulou o veículo em um computador para acessar os sistemas da Tesla e instalar um backdoor no carro. Com acesso remoto ao veículo, o CJ foi capaz de controlá-lo por um iPhone e desligá-lo completamente com um comando pelo smartphone.

Por causa do tempo dedicado à Mr. Robot, CJ não conseguiu mais continuar a pesquisa por novas vulnerabilidades no veículo após a Tesla ter corrigido a falha explorada por ele. O resultado disso? Em setembro deste ano, um grupo chinês foi o responsável pelo mais novo hack do carro, deixando CJ para trás na disputa. "Isso me irritou, porque o Tesla é meu hack", brincou.

"Vontade de quebrar a TV"

Hackeando coisas desde os anos 80, CJ conta que sempre gostou de acompanhar filmes e séries que retratavam a ação de hackers, mas normalmente costuma sentir vontade "quebrar a TV" quando programas mostram hacks toscos ou mal feitos – como as infames séries Scorpion e CSI Cyber.

"Se você tem um hack falso, você destrói toda a ilusão", comentou. "Para manter essa ilusão, tudo tem que fluir bem".

A atenção aos detalhes foi o que chamou a atenção de CJ para Mr. Robot pela primeira vez, algo raro em Hollywood, segundo ele.

Rogers conta que a série trabalha hoje com dois grupos: o roteiristas e os hackers consultores. Quando estão aproximadamente 75% prontos ,os scripts chegam aos consultores com toda a história do episódio completa, mas ainda com as cenas de tecnologia indicando apenas ideias gerais do que deverá acontecer. O time discute os possíveis hacks que poderiam ser aplicados na história de forma realista e repassam as alternativas para a produção da série.

Quando todos estão de acordo, o time de consultores desenvolvem o hack para valer – o que, às vezes, pode incluir criar um equipamento real para o hack, como no caso da femtocell – e a cena vai para a filmagem. "Não é algo tão difícil", contou o hacker. "Tudo tem vulnerabilidade. Então tudo que nós temos que é pegar essa vulnerabilidade e adaptar para um hack possível".