Por dentro do Exército digital secreto do ditador sírio Bashar al-Assad

Por Redação | 11.09.2013 às 08:00 - atualizado em 11.09.2013 às 10:39
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Um grupo que se autodenomina o Exército Eletrônico da Síria (SEA, da sigla em inglês) tem chamado a atenção por travar uma ofensiva online contra críticos do ditador sírio Bashar al-Assad. O coletivo de hackers invadiu uma série de sites de notícias nos últimos meses, incluindo grandes nomes como o The New York Times , Al Jazeera, Reuters, e o Washington Post.

E isso já acontece há algum tempo, mas apenas agora está ganhando mais força e destaque. Em meados de marços deste ano, nem mesmo a conta do Twitter do canal do tempo da BBC ficou livre dos ataques do grupo, que tentou espalhar mensagens desejando vida longa ao ditador, como o tweet que dizia "Long Live #Syria Al-Assad #SEA". Os hackers também inundaram o site de 140 caracteres de declarações políticas irônicas mescladas com a previsão do tempo: "Alerta de tsunami para Haifa [maior cidade do norte de Israel]: moradores são aconselhados a voltar para a Polônia".

Em abril deste ano, o grupo também foi responsável por invadir a conta no Twitter da agência de notícias Associated Press (AP) e gerar alguns momentos de crise com uma falsa notícia divulgada na rede. Um tweet dizia que duas explosões haviam acontecido na Casa Branca e que o presidente Barack Obama estava ferido.

Twitter Associated Press hackeado

O último ataque aconteceu na semana passada, quando o SEA invadiu o site de recrutamento da Marinha dos Estados Unidos. O texto publicado no site pedia que os fuzileiros navais entendessem o amor do grupo pela Síria, e ainda chamaram o presidente norte-americano Barack Obama de traidor, "que quer colocar as suas vidas em perigo para salvar os insurgentes da Al-Qaeda".

Mas afinal, quem são esses soldados do Exército Eletrônico da Síria?

"Eles não andam por aí carregado metralhadoras, eles não torturam seus adversários em masmorras e não sequestram estrangeiros. Suas vítimas são máquinas, e eles sequestram algo muito importante na guerra: a notícia", essa é a definição do SEA feita por Theresa Breuer, repórter da polêmica e opinativa revista online The Kernel.

A maior parte do Exército Eletrônico Sírio é formada por apoiadores do presidente da Síria, Bashar al-Assad, mas aparentemente a organização de hackers não tem qualquer relação oficial com o governo. Na verdade, eles negam ser filiados ao regime de Assad.

Recentemente, Oz Katerji, da revista Vice, conseguiu conversar com um hacker chamado 'Th3 Pr0', que representa o SEA, para discutir as intenções do grupo. O porta-voz do grupo disse o seguinte: "Nós não damos qualquer informação sobre qualquer ativista ao governo. Nós não pensamos que o governo sírio precisa das nossas informações, cada país tem sua própria inteligência".

Porém, o The New York Times já publicou evidências que sugerem o contrário. Procurados pelo jornal norte-americano, especialistas afirmaram que os registros digitais do SEA podem ser rastreados até o Syrian Computer Society, uma organização fundada pelo próprio al-Assad, e que agora é responsável pela atribuição de domínios de internet na Síria.

Exército Eletrônico da Síria

Além disso, o jornal também afirma que pesquisadores traçaram um ataque de volta para um endereço de IP sírio registrado por uma empresa de telecomunicações chamada Syriatel, cujo dono é um primo de Assad, Rami Makhlouf. Na ocasião, os pesquisadores disseram que o SEA possuía uma hierarquia bem definida, com líderes, técnicos, um braço de mídia e centenas de voluntários.

Mas vale ressaltar que nenhuma prova crucial dessa relação estreita entre Assad e SEA foi apresentada. Mas há quem tenha certeza que o grupo é apenas uma fachada para fiscalizar e obter dados dos rebeldes sírios que lutam contra o governo do presidente sírio.

Porém, enquanto Assad não confirma nem nega seu aval para o exército de hackers, a The Kernel resgatou um discurso feito por ele há dois anos na Universidade de Damasco. Na ocasião, ele chamou seus soldados para lutar contra a oposição e também elogiou seus guerreiros cibernéticos, chamando-os de "um verdadeiro exército em uma realidade virtual".

Guerra com o Anonymous

Enquanto os Estados Unidos e outras potências mundiais continuam debatendo uma possível intervenção militar na Síria, o grupo Anonymous já se manifestou e começou sua própria intervenção virtual, enfrentando o temido SEA. Na semana passada, o Anonymous vazou dados roubados em abril, quando eles se infiltraram em um servidor usado pelos hackers do grupo sírio. No fim da semana, alguém começou a divulgar esses dados na Deep Web, aquela parte da internet que guarda coisas que o Google e outros motores de busca não podem encontrar.

No entanto, os membros do grupo sírio negam que seu site tenha sido invadido e seus membros desmascarados, inclusive dizem que os nomes citados nos documentos divulgados pelo Anonymous, e publicados por um ex-repórter do Washington Post, não são de seus líderes. "Essa história tem sido fonte de diversão e risos para todos nós", disse o anônimo responsável por operar o Twitter do Exército Eletrônico da Síria em entrevista ao site Mashable. Ele diz ainda que a atitude do jornal norte-americano foi "irresponsável e ilegal", pois eles "postaram a foto de um cara aleatório que nenhum de nós poderia identificar e o chamou de líder do SEA".

Em meio a tantas informações, fica difícil saber qual é realmente a verdade por trás do Exército Eletrônico da Síria, mas muitos dados continuam apontando para Bashar al-Assad.