Geek City | Veever, a startup que quer deixar o mundo mais acessível

Por Felipe Demartini | 04 de Setembro de 2019 às 10h13

Quem vai a um evento sabe mais ou menos como tudo funciona, com uma olhada rápida pelo pavilhão indicando a localização de palcos, estandes e atrações. Mas para um deficiente visual, a experiência é muito diferente, principalmente no que toca a localização e o entendimento do que está acontecendo. É nesses dois sentidos que a Veever deseja trabalhar e, mais do que isso, proporcionar uma experiência melhor.

A empresa foi uma das startups presentes no Geek City 2019, evento de cultura pop e tecnologia que aconteceu no último final de semana em Curitiba (PR). Em um pequeno estande logo na entrada, a companhia demonstrava seu sistema de beacons que, mais do que emitir informativos, também auxiliaria os deficientes visuais a terem uma experiência cultural.

De posse de um aplicativo gratuito e com audiodescrição, o deficiente visual saberia onde ir. No caso do Geek City, por exemplo, ao permanecer parado e apontar o celular em diferentes direções, saberia, por exemplo, que a Arena Games estava logo em frente, a saída à esquerda e, seguindo até o final, o palco principal, bem como o Studio Geek, de onde o Canaltech fazia toda a cobertura.

Mas a ideia, como demonstrou Hanna Coutinho, da Veever é ir além disso, e não apenas indicar a direção, mas também o que está acontecendo em cada espaço. Ela usou um museu como exemplo, com o sistema da Veever indicando não apenas a obra que está diante do usuário, mas também descrevendo detalhes do trabalho que vão bem além da figura retratada, acrescentando informações do artista e a técnica utilizada, por exemplo.

“Fazer isso não é algo trivial, não poderíamos falar da Monalisa apenas como ‘a figura de uma mulher’, por exemplo. Sendo até redundante, precisamos de uma descrição bem ‘descritiva’”, explica João Pedro Novochadlo, cofundador da Veever, em entrevista ao Canaltech. Para obter isso, a startup tem um time de colaboradores que auxilia na audiodescrição de obras ou trabalha em parcerias com os locais onde os beacons serão instalados.

Todo o sistema funciona por Bluetooth, com conexão direta ao celular, que notifica o usuário quando ele entra em um espaço que está coberto pela Veever. O segredo está em uma tecnologia chamada geofence, que cria uma espécie de “cerca virtual” que é reconhecida pelo software e passa a indicar as informações de mapeamento para o usuário. “Além disso, nessa etapa inicial, estamos fazendo um trabalho de divulgação e convencimento para que as pessoas baixem o aplicativo”, completa Novochadlo.

Rompendo barreiras

Com beacons disponíveis em locais de circulação, aplicativo da Veever indica o caminho para atrações, serviços e saídas (Imagem: Divulgação/Veever)

O Geek City 2019 foi um momento especial para a equipe da Veever, não apenas pela exibição de seu produto ao público, mas também pelo recebimento, apenas dias antes, de uma boa notícia: a tecnologia será usada para dar mais acessibilidade ao público de um dos principais eventos de música do Brasil, que começa no final deste mês de setembro.

Os caminhos para os palcos, instalações, saídas e demais atrações serão todos mapeados pela empresa ao longo da maratona de shows e artistas internacionais. Serão 150 beacons instalados pelo local do evento, com o acesso sendo feito a partir do aplicativo da própria startup.

“A tecnologia, para avançar, precisa ser testada. Essa é uma oportunidade que jamais existiu para um projeto desse tipo e será uma prova de fogo para a tecnologia, com uma grande quantidade de dispositivos, um espaço enorme e centenas de celulares ao mesmo tempo”, explica o cofundador. Ele conta que a iniciativa de trazer mais acessibilidade ao evento partiu de um dos patrocinadores, que, em busca de soluções inclusivas, acabou encontrando a Veever.

A equipe se sente preparada para o desafio, pois até agora todo o trabalho foi focado em testes. Desde o início até a metade de 2019, a Veever esteve em uma etapa totalmente experimental, trabalhando em ambientes controlados e diferentes contextos, desde espaços públicos, como shoppings e museus, até locais fechados, como empresas ou escolas. Agora, a ideia é aplicar definitivamente as soluções nos locais onde ela já foi validada.

O app da Veever também pode contar com audiodescrição de obras e indicações de ônibus que estão a caminho do ponto, entre outras funções (Imagem: Divulgação/Veever)

“Temos muito cuidado em não adicionar mais frustração aos deficientes visuais, por meio de uma experiência negativa”, explica Novochadlo. Por isso, a ideia é experimentar conceitos e testar aplicações antes de, efetivamente, aplicar a proposta de maneira definitiva. E destes testes todos, alguns já estão se transformando em iniciativas reais.

O executivo é misterioso em relação a nomes, mas revela a participação da Veever na Bienal de Curitiba, com uma estrutura itinerante que fará o mapeamento de diferentes museus em vários dias. Um shopping da capital paranaense também já fechou a instalação da estrutura, bem como outro na cidade de Guarapuava, no interior do estado. O aeroporto do município, que fica a 250 quilômetros da capital, também receberá a tecnologia em breve.

No Geek City 2019, a Veever também exibiu outra de suas iniciativas, que também utiliza beacons para monitorar linhas de ônibus e fornecer informes aos passageiros com deficiência visual. “Queremos acabar com a ideia de que [eles] precisam parar todos os coletivos para perguntarem o destino ou, então, contarem com a ajuda de alguém no próprio ponto", revela Coutinho.

Essa, entretanto, é uma etapa que parece um pouco mais complexa, não apenas pela utilização do sistema em um ambiente urbano nada controlado, mas também pela burocracia envolvida na instalação de algo assim em um serviço público. Por isso, o time tem calma e dá tempo ao tempo enquanto busca parcerias e já viu total apoio de administrações municipais para o projeto.

Novochadlo cita a prefeitura de Porto Alegre (RS) como uma em que as conversas estão mais avançadas, por causa de leis de incentivo à acessibilidade e tecnologia, que dispensam licitações no caso de projetos-piloto como os da Veever, exigindo apenas aprovação pela Câmara municipal. “Também cogitamos outras cidades com legislações flexíveis, e uma vez que o projeto seja validado nelas, teremos o modelo para todas as outras cidades”, complementa.

Esse é o caminho para um cenário ideal, com o mapeamento em diferentes locais e, principalmente, a oferta de acessibilidade para todos, de maneira gratuita e por meio do mesmo celular que as pessoas já têm no bolso. O aplicativo da Veever pode ser baixado no iOS e Android.

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