Steep diverte bastante, mas falta "alma" ao jogo [Análise]

Por Leandro Souza | 03.01.2017 às 14:51

O começo dos anos 2000 foi um dos pontos altos para os jogos de esportes radicais em 3D. A série Tony Hawk’s Pro Skater popularizou como nenhuma outra o estilo de jogo ágil e cheio de manobras, combinado com uma playlist destruidora que fazia uma tarde inteira passar voando. Na tentativa de capitalizar em cima dessa fórmula, títulos como SSX e 1080º foram exemplos que deram muito certo em jogos de snowboard. Steep, lançado pela Ubisoft em dezembro passado, é a tentativa de trazer novamente os jogadores para os esportes radicais de neve, unindo estes esportes com um conceito interessante de mundo aberto - ou neste caso, uma montanha aberta.

Apostando em quatro modalidades básicas (wingsuit, parapente, snowboard e esquis), o jogador pode explorar livremente uma série de montanhas congeladas, com diversos percursos pré-definidos em modelos competitivos e até uma série de percursos próprios que podem ser descobertos durante as descidas. Os objetivos variam de bater o melhor tempo em provas de velocidade a atingir a maior pontuação em provas de manobras, rendendo moeda corrente no jogo, válida para compra de novos equipamentos e acessórios (como fantasias, trajes especiais) e simplesmente para desbloquear novas provas e modos história dentro do jogo.

O conteúdo visual e variado do jogo é enorme, mas com uma jogabilidade truncada e pouco responsiva, a experiência de Steep acaba sendo muito mais frustrante que divertida.

Mundo aberto de dar calafrios

Estabelecido nos Alpes, o jogador é colocado na pele de um novato que tem que ascender à fama em diversas competições, em meio a uma paisagem gélida e ameaçadora. Desde a primeira caminhada na neve, a textura do gelo que se modifica com cada passo e até o barulho idêntico ao real conseguem criar a atmosfera necessária para colocar o jogador na pele do atleta. A iluminação fria do inverno, as noites escuras, as tempestades de neve e até a natureza ao redor das descidas dão uma sensação de isolamento quase real.

As quedas de wingsuit e o barulho do vento enquanto você observa os topos das montanhas embaixo do personagem dão realmente a sensação de que você pode voar, mesmo que por apenas alguns segundos. Ajuda também o fato do jogo contar com uma versão em primeira pessoa, utilizando a GoPro nos capacetes dos atletas. Até os barulhos da câmera sacolejando são idênticos aos reais, mas a experiência serve mais como easter egg já que os controles acabam se tornando ainda mais complicados e o número de bugs cresce exponencialmente.

A atenção aos detalhes também é incrível. Chegar ao cume de uma montanha e encontrar um pequeno santuário ou voar em direção a uma igreja e tocar um sino ao colidir com ele são alguns detalhes que enriquecem a experiência. Mas às vezes a melhor parte é só assistir a bela paisagem e aproveitar para tirar fotos dela. Bem como na vida real mesmo.

Quedas frustrantes

O grande problema de Steep fica por conta de seus controles. Enquanto você tem a liberdade para explorar e decidir que tarefa deseja fazer, o formato para controle de manobras nas modalidades snowboard e esqui, combinado com a limitação de não oferecer um modo circuito (as pontuações devem ser feitas durante a descida, passando pelos obstáculos naturais da prova), acabam acentuando a frustração do jogador. É difícil conseguir embalo suficiente para acertar logo no começo uma manobra que garanta pontos suficientes para dobrar o multiplicador e o resultado acaba sendo o reinício constante da prova.

Some a isso o fato que o game opta por utilizar o gatilho direito (no caso o R2 no PS4) para executar os saltos e manobras, algo que acaba exigindo ainda mais paciência para reaprender os comandos e achar o timming correto para executá-las. Mesmo depois de diversas horas de jogo, continuará sendo um problema.

O parapente passa a ser uma modalidade menos interessante, apesar de garantir as melhores paisagens, mas o sistema de manobras é ainda mais confuso. Já o wingsuit, a parte mais divertida do game exige precisão milimétrica, algo que vai garantir muita tentativa e erro antes de atingir a pontuação máxima. Como o jogo preza pelo realismo, não espere muitos malabarismos nessa modalidade. São quedas livres com pouco controle sobre o atleta, garantindo, no máximo, curvas mais ágeis. Felizmente, a mecânica de reiniciar o percurso é extremamente rápida para reduzir a frustração.

Divertido mas salgado

O que desanima em Steep é o preço de título AAA quando a experiência não parece ser tão completa assim. Pelo pacote que o jogo oferece, mesmo com um vasto conteúdo (particularmente, os conteúdos que podem ser comprados com moedas de jogo são apenas para customização), parece que falta alma ao novo IP da Ubisoft. Sua trilha sonora é genérica, e, apesar de divertido, principalmente quando você desbloqueia os picos mais altos, o game acaba repetindo as mesmas provas e descidas que apresentou em seu início. Por vezes, é difícil diferenciar se você já esteve no local ou completou a prova até que tenha chegado ao final. E desembolsar mais de R$ 250 por ela Gold Edition, que garante as novas modalidades em DLC acaba pesando bastante na hora de optar pela compra.

Não que Steep não seja um jogo divertido e muito bem feito. Dá pra ver que a equipe realmente trabalhou para fazer algo original e de qualidade. Mas na hora de jogar o que conta é o refinamento da jogabilidade e esse acaba sendo seu grande problema.

Nota 7,0.

*A versão para PS4 de Steep utilizada nesta análise foi gentilmente cedida pela Ubisoft Brasil.