Será que precisamos de um remake de Resident Evil 2?

Por Felipe Demartini | 23 de Julho de 2015 às 14h46

Na última semana, a internet ficou em polvorosa com o ressurgimento de um dos mais prestigiados remakes de Resident Evil 2, produzido por fãs. Com lançamento previsto para setembro, gratuitamente, o título está sendo desenvolvido de maneira independente, a partir do motor gráfico Unreal Engine 4, e impressiona ao dar uma cara de última geração para o título lançado originalmente em 1998.

Chamam a atenção, por exemplo, a iluminação realista – apesar dos cenários escuros demais em alguns momentos – e os efeitos de partículas típicos de jogos mais recentes, com alto poder de processamento. A Invader Games, responsável pelo remake, afirma que todas as texturas e cenários foram feitos do zero, de forma a terem maior qualidade gráfica na mesma medida em que continuam com a aparência que todos conhecemos.

A existência deste, mais um entre tantos “fanmakes” de Resident Evil 2, porém, é um reflexo de algo maior. A comunidade de fãs, não apenas da franquia de horror, pede há anos que a Capcom recrie para a nova geração este que é um de seus principais games. A ideia é partir do trabalho realizado com o primeiro título, totalmente repaginado em 2002 e relançado recentemente em uma versão definitiva, em alta definição.

Enquanto se acumulam os pedidos e também as expectativas pelos remakes feitos por fãs, muita discussão acontece. O que impede a Capcom de lançar um game desse tipo, que na cabeça dos aficionados, seria garantia de sucesso? Por outro lado, será que esse tipo de coisa é realmente necessária, ou é melhor deixar os clássicos sendo clássicos?

Tudo novo, de novo

Não existe discussão quando o assunto é a evolução da indústria. Desde o lançamento de Resident Evil 2, deixamos de ter personagens quadradões e sem expressão, além de cenários pouco definidos e em baixa resolução para termos jogos com qualidade comparável a filmes, com protagonistas expressivos, histórias mais profundas que muitas vistas no cinema e um visual de deixar qualquer diretor de fotografia com inveja.

E não seria nada mal ver um dos melhores jogos de todos os tempos dessa maneira, não é verdade? Uma atualização gráfica é o argumento número um por trás de quase todo e qualquer pedido de remake oficial de Resident Evil 2. Os fãs querem ver as novas plataformas em pleno funcionamento, revitalizando um clássico e apresentando-o para uma nova geração.

Resident Evil Remake

Foi isso o que aconteceu, por exemplo, em 2002, quando a Capcom lançou o remake do primeiro Resident Evil. Além de consertar a história e adicionar novos fatos, a empresa realizou um “Extreme Makeover” no título, deixando a imponente mansão que serve de cenário ao game muito mais sombria e seus protagonistas muito mais vivos.

O nível de cenário impressiona e, mesmo sendo um game de treze anos de idade, Resident Evil Remake ainda apresenta visuais que batem de frente ou até mesmo são capazes de superar muitos lançamentos recentes. Na versão em HD, lançada no início deste ano, então, a coisa toda fica ainda mais incrível.

Fui justamente o retorno do título, inclusive, que levou muitos fãs a retornarem à carga de pedidos por um relançamento de Resident Evil 2. Se temos agora uma “edição definitiva” do primeiro jogo da série, por que não fazer o mesmo com sua sequência? Para muitos fãs, a ausência de um lançamento desse tipo faz com que a Capcom esteja deixando de ganhar um caminhão de dinheiro, dado de bom grado pelos jogadores.

Dinheiro, aliás, que nos leva ao próximo tópico...

A velha e desgastada guerreira

Antes uma das maiores e mais conceituadas empresas do mundo dos games, a Capcom passou ultimamente por um período de baixa que, somente agora, está começando a se reverter. A aposta errada em um ritmo de desenvolvimento acelerado, parcerias com estúdios ocidentais de qualidade duvidosa e mudanças de estilo nada agradáveis em grandes jogos – Resident Evil 6, estamos olhando para você – levaram a empresa a resultados financeiros nada agradáveis.

CAPCOM

Isso levou a companhia a rever seus procedimentos internos. O resultado desses trabalhos fechados ao público foi uma grande baixa na frequência de títulos novos nos dois últimos anos, além de um foco renovado em relançamentos e remasterizações. A ideia é organizar a casa para se preparar melhor para os desafios que estão por vir, e não repetir os erros que resultaram em grandes gastos, retorno financeiro abaixo do esperado e muitas críticas.

Mais uma vez, parece ser o momento oportuno para um remake de Resident Evil 2, certo? Afinal de contas, o game seria uma aposta certa de lucratividade, com tanta gente pedindo e praticamente jogando dinheiro na tela sempre que o assunto ressurge. Talvez sim, mas um segundo aspecto da política recente da Capcom pode acabar dando tudo a perder. A hora, para a empresa, é de lucros rápidos e desenvolvimento ágil.

E estes dois aspectos são exatamente o oposto do que um remake de Resident Evil 2 merece. Como um dos principais títulos de sua história e também de todos os tempos, o game necessita de um trabalho apurado – como o feito com o primeiro título da saga – para que o resultado seja o esperado pelos fãs.

Muita gente não se lembra, mas muitos dos cenários e enredos do clássico já deram as caras em outros jogos da série. A delegacia de polícia de Raccoon City, por exemplo, foi revisitada em Resident Evil: The Umbrella Chronicles. Mais tarde, sua sequência, The Darkside Chronicles, apresentou um novo olhar sobre a trama. Ambos estão disponíveis para Nintendo Wii e PlayStation 3.

A jogabilidade destes dois games, porém, desagradou muita gente, já que em vez da movimentação livre, o mundo é apresentado como um shooter sobre trilhos, ao melhor estilo dos antigos fliperamas. Temos também um severo reaproveitamento de texturas que remontam aos tempos de PlayStation 2, quando a delegacia de polícia foi, pela primeira vez, recriada para uma nova era de plataformas.

E é justamente esse tipo de atitude que combina com a política atual da Capcom. E, por outro lado, não com o anseio dos fãs. Os pedidos incessantes por um remake de Resident Evil 2 e a vontade da empresa de ganhar dinheiro rápido poderiam fazer com que ela, mais uma vez, reaproveitasse recursos antigos, gerando um resultado semelhante aos diversos fanmakes que eventualmente dão as caras por aí. E esse, com toda certeza, não é o resultado esperado.

Que saudade do medo

Resident Evil Revelations

Para muitos fãs, um dos principais motivos por trás das decisões equivocadas tomadas recentemente pela Capcom em relação a Resident Evil está relacionado a uma mudança nos rumos da franquia. Desde 2005, com RE4, a empresa deixa o clima de terror mais e mais de lado, focando em uma jogabilidade de ação. Ela pode até agradar os gamers mais novatos, mas acabou por alienar os veteranos.

Enquanto games como Resident Evil 6, quase que completamente focados na ação, falharam em seus objetivos mercadológicos, jogos menores, como a subsérie RE Revelations, mais focada no Survival Horror, apesar de ainda trazer traços da jogabilidade mais recente, tiveram bons resultados de vendas e críticas. Seria uma demonstração de que os fãs querem o terror de volta.

Por outro lado, quem jogou tais títulos sabe que o horror não é uma das características principais deles e, em uma análise ainda maior, o estilo antigo de Resident Evil pode não funcionar tão bem com a nova jogabilidade. Basta ver os vídeos do remake de RE2 que deram origem a este artigo para perceber isso.

No passado, os personagens se comportavam como tanques e os inimigos eram igualmente lentos, como zumbis devem ser. A agilidade conferida pela câmera em cima do ombro e a movimentação livre, porém, transforma os combates contra os mortos-vivos em algo parecido com um estande de tiro, no qual disparos precisos são capazes de acabar com os oponentes à distância, antes mesmo que eles sejam uma ameaça.

Resident Evil Revelations 2

Em Resident Evil Revelations 2, a alternativa para isso foi criar os Afflicteds, infectados mais ágeis, capazes de saltar pelos cenários e até mesmo utilizar armas para atacar. Temos personagens mais velozes, então, nada mais justo do que contarmos com inimigos também rápidos. Ao mesmo tempo, eles também passam longe do medo que sentíamos ao jogar os títulos clássicos da série.

Sendo assim, como lidar com a jogabilidade? Ao modificá-la, a Capcom poderia transformar Resident Evil 2 em algo completamente novo, e não tão agradável assim. Deixá-la como no passado, porém, também poderia ser encarado como um retrocesso e poderia não cair bem com jogadores novatos, acostumados com a liberdade e fluidez dos títulos mais recentes. Aqui, temos um enigma difícil de resolver, e com grandes chances de um resultado bem abaixo do esperado.

Sem a presença de gigantes

E se a jogabilidade já é um imbróglio complicado o bastante, o que dizer do enredo, um dos aspectos que torna Resident Evil 2 tão clássico? Sabemos que a Capcom tem uma tradição em mudar histórias sempre que revisita um game do passado – será que é uma boa fazer isso também aqui?

Mais uma vez, podemos nos voltar ao remake do primeiro game da série, que fez tais alterações de maneira excelente. O enredo não apenas recebeu adições, como também foi adequado aos rumos que a franquia seguia no momento, tirando do primeiro Resident Evil a cara de filme B e tornando a mansão, assim como sua proprietária, a Umbrella, uma empresa digna de todos os males que causou nos títulos seguintes.

Shinji Mikami

E se existe um nome por trás de todo esse cuidado, é o de Shinji Mikami. Ele foi o idealizador da franquia e criador das linhas gerais do enredo inicial. Como diretor, atuou tanto no primeiro Resident Evil quanto em seu remake, e sempre deixou claro que a ideia, ali, era adequá-lo aos novos rumos da franquia. A atualização gráfica era uma consequência disso, não o intuito original.

O problema é que Mikami não está mais na Capcom. O mesmo vale para o diretor de Resident Evil 2, Hideki Kamiya (ele trabalha na desenvolvedora Platinum Games), e seu produtor, Keiji Inagune (que está por trás do vindouro Mighty No. 9). O roteirista do jogo, Noboru Sugimura, faleceu em 2005.

Um dos segredos do sucesso do remake do primeiro Resident Evil é, justamente, a presença de boa parte da equipe original. Foi ela a responsável por trazer o carinho necessário para a produção, sem que ela quebrasse aquilo que já estava estabelecido, e levando adiante de forma tão interessante os conceitos que já eram bons por si só. Hoje, isso seria simplesmente impossível.

Não estamos dizendo que a Capcom não possui, hoje, gente de gabarito trabalhando na franquia – Resident Evil Revelations 2 é uma prova de que, quando quer, a empresa sabe fazer um bom jogo da série. Mas a equipe responsável pela saga hoje, nomes como o diretor Yasuhiro Anpo ou o produtor Michiteru Okabe, por exemplo, representam uma nova era. A pegada agora é outra, e ela pode não se dar muito bem com o jogo com o qual sonham os fãs.

No final das contas, um pensamento mais analítico acaba causando mais medo do que esperança em muitos fãs, e é justamente isso que leva uma parcela dos fanáticos da franquia a se posicionar contra um remake. Existem mais motivos para que a ideia dê errado do que argumentos que a mostram como um acerto, e como diz o ditado antigo, em time que está ganhando, não se mexe.

Alternativas e consolos

Mas não é como se os fãs fossem ficar permanentemente desejando ver Resident Evil 2 em todo o esplendor gráfico das atuais gerações. Existem, sim, alternativas para aplacar pelo menos um pouco dessa vontade, como os já citados spin-offs RE: The Umbrella Chronicles e The Darkside Chronicles.

Quem preferir observar tudo de um ponto de vista mais clássico pode procurar também Resident Evil: Outbreak File 2, lançado em 2004 exclusivamente para o PlayStation 2. O jogo tem suas diversas falhas e não conta mais com suporte online, mas permite um passeio pela delegacia de polícia com a jogabilidade clássica da série no cenário Desperate Times, que conta uma história protagonizada pelos policiais de Raccoon City nos primeiros momentos da infecção na cidade.

Além disso, claro, não vamos esquecer dos próprios remakes de Resident Evil 2 que estão sendo feitos pelos fãs. Existem diversos projetos desse tipo em andamento pelas mãos de desenvolvedores independentes que, muitas vezes, trabalham sozinhos e sem expectativa alguma de lucro. Caso eles realmente vejam a luz do dia, podem ser o ideal para que as pessoas matem as saudades do clássico, com novos visuais, ou provem que um remake do título é uma péssima ideia.

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