Análise | Trackmania tem cara de inacabado, mas quer levar franquia adiante

Por Felipe Demartini | 01 de Julho de 2020 às 10h19
Divulgação/Ubisoft Nadeo
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As corridas virtuais ganharam um caráter especial com a pandemia do novo coronavírus. Sem eventos presenciais, as grandes competições do automobilismo tiveram de recorrer ao mundo virtual para seguirem em frente, com grandes pilotos se tornando também streamers e os eSports de velocidade ganhando uma força que levaria anos para ser acumulada em circunstâncias normais. Apesar das circunstâncias tristes, a chegada de Trackmania representa (ou pelo menos tenta ser) mais uma adição a essa lógica.

O novo título, lançado apenas para PC, traz de volta o clima de competição e de encontro entre nações de Trackmania Nations, lançado originalmente em 2006 e até hoje considerado um dos melhores da franquia. Em um raro caso de nova versão feita pelos mesmos desenvolvedores do original, a Ubisoft Nadeo tenta reunir conceitos recentes de títulos focados na competitividade com aquele cheirinho de passado, com um resultado focado na comunidade que torna difícil compreender se a receita de longevidade será repetida aqui.

Afinal de contas, estamos falando em um título que tem praticamente todos os seus aspectos focados no social. Apesar de existirem modos solo, em um título de corrida que já é jogado por usuários sozinhos em sua essência, é no modo competitivo que estão os maiores atrativos de Trackmania e, também, os elementos que a Ubisoft espera ver sendo convertidos em fidelização por meio do sistema de assinaturas embutido no título.

Correndo contra a própria sombra (e a física)

Nos controles e na ambientação, Trackmania é um game de corrida quase como qualquer outro, no qual o objetivo é chegar em primeiro e ser o mais preciso possível. Entretanto, aqui, as competições acontecem no modo de tomada de tempo, com os jogadores competindo uns com os outros e também contra si mesmo, em busca da melhor volta possível pelos circuitos.

Em Trackmania, o objetivo é chegar em primeiro em competições de tomada de tempo, lidando com condições especiais de pilotagem e elementos climáticos que alteram o controle dos veículos (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

As fases são divididas em sessões, com tempo contado, como etapas classificatórias de competições comuns do automobilismo. Naquele período, o usuário tem pista livre para correr, entender o traçado ao qual não necessariamente tem acesso antecipado e, principalmente, observar os próprios erros e dificuldades, para que possa trabalhar nisso em uma nova volta.

Apesar do foco arcade e dos controles simples, Trackmania carrega muito do trabalho que é feito por pilotos reais — pelo menos, para aqueles que levarem o game a sério. Estamos falando da ideia de reconhecer a pista para saber exatamente o momento de frear, acelerar e os pontos de entrada e saída de curva para obter o melhor tempo. Para ajudar nisso, o tempo todo, é possível acompanhar “fantasmas” dos concorrentes que estão acima da tabela ou do próprio desempenho anterior.

Corridas são periódicas, com Trackmania incentivando jogadores a repetirem traçados em busca de melhorar tempos e entender onde estão errando (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O que diferencia o título de outros games de corrida mais tradicionais, entretanto, é seu aspecto de simulação, altamente focado na física e, também, nos efeitos diferentes aplicados sobre o veículo. Os controles são simples para o piloto, principalmente, como uma forma de compensar saltos, looping, elevações e outros elementos disponíveis pelo circuito, que exigem um cuidado especial no controle e direção.

Imagine as pistas de Trackmania como as de outro game também focado no controle e produzido pela Ubisoft, Trials. Por mais que a ideia seja sempre ir o mais rápido possível até a linha de chegada, quem acompanha os jogos de corrida sabe que isso não apenas envolve pisar fundo no acelerador como, também, saber quando frear. E nas pistas sinuosas do game da Ubisoft Nadeo, muitas vezes, você se verá fazendo isso em uma reta plana, afinal de contas, chegar com muita velocidade a uma rampa logo à frente poderá fazer com que você saia voando para fora do circuito.

Esse aspecto é evidenciado por diferentes condições aplicadas ao veículo durante as provas, desde os tradicionais turbos até sistemas que desligam o motor dos carros e obrigam os jogadores a seguirem um determinado trecho apenas com a força do momentum. Inversões, mudanças na dirigilbilidade e outras características especiais acompanham as próprias mudanças de terreno, com asfalto, terra e gelo exigindo diferentes técnicas de quem está ao volante.

Trackmania não permite a seleção de câmera para pilotagem, mas obriga a troca de perspectiva na passagem de um looping, em uma mudança que mais atrapalha do que ajuda (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A sensação, muitas vezes, é que esses aspectos climáticos e de efeito surgem, justamente, para apimentar um pouco as coisas, muitas vezes, de forma um tanto quanto injusta. Não dá para esperar o mesmo nível de level design de um anônimo em relação a um desenvolvedor da própria Ubisoft, então, certas punições são justificadas, ao contrário de uma estranha mudança de perspectiva na hora da passagem pelo looping ou elementos de cenário colocados claramente como uma maneira de prejudicar a volta do usuário. Entra em jogo, então, um sistema de tentativa e erro, que fará com que o jogador passe muitas vezes pelos mesmos circuitos não só como forma de melhorar o próprio tempo, mas também evitar erros fatais.

Com algumas dezenas de pistas, a temporada de verão do conteúdo oficial de Trackmania serve para levar os jogadores dos fundamentos do título até seus aspectos mais avançados, antes que eles possam embarcar nas loucuras das pistas e ligas customizadas — com a maioria desse material indisponível para os jogadores do tier gratuito. E é aí que começam os problemas.

Aberto, mas com ingressos premium

Trackmania é um game free-to-play, mas suas opções podem ser consideradas restritas demais para incentivarem jogadores a adquirirem uma assinatura (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Trackmania é um título free-to-play em sua essência, podendo ser baixado por todos com o básico de sua experiência liberada. Na medida em que o usuário se envolve, porém, estão à disposição uma série de tiers de assinaturas, em uma modalidade de monetização até conhecida dos jogos competitivos, mas com níveis de liberação de conteúdo e recursos quanto mais se paga.

Na opção gratuita, por exemplo, o jogador tem acesso limitado a uma das principais características de Trackmania, o editor de pistas, que traz longevidade praticamente eterna ao título, desde que ele invista em suas próprias criações. Um canal chamado Arcade traz competições da comunidade curadas pelos desenvolvedores, sendo renovadas de hora em hora para sempre trazer algo de novo.

Na modalidade Standard, há mais opções, como servidores de teste, editores de replay e competições diárias em pistas curadas pela equipe da Ubisoft Nadeo. O ouro, bem como a experiência completa, está na modalidade Club, que permite ao jogador não apenas criar equipes e organizar seus próprios eventos, como também participar de competições criadas por terceiros. Skins para os carros, criações de pistas e até a garantia de entrada em ligas profissionais estão entre os benefícios desse tier, com todas as opções sendo pelas assinaturas anuais.

Assinaturas de Trackmania são anuais, com direito a temporadas oficiais de conteúdo e suporte virtualmente ilimitado de pistas e competições criadas pela comunidade (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A cópia a que o Canaltech teve acesso trazia todos esses benefícios e dava acesso à experiência na íntegra. Ela, também, deixava claro que, por mais que o cerne da competição de Trackmania esteja na pilotagem e na tomada de tempo, com milésimos de segundo fazendo a diferença como em todo bom jogo de velocidade, não ter acesso a tudo o que o título tem para oferecer pode afastar, principalmente, os novatos.

O resultado da soma da jogabilidade com o aspecto comunitário e rotativo é um título desafiador, que tenta prezar a qualidade sobre a quantidade. Mas essa também é uma faca de dois gumes, que pode servir tanto como o passaporte do título para a popularidade quanto como um convite ao ostracismo por causa de decisões relacionadas à monetização.

Trackmania soa como um título criado de corpo e alma para os fãs da franquia, que dedicam longas e exaustivas horas à redução de um segundo nos próprios tempos, enquanto criam skins de carros de corrida clássicos e refazem as pistas da Fórmula 1 com as loucuras que só a franquia pode trazer. Para o restante, principalmente quem está começando agora e não sabe muito bem o que esperar, o que está do outro lado dessa porta pode não soar tão interessante.

Trackmania traz o clima de competição que tornou Nations um clássico e um suporte interessante à criação e evolução. Resta saber, apenas, se os jogadores de primeira viagem vão aderir tanto quanto a base já estabelecida de usuários (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

As pistas oficiais divertem e o conteúdo curado é inconstante, variando de competições bem fáceis para outras bastante difíceis. Ainda assim, a quantidade disponível para quem está começando não é das maiores, enquanto muitas das lógicas de Trackmania não ficam muito claras de início. Um jogador não acostumado terá dificuldades em saber, por exemplo, por que está sendo lançado para fora da pista enquanto faz tudo certo, com o estilo de tentativa e erro das competições não conversando tão bem com a tradição dos jogos de corrida.

Novamente, temos aqui um elemento dúbio, que exibe um caráter fora da curva que sempre foi a característica da franquia, ao mesmo tempo em que se torna pouco convidativo aos novatos. Como dito, a história de um jogo de serviço nunca pode ser contada apenas de acordo com as análises iniciais, e quando estamos falando de um título baseado no conteúdo e no suporte da comunidade, isso se torna ainda mais verdadeiro.

Ao trazer Trackmania de volta, a Ubisoft Nadeo acerta ao entregar um game que parece ser feito como um presente aos fãs de longa data, faltando apenas que ele seja embalado com um laço. Por outro lado, nenhuma franquia, seja ela nova ou antiga, vive apenas de sua base de fãs, e há uma necessidade de crescimento para que as propostas se tornem viáveis. Os preços são baixos, como incentivo àqueles que curtirem a proposta e decidirem investir para ter acesso a mais do que ela tem a oferecer, mas resta uma dúvida: será que o que está disponível é suficiente?

O game foi testado em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Ubisoft.

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