Análise | Surgeon Simulator 2 evolui como marca, mas peca como game

Por Wagner Wakka | 01 de Setembro de 2020 às 09h21
Divulgação/Bossa Studios

A Bossa Games Studio é uma empresa de jogos conhecida em Londres como “weird and wonderful”, o que pode ser traduzido como estranho, mas de um jeito maravilhoso. Desde o lançamento de Surgeon Simulator, em 2013, a empresa ganha os holofotes com títulos excêntricos (para não dizer esquisitos), mas com a diversão acima de tudo.

Foi o caso de I’m Bread, que convida os jogadores a controlarem uma fatia de pão tentando fugir do destino de ser comida. A mesma fórmula foi utilizada em I’m Fish, ainda em desenvolvimento para 2021, no qual se controla um peixe dentro de um aquário esférico.

Essa mistura de estranhamento com diversão é o que regeu o desenvolvimento de Surgeon Simulator 2. O Canaltech já contou o caminho da empresa para chegar a esta continuação, em entrevista com os dois brasileiros que fundaram o estúdio: Henrique Olifiers, diretor criativo; e Roberta Lucca, diretora de marketing da companhia.

A proposta era tentar não simplesmente replicar a jogabilidade de Surgeon Simulator, mas adicionar alguns elementos que pudessem justificar um game totalmente novo.

Junto disso, a Bossa ainda tinha o desafio de tentar conversar com a nova rede social dos games. Se Surgeon 1 seria ideal para produzir vídeos para o YouTube, Surgeon 2 já se volta para transmissões ao vivo e uma gameplay mais coletiva.

Partindo da premissa de que o estúdio seguiu essas duas regras para desenvolver esta continuação, é preciso dizer já de início que Surgeon Simulator 2 é um jogo com boas ideias, mas ainda muito preso às suas origens, sendo mais estranho que maravilhoso.

Na mesa de cirurgia

A continuação do título tem como tema central ainda o desafio do primeiro. Ou seja, o jogador controla um personagem em primeira pessoa, do qual só se vê a mão esquerda. Controlando este braço, é preciso buscar ferramentas como serrotes, martelos, bisturis e seringas para ser bem-sucedido no procedimento.

Como um jogo sem a mínima preocupação com a verdade, ser bem-sucedido é basicamente não deixar que seu paciente sangre até a morte. Para isso, você conta com seringas para repor o sangue ou estancar uma hemorragia, quando se tira um0 braço, por exemplo, para trocar por outro.

Até aqui, Surgeon Simulator 2 é basicamente uma descrição idêntica do 1. O ponto adicional desta continuação é que o jogo extrapola a sala de cirurgia, sendo possível andar por diferentes salas do hospital em busca de órgãos, membros e ferramentas para a cirurgia.

Isso já transforma o título mais em um game de quebra-cabeças do que de habilidade manual, como era o primeiro. Os estágios da campanha envolvem andar por um hospital maluco, cheio de salas fechadas, tendo que buscar passagens secretas e modos de se entrar em diferentes ambientes para salvar seu paciente.

Por exemplo, Bob está na maca precisando de um transplante de perna. Contudo, o serrote está na sala ao lado, cuja entrada está bloqueada. Assim, é preciso entrar por um duto de ar na parte superior, em busca da ferramenta e efetuar a “cirurgia”.

Jogo ainda se baseia na mecânica nada precisa de pegar elementos pela tela (Foto: Wagner Wakka/canaltech)

Todo este balé de buscar os elementos pelas fases e descobrir como entrar em diferentes ambientes é basicamente o ciclo de gameplay de Surgeon Simulator 2. É preciso ter em mente que o game é muito menos sobre o paciente e mais sobre o hospital.

É esta relação que traz os primeiros problemas do jogo

Pé no passado

Surgeon 1 nasceu de uma game jam. Os desenvolvedores criaram a mecânica do braço que é a base do título e fizeram modo nada preciso de realizar uma cirurgia, o que, por si só, é uma receita ideal para a bagunça. Como proposta para o primeiro, ele funcionava. Era exatamente esta dificuldade de manuseio que fazia da jogatina tão divertida e engraçada.

Contudo, agora o desafio é outro e maior. O jogador tem de explorar um ambiente do hospital, passar por dutos, buscar cartões que abrem portas, além de baterias que alimentam maquinário específico.

É preciso dizer que a mecânica de controle da mão do personagem não dá conta da demanda de todas estas funções. O ponto é que a imprecisão do controle manual logo dá espaço para a frustração de não conseguir pegar os itens sem derrubar uma mesa ou acionar uma alavanca com facilidade.

Jogo agora envolve ambientes complexos com alavancas e portas escondidas (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

Tudo bem que não é difícil executar as tarefas, mas é um desafio e tanto fazer isso com agilidade. A questão é que o jogo conta com uma pontuação no final que premia o jogador caso ele tenha terminado abaixo de um tempo estipulado.

Assim, o jogo quer que você explore um ambiente, mas convida a fazê-lo o mais rápido possível, sem que dê ferramentas boas o suficiente para que você execute isso.

Comunicação

Desde o primeiro título, a Bossa trabalha com a ideia de poucos elementos em tela, sem uma barra de energia do paciente ou algo tipo. Pelo contrário, usa o ambiente para fazer a comunicação.

O jogador precisa olhar no computador as condições do paciente. Buscar em placas na parede alguma informação que indique o caminho ou formas de acionar uma alavanca emperrada.

Jogo todo se baseia em comunicação inserida no ambiente (Foto: Wagner Wakka/canaltech)

A questão é que isso, novamente, exige tempo, para que se explore a fase, veja com cuidado os avisos nas paredes e desvende os problemas propostos. Como o game estimula que se execute tudo muito rápido, não é raro que se fique batendo cabeça porque se esqueceu de olhar um aviso simples na parede.

Multiplayer

Outra novidade de Surgeon Simulator 2 está no caráter cooperativo. Agora, o jogo conta com até quatro pessoas ao mesmo buscando todos os elementos para manter Bob vivo na maca.

Sabendo organizar direitinho, a brincadeira é bastante divertida. Uma pessoa fica estabilizando o paciente com sangue e segurando as hemorragias. Outro pode ficar responsável por abrir o paciente e retirar membros, enquanto os outros dois resolvem os quebra-cabeças das fases e trazem os órgãos e membros substitutos.

A questão é que as fases não são separadas na campanha para um ou quatro pessoas, mas feita para que funcione bem independentemente do número. Isso faz com que o desafio não seja exatamente equilibrado nem quando se joga solo, nem quando se joga em equipe.

Desta forma, é bem possível que sempre esteja alguém repetindo função ou sem nada para fazer, já que uma pessoa só é bem suficiente para resolver toda a questão.

Criação

Surgeon Simulator 2 também conta com um modo de criação de fases. Esta possibilidade poderia ser boba se não fosse o elemento online que muda toda a experiência.

O game conta com um sistema de descoberta de criações de outras pessoas, com avaliação semanal para a escolha do melhor. Assim, é possível sempre curtir algumas invenções bem interessantes sem precisar ficar se aprofundando muito nas buscas.

O ponto interessante é que os jogadores criam fases, desafios e quebra-cabeças que, muitas vezes, nada tem que ver com Surgeon Simulator.

Por exemplo, um dos modos mais populares é uma espécie de polícia e ladrão. Os quatro jogadores são divididos em duas duplas, sendo que uma delas está presa em uma sala.

Sistema permite filtrar somente melhores fases criadas pela comunidade (Foto: Wagner Wakka/Canaltech)

O time que está fora tem cinco minutos para criar obstáculos para evitar a fuga dos presidiários. Quando este tempo preliminar acaba, há outros cinco para que o time em cativeiro consiga a liberdade. Se o grupo sair da prisão, ganha. Se não conseguir até o fim do tempo, a vitória é do outro time.

Veja bem que a mecânica de criação é tão boa e complexa que se torna possível criar uma vasta fase cheia de mistérios e com diferentes narrativas, mas que não passa nem perto de ter a cirurgia de Bob como tema central.

Isso mostra que Surgeon Simulator 2 é um conjunto e boas ideias, mas que não se conversam por tentar manter ainda a essência do jogo simples que explodiu lá em 2013 e faturar em cima dele.

Qual o estado do paciente? 

Dito isso, pode parecer que Surgeon Simulator 2 não é bom jogo. Longe disso, ele traz ainda um bom nível de diversão, mas deve pregar para convertidos. Ainda, sem um desafio que realmente busque algo profundo para os quatro jogadores na sala de cirurgia, não me parece que vai ganhar os vídeos e lives, como fez o primeiro da série.

A utilização das mecânicas de Surgeon 1, expandido para uma proposta de quebra-cabeças em multiplayer, fez da sequência um fabuloso monstro de Frankenstein.

Contudo, diferente do personagem do livro inglês, o que falta a Surgeon Simulator 2 é alma e carisma, dois elementos em abundância que se via no primeiro e que foram tão cativantes nas redes sociais.

O que este game demonstra é a tentativa de explorar uma franquia que já estava muito bem explorada, transformando mais uma marca que um jogo. Comercialmente pode até dar certo, mas peca como game.

Desenvolvido pela Bossa Studios, Surgeon Simulator 2 foi lançado em 27 de agosto de 2020 somente para PC, via Epic Games Store. Esta análise foi realizada com uma cópia cedida pelos desenvolvedores.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.