Wolfenstein: Youngblood e a loucura como marca registrada

Por Felipe Demartini | 26 de Julho de 2019 às 09h38

Vivemos em um mundo que parece ficar mais doido a cada dia que passa. Sempre que acordamos e olhamos as manchetes dos jornais é uma doidice diferente para comprovar essa teoria. São histórias e situações que, muitas vezes, desafiam a compreensão e a habilidade de produtoras de entregarem um entretenimento que não apenas desafie essas barreiras da realidade, mas também divirtam e apresentem uma catarse necessária. A série Wolfenstein chama a atenção justamente por isso e também por colocar os projéteis nas testas certas.

Estamos falando de uma série que sempre foi maluca e começou, como muitos de vocês devem se lembrar, com Hitler pilotando mechas e podendo ser enfrentado como inimigo. O clássico ficou no passado, mas retornou na atual geração com belíssimos visuais e uma jogabilidade apurada, mas sem nunca perder a insanidade nem o aspecto visceral. Agora, com Wolfenstein: Youngblood, a franquia se prepara para dar um novo salto, desta vez até um mundo cooperativo.

Estamos nos anos 1980, duas décadas depois dos eventos do último game da série. As gêmeas Jessica e Sophia Blazkowicz herdaram dos pais o espírito combativo e, fazendo jus ao sangue que corre em suas veias, se unem à resistência francesa contra o Reich, um combate que já dura dezenas de anos nessa realidade alternativa em que a Alemanha Nazista venceu a Segunda Guerra Mundial. Além de lutar pela liberdade, elas ainda estão em busca do próprio B.J., que desapareceu em Paris.

A notícia de um novo Wolfenstein é sempre comemorada pelos fãs, mas a ideia de que o game da vez seria focado no modo cooperativo fez alguns narizes se torcerem. Caso você esteja entre estes que não gostaram da ideia, o produtor executivo da Machine Games, Jerk Gustafsson, já deixa avisado que você pode mudar de ideia: Youngblood, mesmo tendo sido criado para ser jogado “de dois”, também não impõe empecilho algum a quem quiser ir sozinho para o combate.

Em entrevista ao Canaltech, ele explica que a base da experiência é a narrativa, compartilhada entre Jessica e Sophia durante todo o game. “Elas sempre estarão lá para apoiar uma à outra, e se o jogador estiver sozinho, um parceiro de inteligência artificial tomará o lugar de uma das irmãs”, conta. “Nós sempre vamos fazer questão que nossos jogos possam ser aproveitados de forma individual, mesmo que pensados para a cooperação”.

Jerk Gustafsson, da Machine Games, é o produtor executivo de Wolfenstein: Youngblood (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Essa boa notícia, entretanto, trouxe consigo um desafio à parte, que muitos jogadores conhecem muito bem e é relacionado ao nível de “inteligência” da IA. Foi um desafio, segundo Gustafsson, que a desenvolvedora diz estar muito feliz de ter conseguido vencer. De acordo com ele, a parceira controlada pelo computador foi criada de forma a simular ao máximo a cooperação, mas, mais do que isso, desenhada para que nunca afete a experiência single player de forma negativa. O produtor garante: você poderá jogar sozinho se preferir, e não terá a experiência comprometida por essa escolha.

A decisão de seguir com duas protagonistas, desta vez, também fez florescer a criatividade dos desenvolvedores, que se traduziu em novas iterações de ideias características do passado dos games. Wolfenstein sempre foi reconhecida como uma marca com fortes ares retrô, renegando aspectos padronizados dos shooters atuais como as assistências irreais de mira, a munição em demasia e, principalmente, a regeneração automática de vida. Agora, as “vidas” também estão de volta.

Ao trabalhar o modo cooperativo de Youngblood, a Machine Games trouxe de volta a velha ideia de que os jogadores têm chances limitadas para vencer uma fase e não podem vacilar. Sempre que uma das irmãs é morta em combate, a dupla perde uma vida, e de forma a incentivar a exploração, chances extras podem ser encontradas pelo cenário. Caso o total chegue a zero, é game over, e você deve começar o estágio do zero.

Wolfenstein: Youngblood foi pensado como uma experiência cooperativa, mas a Machine Games promete que você não vai perder nada se jogar sozinho (Imagem: Divulgação/Bethesda)

“Na produção, sempre tentamos abraçar aquele sentimento old school. Combinamos o gunplay dos velhos shooters da id Software com um foco moderno em liberdade de movimento e escolha de estilo, e essa filosofia mais do que nunca aparece em Youngblood”, explica Gustafsson à nossa reportagem. Mais do que tudo, essa abordagem também se reflete em um outro aspecto inédito ao título que chega nesta semana: a parceria com a Arkane.

Desenvolvimento também cooperativo

Pela primeira vez, o desenvolvimento central de um título da franquia Wolfenstein é feito a “quatro mãos”, ou melhor dizendo, a centenas delas. A Machine Games se uniu à produtora de Dishonored e Prey para trazer essa nova versão à realidade e, mais do que isso, apresentar novidades aos jogadores que já se cansaram de matar nazistas nos dois jogos anteriores e estão em busca de coisas novas.

E, novamente, as benesses dessa associação se traduzem no estilo retrô bem característico da franquia. Se antes já era necessário explorar cenários em busca de itens, munição ou colecionáveis, agora, com o novo sistema de vidas e os mapas mais abertos que propiciam a ação cooperativa, tais elementos ganharam ainda mais fôlego, principalmente com a chegada de uma empresa que já é reconhecida por investir na exploração de seus ambientes.

Wolfenstein: Youngblood é parceria com a Arkane, que trouxe seu level design peculiar ao shooter da Machine Games (Imagem: Divulgação/Bethesda)

O level design, citado por Gustafsson como a “assinatura” da Arkane, vai se fazer presente de forma clara para os jogadores, mesmo com Wolfenstein: Youngblood trazendo as marcas características de um jogo da Machine Games. O maior benefício da parceria, entretanto, está na mudança de abordagem. “Exploramos novos caminhos fora de nossa zona de conforto e a oportunidade de colaborar [com a produtora de Dishonored] nos rendeu aprendizados e maneiras diferentes de pensar.”

Tais elementos se traduzem não apenas na experiência cooperativa e cadenciada de Youngblood, que também traz cenários que podem ser rejogados e explorados de maneiras diferentes, em uma experiência menos linear, mas também na brincadeira com novas tecnologias. Junto com o novo Wolfenstein principal, chega também Cyberpilot, uma experiência em realidade virtual que coloca o jogador no comando dos mechas nazistas em mais uma frente de resistência à barbárie do Reich. O resultado enche Gustafsson de orgulho, como o próprio faz questão de afirmar.

Outro elemento que merece ser enaltecido é o suporte ao Switch, com Wolfenstein: Youngblood chegando ao console da Nintendo também nesta sexta-feira, dia 26 de julho, junto com as versões PC, PlayStation 4 e Xbox One. Aqui, a parceria se dá com a Panic Button, responsável pelo port e por fazer com que as ideias malucas da Machine Games se encaixem no hardware.

Afinal de contas, estamos falando de uma empresa que sempre investe em elementos na tela, cenários enormes e cheios de detalhes, tiroteio insano e gráficos de ponta, características que demandam bastante da CPU e da GPU. O produtor ainda afirma que, ao contrário da tônica da indústria, sempre prefere lançamentos simultâneos desse tipo, de forma que todos os jogadores possam ter acesso às experiências ao mesmo tempo.

Por isso mesmo ele não deixa de tecer elogios à Panic Button, responsável pelo port, e diz que ela fez um trabalho impressionante: “Nossa busca pelos limites com certeza não tornou as coisas fáceis [para eles], mas [a desenvolvedora] sempre nos surpreendeu com o trabalho”.

Laser sim, campo de força não

Longe dos obstáculos de hardware, das parcerias que promovem exploração de cenários e novas maneiras de se jogar Wolfenstein está o que, para muita gente, é o centro de interesse na franquia como um todo. A curiosidade por esse mundo tão diferente do nosso, com um passado alternativo em que absolutamente tudo é novo, mesmo que antigo, leva massas a cada nova iteração, principalmente agora que saímos dos anos 1960, dos dois primeiros títulos, e avançamos 20 anos no futuro.

“Apesar de termos as nossas maluquices, Youngblood é nosso jogo mais ‘pé no chão’ até hoje”, revelou Gustafsson ao Canaltech, contrariando a ideia de que, com duas décadas de inovação tecnológica, estaríamos diante de um universo bem diferente. Muito pelo contrário, explica ele, o respeito à linha do tempo e à verossimilhança desse mundo é fundamental para Wolfenstein, e os produtores fazem questão de se aterem a tudo isso sempre que começam a trabalhar em uma nova iteração desse universo.

Versão Switch de Wolfenstein: Youngblood está sendo desenvolvida pela Panic Button e chega também nesta sexta, 26 de julho (Imagem: Divulgação/Bethesda)

Isso envolve um trabalho de imaginação, afinal estamos em uma realidade alternativa, mas também de pesquisa, que se resume à anedota que abre este trecho. A Machine Games se permite levar os jogadores à Lua, mas tenta manter os pés no chão de forma que os avanços da tecnologia nazista não interfiram na trama ou tornem a história irreal. “Fomos à Vênus, por exemplo, mas tomamos o cuidado de não tornar tudo fantasioso demais. Permitimos lasers, mas não campos de força, pois isso seria ir longe demais, mesmo no universo de Wolfenstein.”

Essa abordagem que traz o enredo como rei também se reflete na abordagem a temas polêmicos. A Machine Games nunca exibiu uma preocupação quanto à política que envolve seus games; muito pelo contrário, ela sempre fez questão de indicar claramente quem é o inimigo e dar aos jogadores a metralhadora pesada para que eles completem o serviço. Uma postura, segundo Gustafsson, totalmente apoiada por sua empresa mãe, a Bethesda.

“Às vezes ficamos surpresos com o fato de nos deixarem fazer tudo o que queremos”, conta o produtor executivo à nossa reportagem. “Eles acreditam em nós e depositam muita confiança em nossas decisões criativas, isso faz parte da maneira com a qual eles trabalham. Desde sempre, nos sentimos apoiados em nosso trabalho.”

Wolfenstein: Youngblood une conceitos dos shooters do passado com movimentação e gunplay modernos (Imagem: Divulgação/Bethesda)

Isso se reflete, também, em uma política de não interferência nos títulos em desenvolvimento. Gustafsson não cita casos em que a Bethesda pediu um abrandamento em determinadas posturas, mas conta que isso aconteceu, sim, mas por iniciativa da própria Machine Games, mas não por motivos políticos, e sim devido à dificuldade de encaixar uma ideia na história que seria contada na franquia.

“Em New Colossus, B.J. partiria em uma missão para assassinar o presidente dos Estados Unidos, sob o comando nazista”, relembra. “Foi uma ideia inicial que acabou sendo descartada antes mesmo de escrevermos o roteiro final do jogo, pois ela não fazia muito sentido para a história.”

Gustafsson também se esquiva quando o assunto são os rumos de Wolfenstein daqui em diante. Se Youngblood saltou 20 anos no futuro, o que impediria a Machine Games de avançar mais duas décadas e entregar um título contemporâneo, que trouxesse o domínio nazista de forma mais aproximada possível à nossa realidade atual? Ou, então, seguir ainda mais e ir ao futuro, já que a guerra parece jamais acabar?

O produtor executivo afirma que não existe nenhum plano para isso no momento, mas retorna à ideia de que a série possui uma cronologia bem estabelecida, o que faz com que nada disso seja impossível. “Nossa linha do tempo vai bem além dos nossos tempos atuais, então, quem sabe?”, finaliza ele, deixando a gente sonhar.

Wolfenstein: Youngblood chega em 26 de julho ao PC, PlayStation 4, Xbox One e Switch.

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