Entrevista | Bertrand Chaverot fala sobre os 20 anos da Ubisoft no Brasil

Por Felipe Ribeiro | 22 de Julho de 2019 às 12h58
Felipe Ribeiro/ Canaltech
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Quem olha para o trabalho da Ubisoft no Brasil nos dias de hoje não precisa de muito tempo para perceber que a publisher é uma das empresas do setor de games que melhor se encaixou em nosso país. Com um trabalho de marketing e comunicação absolutamente consolidado, bons números nas vendas e conteúdo recheado de "brasilidade", a gigante francesa é um case de sucesso por aqui. E o principal responsável por isso tem nome e sobrenome: Bertrand Chaverot.

O diretor da Ubisoft para a América Latina é um dos personagens mais carismáticos e bem-sucedidos do mercado de games do Brasil — e, por que não, mundial. A decisão de trazer a publisher oficialmente para o país foi dele, e isso explica muito o porquê de a empresa conseguir ter uma relação tão intimista e qualificada com sua comunidade por aqui.

O executivo recebeu o Canaltech no QG da Ubisoft em São Paulo e contou um pouco da trajetória da empresa por aqui e os planos para o futuro, que são muitos.

Decisão pessoal

"A decisão de trazer a Ubisoft para o Brasil foi minha. Já havia conhecido o Brasil anos antes e, em 1999, apenas três países grandes sob o ponto de vista dos negócios ainda não tinham uma filial nossa: Argentina, Austrália e Brasil. Pela proximidade cultural e por ser um mercado maior do que esses dois, a escolha natural foi o Brasil", comentou Chaverot.

O ano de 1999 não foi dos melhores em termos de games para a Ubisoft, mas trouxe títulos de franquias importantes e que sobrevivem até hoje. Os lançamentos mais relevantes daquela época foram Rayman 2: The Great Escape, para Nintendo 64, Dreamcast e PC, e Tom Clancy's Rainbow Six: Rogue Spear, segundo game da franquia Rainbow Six, que fora lançado exclusivamente para PC (depois portado para outras plataformas) e que já trazia a fórmula do multiplayer online que hoje é sucesso estrondoso mundialmente.

Rayman 2 foi um dos lançamentos da Ubisoft em 1999, ano em que a empresa chegou ao Brasil (Imagem: Ubisoft)

Além do desafio natural de uma imigração, Chaverot teve de montar a estrutura do zero e com pouca verba. Para quem não se lembra, o ano de 1999 foi o subsequente ao da crise da Rússia, o que deixou a economia brasileira e mundial bem combalida. Mas nem isso impediu que o francês, de certo modo, empreendesse e fosse criativo. De início, Chaverot contratou dois profissionais para iniciar sua jornada por aqui, com muito foco nas divulgações via imprensa, já que, como citamos, a grana era curta.

Bertrand Chaverot, em sua sala, na Ubisoft Brasil (Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech)

"Nós tínhamos pouca verba para investir no marketing. Então tudo, ou quase tudo, era feito por meio da imprensa, na TV, rádio, jornais, já que não tínhamos as redes sociais ou o YouTube. Passada a burocracia de se instalar no Brasil, de fato, a divulgação foi nosso maior desafio", revelou Chaverot.

Hoje, a empresa conta com canal de YouTube e perfis em todas as redes sociais, com conteúdo 100% brasileiro e o gerenciamento de comunidade totalmente consolidado. Para situar ainda mais nossos leitores, o canal da publisher no YouTube é o maior de uma empresa privada dentro do território nacional, superando marcas como Coca-Cola, McDonald's e outras.

Ser uma empresa "brasileira"

Depois de instalada, a Ubisoft passou a trabalhar não apenas com localização física, mas também cultural. A ideia de Chaverot, apaixonado pelo Brasil, foi de construir uma empresa brasileira, com conteúdo focado aqui e estratégias comerciais pensadas para o nosso país. Isso pode ser visto hoje de maneira muito latente, com a Ubi tendo uma gama completa de canais e produtos pensados para a comunidade brasileira, bem como ações comerciais assertivas.

"Nós queríamos ser a Ubisoft Brasil. Sempre tivemos parceiros brasileiros, conteúdo brasileiro, estratégia brasileira. No começo, usávamos os trailers oficiais de fora, mas dublávamos e adaptávamos para o público daqui. Hoje, até DLCs temos. Então, temos esse conteúdo bem intimista e localizado", afirmou, lembrando da atualização para Rainbow Six Siege que trouxe operadores e mapas inspirados no Bope, o batalhão de elite da Polícia Militar do Rio de Janeiro. "A Ubisoft foi uma das poucas empresas que sempre apostou no Brasil, com essa vontade de ser local, da casa", completou o executivo.

Segundo Chaverot, o crescimento da Ubisoft no Brasil também se deve muito aos jogos, e de maneira muito orgânica. Por mais que a comunicação e o conteúdo tenham ajudado, games como o próprio Rainbow Six Siege, Assassin's Creed e, claro, Just Dance são referências mundiais em termos de desempenho por aqui.

"Com Rainbow Six, somos o quarto país do mundo em termos de jogadores e o primeiro em audiência nos campeonatos. Somos considerados, também, o país do Just Dance, tanto que a matriz nos confiou a organização da quinta edição da Copa do Mundo de Just Dance. Isso sem falar em Assassin's Creed, que fez enorme sucesso não apenas com os jogos, mas com os livros, quadrinhos, filme, roupas e produtos em geral", revelou Chaverot. Ele também cita The Division, Far Cry e Ghost Recon, franquias que também se dão muito bem por aqui.

Com todas essas credenciais, seria natural que a matriz, na França, tivesse um olhar atento ao Brasil. Segundo Chaverot, nossos mercados (França e Brasil) são similares e diferentes ao mesmo tempo. Similares porque os títulos que mais funcionam aqui são os mesmos que têm sucesso lá, mas diferentes porque o marketing precisa ser bem modificado para atender o público. "Eles [Ubisoft matriz] confiam muito à Ubisoft Brasil para criar estratégias eficientes e únicas. Tanto que outros países estão olhando para cá para copiar nossos métodos", revelou.

Games como mídia e o futuro

Desde 2012 a Ubisoft adotou uma estratégia mais agressiva de produção de conteúdo aqui no Brasil. Graças, também, às parcerias com empresas como Gomídia (hoje GMD) e Paramaker, quem é da comunidade sabe que a publisher trata muito bem seus fãs e seguidores. De acordo com Chaverot, novos caminhos serão tomados nessa linha, com acordos e inclusões de mais empresas e conteúdos ainda mais relevantes para a comunidade local.

"Temos pensado muito no investimento em mais eventos. Hoje já estamos presentes na Game XP, Brasil Game Show, Comic Con e com campeonatos como a Pro League e o Just Dance Tour. O futuro é o mercado enxergar os jogos como uma mídia e seguiremos essa toada", avaliou Chaverot.

Estande da Ubisoft na CCXP 2018/ Imagem: Felipe Ribeiro/Canaltech

Apesar das dificuldades tributárias e econômicas, Chaverot aposta muito no mercado brasileiro. A Ubisoft Brasil possui grande autonomia na precificação de jogos, por exemplo, e o executivo garante que a empresa seguirá fazendo promoções e lançamentos diferenciados para o nosso mercado. "Temos que apostar no Brasil, ser confiantes e ter resiliência. Já passamos por muita crises, mas nunca deixamos de acreditar", ponderou.

Chaverot, que hoje é cidadão brasileiro, faz questão de sempre ressaltar seu amor pelo Brasil, e isso pode ser percebido com pouco tempo de conversa com o executivo, que também é um dos mais carismáticos e respeitados dentro da indústria. "Quando colocamos um pouco mais de carinho, as coisas podem andar melhor. Por isso seguiremos trabalhando para continuar trazendo os melhores conteúdos e colocando o Brasil em posição privilegiada no mercado", afirma.

Apesar dos problemas e das indas e vindas, a comunidade gamer do Brasil tem um carinho especial pela Ubisoft. Evidente que o trabalho com os jogos é o que norteia essa relação, mas, com um trabalho bem feito por seus funcionários e com o comando de Chaverot, dá pra dizer que foram 20 anos felizes.

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