Bully Hunters | Grupo de combate ao assédio nos games é acusado de fraude

Por Felipe Demartini | 17 de Abril de 2018 às 09h47

As coisas se movem de maneira extremamente veloz na internet e, com o passar de apenas alguns dias, ideias nobres podem se transformar no exato oposto. Foi o que aconteceu com o Bully Hunters, um grupo de jogadoras de Counter-Strike: Global Offensive dedicado a combater o abuso online. Uma grande causa que, rapidamente, se provou não exatamente tão positiva assim.

Anunciado na semana passada, o grupo reuniria jogadoras habilidosas de CS:GO para proteger outros usuários. A ideia é que as vítimas de assédio procurassem o site da organização e indicassem a identidade dos responsáveis pelos xingamentos ou perseguição. De forma imediata, uma das especialistas se uniria à partida e caçaria o agressor, matando-o sucessivamente e deixando mensagens contra a violência online no processo.

Uma transmissão foi realizada na última quinta-feira (12), com a revelação formal da iniciativa e uma demonstração de seu funcionamento. Em dois momentos, caçadoras são chamadas para partidas online a partir de um site dedicado à iniciativa, tudo ao vivo e intercalado com discussões e dados sobre assédio e violência contra mulheres. Foi justamente aí, entretanto, que os problemas começaram.

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Antes mesmo da realização do streaming, a pesquisadora de saúde mental Platinum Paragon, reconhecida por suas análises sobre o mercado de games, desaconselhou seus seguidores a assistirem a transmissão de anúncio do Bully Hunters. Ela afirmava que uma das responsáveis pela iniciativa, a streamer Nati Casanova, estaria divulgando dados falsos sobre assédio e violência online para promover sua causa.

Uma das principais alegações para a existência do grupo era a informação de que mais de três milhões de mulheres teriam sido afastadas dos jogos online por conta de assédio direcionado ou não. Paragon, entretanto, afirmava não ser capaz de encontrar o estudo original com tal número – nem mesmo Casanova indicou o caminho das pedras a ele. O primeiro indício de falsidade começou a ser apontado aí, com a especialista afirmando que uma pesquisa deste tamanho deveria ter resultados encontrados facilmente na internet.

A informação concreta foi revelada durante o streaming de anúncio do Bully Hunters – o dado referente às três milhões de mulheres, na verdade, foi obtido a partir de um estudo de 2012, no qual 874 participantes americanas foram consultadas em uma pesquisa online. Desse total, 84 teriam se sentido “pouco bem-vindas” em jogos online, um número que foi extrapolado para soar como representante do mercado como um todo, mas que, em termos numéricos, passa longe de indicar tal magnitude.

Rapidamente, a iniciativa caiu sob o escrutínio pesado da comunidade online, que chegou a uma conclusão veloz: o objetivo por trás de tudo isso, aparentemente, seria o ganho financeiro. Junto com o lançamento da iniciativa e de seu site oficial, veio a notícia de que o apoio ao grupo poderia ser feito por meio da compra de um fone de ouvido fabricado pela SteelSeries, em uma edição especial com o logo das Bully Hunters. O dinheiro iria diretamente para fundações de apoio a jogadores vítimas de assédio, sem que um único nome fosse citado, porém.

Um palco (nem tão) elaborado

A exibição feita durante o próprio anúncio também sugeria que tudo não passava de uma fraude. Nas imagens, uma jogadora intitulada apenas como “therosethorn” pedia ajuda à organização, recebendo o auxílio de uma caçadora cujo nick era “Bully_Hunter_77”. Qual não foi a surpresa quando, em uma análise online, se descobriu que ambas utilizavam a mesma conta na Steam.

Outros indícios apontavam ainda mais que tudo não passou de uma armação. As imagens, com baixa qualidade e taxa de quadros por segundo, traziam sons antigos das armas de Counter-Strike: Global Offensive, alguns não utilizados há mais de um ano. Nas duas situações, a voz do assediador soava como a mesma, enquanto mapas diferentes eram exibidos na tela da vítima e da caçadora. Ainda, chamou a atenção o fato de que, no modo mostrado, não é possível para um jogador entrar no meio da partida ou escutar o que adversários estão falando.

A eficácia da iniciativa também foi colocada à prova. Afinal, o que aconteceria se o servidor estivesse lotado ou executando um modo em que não é possível se conectar a um jogo em andamento? Como a caçadora agiria diretamente contra o bully sem morrer para outros jogadores encontrados no caminho até ele? De que maneira ser morto uma única vez, algo comum em Counter-Strike: Global Offensive mesmo para jogadores experientes, ensinaria uma lição ao assediador?

As acusações logo começaram a se acumular no chat da própria transmissão, no Twitch, o que teria levado o streaming a ser encerrado antes do previsto, após cerca de meia hora de discussões e caçadas. O perfil original do Bully Hunters também foi retirado do ar, mas, claro, o estrago já estava feito e as imagens se proliferaram pela internet.

Rapidamente, os olhos se voltaram para a SteelSeries, com acusações de que a empresa estaria por trás de uma campanha de marketing não tão elaborada assim para vender seus fones de ouvido. Além disso, as apresentadoras Tien Tran e Nati Casanova também foram apontadas como centro de uma tentativa de promoção dos próprios nomes e canais em cima da causa de combate ao assédio. Uma delas, inclusive, exibiu uma foto do roteiro da apresentação, afirmando, ao contrário de divulgações oficiais e também do que foi citado na própria transmissão, que a ideia não era soar como se os eventos estivesse acontecendo ao vivo.

Todo o caso assumiu ainda mais a cara de golpe de marketing quando a responsabilidade sobre a iniciativa foi atribuída à FCB Chicago, uma agência de marketing que. Em texto divulgado logo após a conclusão da transmissão, também são citadas as associações Diverse Gaming Coalition e National Coalition for Women, que seriam as beneficiadas pelas vendas dos fones de ouvido da SteelSeries.

Retirada em massa

A própria fabricante de fones, porém, foi uma das primeiras a abandonar o navio com a detonação da polêmica. No último sábado (14), a empresa emitiu comunicado oficial afirmando que, apesar do apoio à iniciativa de luta contra o bullying em jogos online, não esteve envolvida de maneira alguma na organização e execução da campanha Bully Hunters.

A empresa também negou ter contratado agências de publicidade e marketing para a realização de ações desse tipo e afirmou não possuir o nível de envolvimento na causa que a própria Bully Hunters estava ventilando. Muito pelo contrário, a fabricante admitiu uma falta de análise sobre o que, exatamente, estava apoiando e pediu desculpas aos fãs pelo ocorrido.

Postura semelhante foi adotada pela CyberPowerPC, fabricante de computadores gamers que também apoiou a iniciativa. Por meio de um representante, a empresa afirmou que o acordo feito com a iniciativa era “completamente diferente”, indicando que a proposta foi diferente da execução. Situação semelhante foi exposta pela fabricante de cadeiras Vertagear, que afirmou que a proposta da campanha não apenas deixava de refletir a realidade, como era “oposta” ao que foi exibido online.

Uma das beneficiadas pela campanha, a Diverse Gaming Coalition, também veio à público afirmar que a iniciativa vai contra sua missão e postura como organização sem fins lucrativos. Em comunicado, a instituição disse acreditar nas intenções benéficas e de promoção de bem-estar social da campanha, mas criticou a abordagem utilizada, que, de acordo com o texto, “não foi das melhores”.

Casanova, pelo Twitter, negou ter participado da organização da iniciativa, apontando que seu papel nela era de “apresentadora e consultora”. Além disso, sobre a divulgação de dados falsos, ela disse ter agido com base naquilo que os responsáveis pela iniciativa teriam passado a ela, preferindo não ir adiante quando questionada previamente sobre o assunto por não possuir as fontes usadas para divulgação nem a expertise necessária para tratar sobre o tema.

Entretanto, em uma transmissão ao vivo, que, segundo ela, serve como sua última palavra sobre o assunto, a streamer afirmou que a SteelSeries estava mais envolvida na campanha do que alega, tendo sido, inclusive, a responsável por selecioná-la para apresentar a transmissão ao vivo. O trabalho estaria ocorrendo de forma direta entre a marca e campanha pelo menos desde outubro do ano passado.

Ainda no campo das informações não confirmadas, o locutor de e-Sports Richard Lewis, um dos tantos criadores de conteúdo investigando o caso, afirmou que a SteelSeries estaria estudando uma ação legal contra a FCB por danos à sua marca e, principalmente, pela citação da empresa como uma das responsáveis pela iniciativa, quando, na realidade, ela agia apenas como patrocinadora e apoiadora oficial.

A agência de publicidade, até o momento de publicação desta reportagem, não havia se pronunciado oficialmente sobre a questão. Segundo Lewis, um comunicado deve ser emitido, com a companhia assumindo total responsabilidade sobre a iniciativa.

Enquanto isso, para todos os efeitos, o grupo chegou ao fim. O site oficial do Bully Hunters foi fechado, bem como contas associadas à campanha no Twitch e outras redes sociais. Permanece a boa ideia, apesar de impossível de ser aplicada na prática, além do gosto amargo da provável utilização de um drama real para fins de marketing, promoção pessoal e ganho financeiro.

Fonte: Platinum ParagonMedia PostDexertoNati Casanova (Twitter), Richard Lewis (Twitter)

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