Victor Vran: uma união simples que vai fritar seus dedos [Análise]

Por Felipe Demartini

Olhando rapidamente, Victor Vran se parece muito com diversos outros títulos já disponíveis para PC e consoles. Assumindo uma perspectiva semelhante à encontrada em Diablo e com um enredo de cidade sitiada parecido com o que já vimos em tantos outros títulos, a aventura lançada em 2015 para computadores e que chegou neste ano aos consoles não soa como uma oferta chamativa.

Por baixo da aparência de “mais do mesmo”, entretanto, está um título interessante, que usa dinâmicas já amplamente conhecidas para entregar uma aventura ao mesmo tempo simples e divertida, que manterá o jogador ligado por tempo equivalente a seu amor pelo gênero. Victor Vran é, em sua essência, um RPG de ação, na definição mais básica desse segmento.

Na trama, seguimos o personagem que dá nome ao título em uma busca por um companheiro caçador desaparecido em uma cidade completamente tomada por monstros. Vran esconde um segredo – após um pacto demoníaco que lhe deu poderes sobrenaturais, ele se tornou o último defensor dos mortais. Essa união de habilidade em combate com forças ocultas o tornou um guerreiro renomado e, ao mesmo tempo, meio amargurado.

Ao chegar na cidade de Zagoravia, onde o caos está imperando, ele parece disposto a simplesmente cuidar dos próprios negócios. No caminho para encontrar seu parceiro, entretanto, ele acaba enfrentando um exército de monstros e se envolvendo com a resistência local, tornando-se um valoroso combatente na libertação do local e na última resistência dos mortais contra as forças do mal.

O enredo é contado de forma simples, com desenhos feitos à mão e poucas animações. Os personagens, sempre vistos à distância, ganham forma durante os diálogos, mas não existem cutscenes. Aos moldes dos RPGs antigos, também, Victor Vran aposta na combinação de artes e frases gravadas.

O que não significa que o conjunto artístico é fraco. O game apresenta uma arte gótica interessante e cenários amplos e variados. A trilha sonora é simples, mas competente, e acompanha as cenas de ação de forma permanente, sem ser inundada pelos efeitos sonoros dos combates.

Ainda sobre o som, vale a pena destacar os diálogos entre Vran e a “Voz”, um personagem sem corpo que acompanha o protagonista e é responsável pelo alívio cômico. O cinismo chama a atenção, assim como as eventuais quebras de quarta parede e referências a outros títulos, algo incomum em RPGs desse tipo. Destaque ainda para a atuação de Doug Cockle, que interpreta o protagonista e é velho conhecido dos fãs de The Witcher, pela voz do protagonista Geralt de Rívia.

Apenas um pretexto para dilacerar

A trama, entretanto, é apenas uma desculpa para ambientar o jogador. Na maior parte do tempo, entretanto, estaremos seguindo do ponto A ao ponto B, enfrentando uma horda de oponentes pelo caminho. Os pontos da história servem apenas como direcionamento, enquanto os verdadeiros objetivos de Victor Vran se relacionam diretamente ao gameplay.

Ao longo do game, você estará bem mais preocupado em executar um determinado número de inimigos ou adquirir proficiência em uma arma específica do que no caminho até seu destino. Também porque essa rota não é linear – só se você quiser que seja – e os ambientes normalmente são ramificados, escondendo itens, subchefes e oponentes que contribuirão para que as missões sejam completadas.

Ao chegar ao destino, entretanto, você sempre será ordenado a seguir para outro lugar, mesmo que não de forma clara. Existem momentos, inclusive, em que Vran chegará a um local em busca de seu companheiro apenas para descobrir que ele não está lá. Ele, então, segue para outro, onde o amigo possa estar. Sem mais nem menos. O parceiro não está no ponto A, então quem sabe esteja no B. Simples assim.

Enquanto isso, em sua jornada, os inimigos vão aumentando em quantidade e dificuldade, na mesma medida em que o caçador encontra novas e mais potentes armas para encarar o desafio. Subir de nível garante cartas de habilidades, enquanto equipamentos garantem poderes diferenciados. Cada oponente é vulnerável a um tipo específico de ataque, e com o tempo, o jogador vai aprendendo a lidar com cada um deles.

Caso prefira, porém, pode optar por um estilo padronizado mais adequado à própria jogabilidade e encarar todos os desafios com ele. É claro, ignorar as vulnerabilidades de cada oponente torna tudo um pouco mais difícil. Cabe a cada um pesar se vale mais a pena seguir assim ou perder algum tempo analisando armas e atributos para encontrar o melhor balanço para cada situação.

Muitas vezes, até, o usuário nem mesmo terá tempo para fazer isso. É comum ver a tela sendo completamente tomada de criaturas, magias e poderes especiais, com registros de ataques e outros multiplicadores aparecendo o tempo todo na imagem. Se ficar desatento, o jogador pode se encontrar cercado, e por mais que seja incrivelmente superior à maioria dos monstros comuns, acabará se vendo em maus lençóis se vacilar.

Toda essa ação acontece de forma extremamente simples, e, na maioria do tempo, o jogador estará apertando um único botão sem parar. Felizmente, a desenvolvedora Haemimont Games também notou isso e permite que ele seja segurado para uma torrente sem fim de ataques. Cada arma tem mais dois golpes especiais e é possível, ainda, usar o poder sobrenatural de Vran para desferir dano.

E é basicamente isso. Com um sistema simples de botões e foco quase completo na jogabilidade, o título acaba se transformando em uma monotonia. Há pouca estratégia envolvida, e ela não existe nem mesmo na hora de desferir os especiais, por mais que o game tente fazer com que se pareça assim. O cooldown das magias é curto e, muitas vezes, basta se afastar por alguns segundos para que ela se regenere completamente e possa ser usada de novo.

Alguns problemas menores permeiam a experiência. A câmera pode ser controlada pelo jogador, mas o mapa não acompanha sua orientação, fazendo com que encontrar o caminho seja uma tarefa que exige rodar em círculos. O inventário também tem um funcionamento esquisito, preferindo o analógico para movimentação entre blocos, enquanto o direcional do joystick (naturalmente usado pelos jogadores em menus) realiza um travamento de equipamentos para reorganização – algo que nem mesmo faz sentido, levando em conta que todos ocupam o mesmo espaço.

Além disso, vale a pena citar que o backtracking meio sem sentido imposto pelo game, muitas vezes, acaba resultando em longas áreas sem nada para fazer. Caso o jogador seja minucioso e explore todas as áreas de um cenário na primeira vez que passar por lá – algo facilitado por indicadores no mapa, que mostram o caminho percorrido –, não encontrará mais inimigos nem itens no local, tornando o inevitável retorno bastante enfadonho.

Vai de cada jogador encontrar o valor de Victor Vran. Os fãs do estilo encontrarão aqui um título simples e despretensioso, com uma ação na medida, gigantesca quantidade de inimigos para combater e amplo espaço para grinding. O fator replay existe pela união de todos os DLCs, na versão de consoles, e modos mais difíceis, como um em que a morte do personagem é permanente.

Enquanto isso, quem busca algo mais, seja em termos narrativos ou uma variação em relação a tudo aquilo que é padrão no gênero, pode se frustrar. O título da Haemimont Games é competente e faz o serviço a que se propôs, mas não vai além em momento algum. Sua simplicidade fica clara logo de início e perdura até o fim. Aqui está seu maior ponto positivo e também a maior deficiência, enxergadas como tal de acordo com o perfil de cada um.

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