Análise | Silver Chains traz experiência curta, impactante e aterrorizante

Por Felipe Demartini | 14 de Agosto de 2019 às 13h14

Se no passado era o Survival Horror ou a mistura com a ação, hoje o estilo walking simulator é uma das grandes vedetes dos jogos de terror. Nomes como Slender, Five Nights at Freddy’s ou Outlast ajudaram a pegada a cair no gosto do público, enquanto Resident Evil 7 ou o saudoso P.T. ajudaram a elevar a barra e mostrar que jogos assim podem ser mais do que apenas uma sucessão de correria e jump scares.

Silver Chains bebe dessa fonte com sede considerável, mas também faz ótimo uso da hidratação proporcionada por ela. O jogo da Cracked Heads Games, em seu primeiro jogo sob a liderança da Headup Games, é quase como o velho ditado dos adolescentes, sendo bom o bastante e durando pouco, mas o suficiente para se tornar marcante.

Em cerca de duas horas de duração, o que o jogador verá é um show de referências a grandes nomes não só do videogame de horror, mas também do cinema. O monstro que dá tom a toda a história nos remete diretamente a Mama, enquanto a obsessão por portas é um dos tantos acenos a Resident Evil. O uso do som é apurado e os visuais, como dito, são de primeira qualidade.

Nada mais justo para um game que nos coloca em uma mansão abandonada e pede que a gente explore tudo até encontrar o caminho. Cada cômodo tem sua cara própria, mas, mais do que isso, ajuda a contar a história do que aconteceu naquele local, juntamente com os arquivos de texto que vão compondo a trama do passado e da maldição que é o ponto central da história de Silver Chains.

Silver Chains se apoia em referências e até usa clichês do terror, mas também usa essa zona de conforto para surpreender e assustar o jogador (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

É um clichê, sim, mas assim como você, a desenvolvedora também sabe disso, e, acima de tudo, utiliza essa zona de conforto a seu favor e contra o usuário. Isso significa que elementos que podem parecer solidificados em pedra nem sempre são, ou podem deixar de ser, enquanto outros nem sempre entregam aquilo que antecipam. Até mesmo os jogadores de sangue mais frio poderão se assustar com os jump scares nem sempre óbvios de Silver Chains.

Da mesma forma, no enredo ao mesmo tempo aterrorizante e instigante, o caminho óbvio não funciona. Por mais que o título seja linear, no sentido em que há sempre apenas um objetivo a ser completado, algo que depõe contra uma exploração aparentemente livre dos cenários, dá para notar que, com isso, a Cracked Heads Games opta por dar foco à história. A sensação é de que estamos sendo levados pela mão, sim, mas que isso não apenas é um elemento de jogabilidade como também parte da trama.

Jogabilidade de Silver Chains é linear, com um item ou enigma por vez. Isso permitiu foco na história e ambientação em detrimento da exploração (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Pode soar frustrante a ideia de que, mesmo quando temos mais de um item para coletar para resolver um enigma, ainda assim temos que seguir uma ordem determinada de coleta. A jogabilidade de Silver Chains consiste em encontrar a chave que abre a porta que contém o item a ser usado em um puzzle, que vai liberar mais uma peça e assim por diante. Quem tiver o olho vivo vai sempre saber para onde ir enquanto as peças desse quebra-cabeça vão sendo entregues uma a uma, e sempre na ordem.

Há pouca margem de manobra e as engrenagens internas de Silver Chains estão bem expostas, algo que, novamente, serve para dar ao jogador uma falsa sensação de conforto. Agir como se já tivesse visto tudo aquilo, porém, não é a melhor abordagem e, se o título não te causar pelo menos um frio na barriga mesmo quando tudo parece estar caminhando dentro dos conformes, é porque você provavelmente está morto por dentro.

Gráficos ultrarrealistas convidam o jogador a explorar (e se assustar) com cada cantinho da mansão de Silver Chains (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A sensação de opressão aparece pelo ótimo trabalho de iluminação e edição de som, com o jogador sempre sentindo que algo está esperando para pular da próxima esquina. A questão, aqui, nunca é “se” o susto virá, mas sim “quando”, e por mais que esteja esperando, muitas vezes você não será capaz de prever em meio a uma atmosfera de tensão intensa, com a cabeça sempre trabalhando.

Não vamos entregar spoilers, obviamente, mas Silver Chains ainda conta com um segmento curto, mas suficiente para ser memorável, que vai deixar o jogador com um embrulho no estômago. É mais um daqueles dilemas de quanto estamos envolvidos com a história e sabemos o que é necessário para seguir em frente, ao mesmo tempo em que não queremos fazer isso. Não é algo novo nem inovador, principalmente para quem está acostumado com os títulos do gênero, mas ainda assim marcante.

Jump scares de Silver Chains nem sempre são óbvios e o game ainda apresenta uma boa cota de momentos perturbadores (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Para estes mesmos jogadores contumazes de títulos de terror, Silver Chains também serve como um respiro para uma abordagem que, muitas vezes, parece saturada. Assim como no cinema, quando um estilo começa a fazer sucesso ou cai na boca do povo, surgem diversos “clones” e reimaginações, alguns fazendo jus às origens, outros nem tanto.

O título da Cracked Heads, felizmente, se encaixa no primeiro exemplo, aproveitando o que há de melhor dos maiores e dos menores, dos ótimos e dos nem tão bons assim, para criar um pacote próprio e cheio de personalidade. Mesmo sem a grandiosidade, a ambição e, claro, o financiamento de seus pares, Silver Chains mostra a que veio e, como no cinema, comprova que altíssimos valores de produção nem mesmo são necessários quando se sabe entregar terror de qualidade.

Silver Chains foi testado no PC, em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Headup Games.

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