Análise | Portabilidade e falhas marcam Resident Evil 4, Zero e Remake no Switch

Por Felipe Demartini | 28 de Maio de 2019 às 14h03

Existe uma piada recorrente no mundo gamer de que todo e qualquer dispositivo, em algum momento, vai ganhar uma versão de Resident Evil 4. Esse é um exagero, claro, mas bem próximo da verdade quando se leva em conta que, desde o lançamento original do jogo, em 2005, apenas duas plataformas não tiveram suas versões: o primeiro Xbox e o Wii U. No restante, é onipresente e, mais do que isso, sempre faz a alegria da Capcom nas vendas.

Afinal de contas, estamos falando não apenas de um dos jogos mais importantes de todos os tempos, mas também de um dos mais populares de uma série que, por si só, já é bastante amada. Detentor de diversos prêmios de jogo do ano, um divisor de águas para a própria franquia e precursor de um estilo de jogabilidade até hoje usado, não é à toa que ele está presente em tudo. Mas faltava uma edição completa e que pudesse ser levada para qualquer lugar.

Não falta mais, já que, neste fim de maio de 2019, a Capcom trouxe Resident Evil 4 ao Switch, juntamente com RE Zero e o remake do primeiro jogo da franquia. Demos mais destaque ao jogo protagonizado por Leon pois ele é, justamente, o destaque dessa coletânea de relançamentos e também aquele que parece ter recebido a maior atenção em termos de otimização.

De maneira geral, Resident Evil 4 aparece no Switch em uma edição semelhante à vista há poucos anos no PlayStation 4 e Xbox One. O relançamento tornou ainda mais bonita a remasterização original do título, de 2011, e levou o clássico a seu ápice, com uma contagem de 60 frames por segundo que tornou a ação mais fluida do que jamais foi. Dá para dizer que, agora, chegamos ao limite do que é possível fazer com ele e o resultado é, como sempre, belo e muito interessante.

No Switch, redução na resolução de Resident Evil 4 permitiu manter contagem em 60 fps (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

De forma a manter essa performance, a Capcom se viu obrigada a retrabalhar outros aspectos, que serão notados pelos olhos mais atentos. No Switch, Resident Evil 4 roda a uma resolução de 900p na doca, que liga o console à TV, e 600p no modo portátil. Nesse último caso, isso é mais do que suficiente para preencher a tela e, mais do que isso, esconder algumas texturas em baixa resolução que insistiam em aparecer mesmo no PS4 e Xbox One. Estamos falando de um jogo de 2005, afinal de contas, que vem sendo apenas remasterizado em vez de refeito.

E assim como nos consoles da concorrência, a versão Switch é um testamento do quanto, mesmo lá atrás, esse título era grandioso. Ele permanece sendo um ótimo jogo, mesmo quando observado sem os óculos da nostalgia, com uma ação na medida e uma jogabilidade perfeita, mesmo nos Joycons nem sempre precisos do videogame da Nintendo. Mesmo na telinha, não há o que reclamar em termos de usabilidade, com nenhum problema para atingir até mesmo os alvos mais distantes.

No Switch, Resident Evil 4 também chega em sua versão completa, com direito à campanha extra de Ada, roupas para Leon e Ashley e a galeria de vídeos que dá acesso direto às cutscenes — algumas não remasterizadas, uma herança maldita dos tempos de PS2 que a Capcom insiste em alimentar nestes relançamentos. As cenas dos capítulos protagonizados pela espiã de vestido vermelho continuam merecendo receber um trabalho melhor, mas não foi desta vez.

Além de deixar de fora os controles de movimento, versão Switch de Resident Evil 4 também mantém a baixa resolução em cutscenes criadas originalmente para o PS2 (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Com o relançamento, a Capcom também perde a chance de reunir o melhor dos dois mundos e acaba por decepcionar os fãs. Resident Evil 4 não faz uso dos controles de movimento do Switch e, com isso, deixa de contar com uma camada extra que o tornaria, efetivamente, a versão definitiva do game, recuperando um aspecto da edição Wii, até hoje considerada entre a comunidade como uma das melhores já lançadas para o jogo.

A possiblidade de carregar Resident Evil 4 por aí, porém, acaba sendo a maior novidade aqui, e o game também parece se sair muito bem quando o jogador procura jogatinas rápidas e segmentadas. Há uma abundância de pontos de save, caso o uso do modo de repouso do console não seja desejável, e eles não afetam o progresso do game, permitindo que, agora e finalmente, você possa controlar Leon na fila do banco, na hora do almoço e dentro do avião. A vontade de muitos fãs agora se tornou real e, só por isso, a versão já merece atenção.

No passado, o inimigo é outro

Houve um tempo em que Resident Evil 4 era exclusivo do GameCube, o console de 128-bits da Nintendo. Coincidentemente ou não, são os outros dois games que fizeram parte desse infame (para alguns) contrato que o acompanham nesse retorno ao Nintendo Switch. O remake do primeiro Resident Evil e sua prequência, RE Zero, também aparecem em mais um relançamento.

O remake do primeiro Resident Evil aparece belo como sempre no Switch (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Aqui, cabe uma anedota interessante. Os dois games, agora, são populares e estão ao alcance de todos, após um comemorado relançamento cross-gen para a antiga e atual geração de consoles. Nem sempre foi assim, entretanto, e por mais de 10 anos somente donos de consoles da Nintendo tiveram acesso a eles, já que, depois da versão original, uma nova edição, sem adições além de novos esquemas de controle, chegou ao Wii.

O relançamento para o Switch, entretanto, também segue as bases do PS4 e Xbox One, com direito até mesmo ao lançamento de uma edição física meio capenga. A Resident Evil Origins Collection, como é chamada, traz Zero no cartucho e um código digital para download do remake, uma escolha inusitada que a Capcom já havia tomado antes com o retorno dos Revelations ao console. Esse, entretanto, acaba sendo o menor dos problemas.

Não que os clássicos rodem mal no Switch, muito pelo contrário. A mansão da Umbrella, cheia de zumbis, monstros e enigmas, aparece vistosa como sempre, com direito aos efeitos externos e detalhes no ambiente para aumentar a imersão. O game sempre rodou a 30 frames por segundo por uma decisão de design e, por conta disso, a Capcom não precisou mexer na resolução, o que faz com que as imagens, tanto na doca quanto na televisão, sejam belas do jeito que todos os fãs se acostumaram a ver.

DLCs e roupas extras também estão presentes em todos os relançamentos de Resident Evil para o Switch (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Entretanto, as versões têm um engasgo perceptível que transparece na transição entre uma sala e outra. Desde seus primórdios, a série Resident Evil utilizou animações de portas abrindo ou personagens subindo escada para mascarar o clássico aviso de “now loading”, com o qual os jogadores ainda se acostumavam nos idos do primeiro PlayStation. Sempre deu certo, mas o Switch é o primeiro console em que as animações são menores do que o tempo necessário para carregar a próxima sala.

No remake do primeiro jogo da série, é possível perceber que o console está fazendo um esforço extra na passagem para ambientes com mais detalhes ou elementos, como o hall principal da mansão. É algo perceptível, mas que não chega a incomodar nem tomar tempo demais.

A história é outra, entretanto, quando falamos de Resident Evil Zero. No game, alguns loadings chegam a levar mais de 20 segundos, enquanto praticamente todos levam mais tempo do que deveriam, tornando a experiência enfadonha. Em seu primeiro segmento, Rebecca e Billy estão em um trem, com ambientes curtos e muita transição entre salas, o que faz com que os jogadores passem mais tempo olhando para telas de carregamento do que para o jogo em si.

De todos, Resident Evil Zero é o que mais sofre, com problemas de otimização gerando grandes loadings na versão Switch (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

São falhas que depõem contra um resultado geralmente brilhante, uma vez que as remasterizações dos dois jogos de 2002 tornaram todo o pacote ainda mais bonito do que sempre foram, algo que parecia impossível. Mesmo hoje, existem poucos jogos tão artisticamente inspirados quando Resident Evil Zero e o remake do primeiro título da série de horror, com cenários pré-renderizados que se tornaram um marco por motivos que ficam claros só de olhar qualquer imagem de divulgação.

No Switch, as aventuras de Chris, Jill, Rebecca e Billy aparecem, ainda, com todos os DLCs e extras lançados no PS4 e Xbox One, como as roupas extras, modos adicionais presentes desde 2002 e galerias que dão acesso direito às cutscenes que, ao contrário do que vemos em Resident Evil 4, receberam certo tratamento para serem menos agressivas aos olhos, mesmo ainda rodando em baixa resolução.

Games clássicos de Resident Evil têm filtros que suavizam as cenas de corte, que não aparecem cheias de pixels no Switch (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Quando se passa a régua e fecha a conta, o grande diferencial dos relançamentos de Resident Evil acaba sendo, mesmo, a portabilidade. E esse é um grande fator a ser levado em conta e que, facilmente, ajuda a escolher entre passar ou não o cartão de crédito. Quem sempre quis levar os títulos consigo para qualquer lugar, agora pode fazer isso com os games completos, apesar de problemáticos em alguns aspectos.

Entretanto, para quem encara o Switch mais como um console de mesa do que um portátil, existem poréns, principalmente caso o jogador também tenha um Xbox One ou PS4 na estante. Nestes consoles, Resident Evil 4, Zero e Remake não apenas rodam melhor, mas também são mais baratos, além de estarem disponíveis em edições físicas tradicionais, fazendo a alegria, também, dos colecionistas. Versão, agora, é o que não falta, bastando cada um escolher a que melhor se encaixa no bolso e nas perspectivas.

Resident Evil 4, Resident Evil Remake e Resident Evil Zero foram testados em cópias digitais gentilmente cedidas ao Canaltech pela Capcom.

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