Need for Speed: Payback ainda não é o que os fãs queriam, mas consegue divertir

Por Sérgio Oliveira | 12 de Dezembro de 2017 às 13h33

Por anos a Electronic Arts nos ofereceu doses anuais de Need for Speed, lançando nada mais que 15 jogos da série entre 2002 e 2013. Depois daquele ano, a produtora resolveu pisar no freio para tentar renovar uma fórmula que já não funcionava tão bem assim. Diante de pedidos populares para retornar às origens, desde 2015, quando lançou Need for Speed, a EA tenta resgatar os tempos áureos da série, e Need for Speed: Payback é mais um capítulo dessa saga.

Payback bebe muito da fonte de seu antecessor, com pilotos especialistas em tipos específicos de carro fazendo parte da sua equipe e competições divididas por categorias como drift, circuito, off-roadarrancada e fuga. Porém, o jogo vai além e também recorre ao passado numa tentativa de recuperar o brilhantismo e prestígio de outrora.

Isso fica claro, por exemplo, com as perseguições policiais insanas, com direito a apoio aéreo e explosões que deixariam Michael Bay orgulhoso, que nos fazem lembrar de Most Wanted. As corridas de arrancada, com carros empinando na largada e cortando o asfalto em linha reta, também estão de volta. O plot, por sua vez, nos remete não só aos clássicos Underground, como também aos primeiros filmes de Velozes e Furiosos.

Historinha piegas

Controlamos Tyler Morgan, o melhor piloto de Fortune Valley, uma reprodução quase fiel de Las Vegas, com cassinos e luzes de neon por todo o lado. Ao invés de se profissionalizar, ele decide que é melhor ganhar a vida em corridas ilegais e contrabandeando itens valiosos para A Casa, um cartel que controla as ruas da cidade. Tudo corre bem até que Ty, como é conhecido, é traído por Lina Navarro, uma das cabeças do esquema. Entregue à própria sorte, ele se esconde e arquiteta um plano perfeito de vingança com seus amigos Mac, Jess e Rav.

Com esse pano de fundo, todas as missões de Need for Speed: Payback são um passo adiante no plano de Tyler para derrubar A Casa e Navarro. Para tanto, ele e sua equipe têm de enfrentar outros grupos de corredores, derrotando e os convencendo a se unir à causa para que, dessa forma, todos possam voltar a correr em paz em Fortune Valley.

Você terá de competir com outras
Você terá de competir com outras "gangues" para ganhar respeito nas ruas e apoio à sua causa (Captura de tela: Sergio Oliveira)

É piegas? Sim! É clichê? Sem dúvidas. Mas vamos combinar que a história nunca foi o forte de Need for Speed. Talvez a única vez que houve um grande esforço da EA nesse sentido foi com NFS The Run, e o resultado foi desastroso. Levando isso em consideração, então Payback sai em vantagem por ter um plot minimamente aceitável e que não compromete a experiência do jogador.

Pisa fundo e vai

Falando em experiência, Need for Speed: Payback cumpre muito bem o papel a que se propõe: colocar o jogador dentro de um carro e deixá-lo pisar fundo. O game não tem absolutamente nenhuma pretensão de ser um simulador, embora traga consigo uma qualidade técnica que até mesmo alguns jogos que se rotulam como tal não apresentam.

A modelagem dos veículos é respeitável, com todos os carros devidamente detalhados e latarias que reluzem à luz do sol ou do neon à noite. As possibilidades de personalização são infinitas, com uma galeria com criações da comunidade para aqueles que não têm lá tanta criatividade nem tempo para criar suas próprias. Também chama a atenção o bom trabalho de captação sonora por parte da Ghost Games, desenvolvedora do título. Além do roncado característico dos motores de cada máquina, em algumas delas é possível até mesmo ouvir o som das engrenagens do câmbio sendo trocado – experimente correr com um American Muscle.

Cutscenes são dignas de filmes de ação dirigidos por Michael Bay
Cutscenes são dignas de filmes de ação dirigidos por Michael Bay (Captura de tela: Sergio Oliveira)

O mapa também salta aos olhos. Além de ser muito extenso – uma sensação a que somos apresentados principalmente nas primeiras missões, quando temos de nos deslocar entre pontos distantes pela falta de grana para usar a “viagem rápida” –, ele tem cenários variados e esconde centenas de objetivos secundários que proporcionam horas e mais horas de exploração. Sem ter o que fazer a gente não fica.

A jogabilidade tem a qualidade de sempre, seguindo a tradição da série. Pilotar os carros é fácil o suficiente para não espantar quem quer experimentar o game, mas ao mesmo tempo desafiador para quem quer destrinchá-lo à fundo.

Enfim, tudo o que há de bom em Need for Speed está em Payback, e o jogo funciona muito bem. Pelo menos até apresentar como equipamos nossos carros com novos motores, suspensão e afins...

Evolução truncada e frustrante

Se o jogador sente a sensação de liberdade e velocidade por poder sair correndo por toda Fortune Valley, o mesmo não pode ser dito quando o assunto é equipar o carro. Diferentemente do que acontece em outros jogos de corrida, até mesmo os arcades, em que escolhemos e pagamos pelas partes que queremos usar para equipar nossos carros, em Need for Speed: Payback tudo é na base da sorte.

Contrariando o bom senso, a EA achou que seria uma boa ideia implementar as famigeradas loot boxes como a única forma de evoluir no jogo. Aqui, tudo funciona na base das speed cards, que você ganha ao término das corridas e vira para descobrir que item tem direito a atualizar no carango. Pode ser que você ganhe uma carta realmente útil, pode ser que não. Depende da sorte.

As speed cards são as loot boxes de Payback. Todo o progresso do game é apoiado nelas, e você terá de contar com a sorte para sair do canto
As speed cards são as loot boxes de Payback. Todo o progresso do game é apoiado nelas, e você terá de contar com a sorte para sair do canto (Captura de tela: Sergio Oliveira)

A mesma mecânica vale para caso o jogador decida recorrer a uma das várias lojas de peças espalhadas pelo mapa. Ironicamente, elas não vendem peças, mas cartas, e você não pode comprá-las livremente: são oferecidas opções limitadas, que podem não atender as suas necessidades. Quando isso acontece, o que é mais comum do que você imagina, a única saída é esperar o estoque renovar – o que demora dez minutos. Se na próxima rodada vai vir algo útil, ninguém sabe. Depende da sorte.

O efeito colateral disso é que a evolução em Need for Speed: Payback é lenta, truncada e, por vezes, frustrante – totalmente o oposto daquilo que o gameplay oferece. A insatisfação aumenta à medida que avançamos e temos de encarar desafios mais complicados com carros mais potentes para competir em alto nível. Sem as cartas necessárias, comemos poeira e não avançamos na história. Presos nesse sistema viciado, o jeito é ficar rodando em círculos esperando o estoque das lojas ser renovado. Mas, de novo, tudo depende da sorte.

Bom ou ruim? Você quem diz

Se tudo isso irrita ou passa batido, depende muito da maneira que cada jogador encara Need for Speed: Payback. Apesar de os fãs da série pedirem há anos que a EA adapte a fórmula que popularizou a série com Underground e Most Wanted, a empresa continua, por algum motivo, tentando reinventar a roda. O resultado não é ruim, mas está longe daquilo que os jogadores idealizam para o título.

Por causa disso, a palavra de ordem para curtir Payback adequadamente é “cautela”. Quem inicia o jogo esperando por algo extraordinário, revolucionário ou algo do tipo, certamente vai quebrar a cara. Muito embora a proposta da EA seja exatamente essa com os dois últimos NFS, ela ainda não chegou lá e o que temos aqui é apenas mais do mesmo.

NFS Payback diverte apesar de suas limitações. Se ele é bom ou ruim, é a forma como cada um o encara que vai dizer
NFS Payback diverte apesar de suas limitações. Se ele é bom ou ruim, é a forma como cada um o encara que vai dizer (Captura de tela: Sergio Oliveira)

Agora se você não está nem aí para isso e está procurando por uma desculpa para acelerar sem compromisso, relaxar com o joystick na mão e explorar um mapa gigantesco por horas a fio, Need for Speed: Payback pode ser exatamente o que você procura.

Need for Speed: Payback está disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC. No Canaltech, ele foi analisado no Xbox One com cópia digital cedida gentilmente pela Electronic Arts.

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