Análise | No Switch, Metro Redux preserva o essencial e continua assustando

Por Felipe Demartini | 11 de Março de 2020 às 09h20

A notícia de que um título da geração atual vai receber versão para Nintendo Switch é sempre um misto de emoções. De um lado, fãs comemoram a disponibilidade do game em forma portátil, juntamente com aqueles que nunca jogaram e, agora, terão a oportunidade no console; porém, há sempre o fantasma das adaptações gráficas e dos problemas de desempenho que, muitas vezes, não são bem trabalhados e resultam em um port aquém do esperado. Uma armadilha na qual a aventura apocalíptica de Metro Redux não caiu.

Talvez pelo fato de o port ter sido feito pela desenvolvedora dos originais, a 4A Games, as versões impressionam. Não estamos diante do belo resultado visto no PlayStation 4 e Xbox One, claro, onde os títulos de Survival Horror em primeira pessoa brilharam por sua qualidade inerente, mas o que temos é, sim, uma versão bastante competente e que, de certo modo, se assemelha aos lançamentos originais na geração anterior.

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Metro 2033 e Last Light chegaram, respectivamente, em 2010 e 2013 ao PS3, Xbox 360 e PC, recebendo remasterizações em 2014 para os videogames da atual geração. A versão que chega agora ao Switch seria essa segunda, mas com os visuais das primeiras, uma soma que acaba resultando em uma das melhores conversões já vistas para o console da Nintendo.

As diferenças gráficas podem ser percebidas principalmente no primeiro game, quando rodado no modo portátil. Fica claro o trabalho realizado pela produtora no equilíbrio entre qualidade de imagem e performance, com uma clara preferência pela segunda. Afinal de contas, é mais importante, para um FPS, que ele rode bem, sem quedas na taxa de frames ou lentidões perceptíveis, e isso é garantido em Metro 2033, mesmo que os gráficos não sejam os melhores ou a espera durante os loadings seja um pouco longa.

Apesar de trazer todo o conteúdo da remasterização Redux, Metro 2033 e Last Light, no Switch, têm conjunto visual semelhante ao dos lançamentos originais para a geração anterior de consoles (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Com isso, vieram claras reduções no conjunto visual, principalmente no que toca à resolução, com serrilhados perceptíveis e alguns elementos que parecem destacados do restante do conjunto. Além disso, o game parece ter um “embaçamento” visual perceptível quando se olha à distância, provavelmente fruto de um sistema de otimização que privilegia o que está perto e visível aos olhos do jogador em detrimento do que está mais distante.

Mas nem sempre isso acontece, e às vezes a produtora parece saber dar um olhar apurado ao que mais importa. Vistos de perto, modelos de armas podem parecer feios e serrilhados enquanto os cenários, em si, são mais bonitos, afinal de contas são eles que importam. Monstros à distância, principalmente nos ataques com maior quantidade deles, também podem parecer um amontoado de pixels, que vão ganhando forma e dentes sanguinários na medida em que se aproximam.

Não são concessões que prejudicam a ambientação do título, algo elogiado desde o primeiro e um aspecto no qual a 4A Games aposta mais a cada nova versão. Metro 2033 não seria nada sem a claustrofobia de seus cenários, os diálogos paralelos que contam a história do mundo devastado e os diferentes elementos decrépitos dos túneis que se tornaram o refúgio do que restou da humanidade após detonações nucleares. E tais elementos aparecem aqui de forma consistente, ainda que, como dito, em uma resolução menor.

Ao portar Metro 2033 para o Switch, desenvolvedora teve que encontrar um novo equilíbrio entre qualidade de imagem e desempenho, dando mais importância para o segundo aspecto, mas sem deixar o game feio (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A fidelidade da iluminação, por exemplo, não é exatamente a mesma das versões para os outros consoles, mas a dependência das lanternas em um ambiente de breu total continua sendo um dos fatores de tensão absoluta, assim como os ambientes de meia-luz que levam ao uso da furtividade em um mundo onde a munição é escassa. Túneis piscam com os disparos e o áudio, com bons fones de ouvido, é cristalino e direcional, também preservando outro aspecto do horror criado pela desenvolvedora.

Desde os detalhes dessa ambientação até os elementos que influenciam na jogabilidade, como a condensação que dificulta a visão das áreas externas quando usando máscara, nada ficou de fora. Pelo contrário, as versões não apenas incluem tudo isso como o faz com o máximo de qualidade que o Switch é capaz de oferecer; quem jogou os originais, claro, perceberá a diferença, enquanto quem está chegando agora não perderá quase nada com a escolha desse port para sua primeira experiência.

Evolução e sobrevivência

Vale a pena dedicar um espaço para enaltecer a 4A Games, que ao longo do desenvolvimento de Metro 2033 passou por quase tudo, incluindo desenvolvedores trabalhando em mesas de plástico em um estúdio que enfrentava quedas de energia constantes e problemas de aquecimento durante o inverno, além de problemas políticos fruto de uma situação instável na Ucrânia, seu país-natal. Isso, claro, sem falar na falência de sua distribuidora original, a THQ, e da troca de mãos dos direitos do game, que atrasaram o lançamento em mais de um ano.

Evolução técnica da 4A Games entre Metro 2033 e Metro Last Light também se reflete na diferença de qualidade gráfica dos dois ports para o Nintendo Switch (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

São aspectos que, novamente, se refletem nos lançamentos da empresa e que ficam claros quando se joga os dois títulos da coletânea Metro Redux em sequência. Da mesma forma que o patamar técnico apresentou significativa melhoria entre o lançamento de 2033 e Last Light, a quantidade de balanceamento necessário para fazer com que o segundo game rodasse melhor no Switch também parece significativamente menor, fruto de uma engine otimizada e desenvolvedores mais experientes.

Mesmo no modo portátil, o segundo game soa muito mais bonito e fluido que seu antecessor. Os serrilhados não são tão proeminentes e a iluminação torna a ambientação ainda mais envolvente, juntamente com os elementos de terror e a história que amplia o universo, apresentando novos bandos e um pouco mais do mundo fora do núcleo central de sobreviventes.

Quando são colocados na doca, os dois jogos apresentam melhorias principalmente em resolução, enquanto a performance em si permanece semelhante. É como se o poder adicional do dispositivo fornecesse o combustível necessário para melhorar aquilo que, nas mãos do jogador, foi reduzido ao essencial, tornando Metro Redux ainda mais interessante e dando ainda mais destaques aos elementos mais fortes da experiência.

Adaptações gráficas foram necessárias, mas a 4A Games conseguiu manter o clima soturno de Metro Redux, junto com os aspectos de iluminação e ambientação opressora (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Estamos falando de um game em que desperdiçar munição não é a melhor ideia, e aqui os analógicos do Switch podem acabar deixando um pouco a desejar, principalmente quando se joga no modo portátil. A escuridão dos cenários e a telinha pequena, aliados a esse aspecto, podem, prejudicar, mas o port conta com uma mira persistente, que pode ser ativada ou não na interface, e muda de cor quando mirando um inimigo ou aliado, de forma a dar um sinal visual aos jogadores que gostam de economizar e podem encontrar dificuldades nisso.

Quem desejar, claro, pode desligar todo e qualquer auxílio visual e ainda ativar os modos de dificuldade ou sobrevivência aprimorada, exclusividade das versões Redux. Dá para desativar toda a interface de usuário ou então apostar nos auxílios, elementos que agora ganham uma importância adicional por não apenas permitirem customizar a experiência como também adaptar à forma escolhida pelo usuário para jogar no Switch.

Acima de tudo, um dos aspectos mais celebrados da 4A Games permanece mais vivo do que nunca. Desde sempre, a empresa chamou a atenção pelo patamar técnico e pela complexidade visual entregue por sua engine proprietária, capaz de sugar o máximo de recursos dos PCs mais poderosos para entregar um resultado impressionante. Com este lançamento, ela também mostra sua versatilidade.

Metro Redux traz os dois games da franquia no mesmo cartucho. Mesmo com o segundo sendo superior, é melhor jogar na ordem, pois eles são uma sequência direta um do outro (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Vale a pena citar ainda o fato de a 4A Games ter feito com que controles de movimento funcionassem na versão. Claro, esta não é a melhor forma de jogar um FPS tão visceral e focado na economia de recursos, mas apresenta um adicional para os fãs desse tipo de usabilidade, sem que ela sirva apenas como aquele elemento que é testado e deixado de lado em prol da jogatina tradicional.

Aquele que foi considerado como o “port impossível” por alguns veículos de imprensa antes de seu lançamento ainda apresenta os dois jogos em um mesmo cartucho, driblando as limitações de espaço da mídia física do Switch e escapando da necessidade de downloads adicionais. Mais um exemplo de que um trabalho minucioso, e que merece ser celebrado, foi realizado aqui.

A versão mostra porque Metro Redux reúne alguns dos FPSs mais queridos da atualidade, com um poderoso terceiro jogo lançado para PCs, PS4 e Xbox One em 2019. É a porta de entrada que os jogadores precisavam para um mundo cada vez mais em expansão. Acima de tudo, entra para a lista de exemplos de como se faz um bom port de um game clássico para o Nintendo Switch, uma lição que muitas empresas ainda parecem estar aprendendo.

Metro Redux foi testado em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Deep Silver.

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