Análise | Gears Tactics traz o equilíbrio entre estratégia e violência

Por Felipe Demartini | 27 de Abril de 2020 às 10h00
Reprodução/Felipe Demartini

Brucutus gigantescos e fortemente armados, que enfrentam monstros igualmente bombados em uma guerra sem fim, usando uma metralhadora com serra elétrica acoplada como arma mais característica. A descrição mais básica possível da série Gears of War é como a de um bom filme de ação, curto, grosso e sem massagem quando o assunto é o combate, com o aspecto ameaçador já ficando claro assim que se bate o olho no estilo visual do jogo. Pensar antes de atirar pode não parecer o mote aqui, mas quem jogou sabe que isso é essencial.

É claro, estamos falando de um título de tiroteio, mas que tem no cerne da troca de balas a jogabilidade baseada em coberturas, com o personagem protegido atrás do cenário o tempo todo. Saber mirar e acertar os oponentes em cheio é tão importante quanto encontrar um bom lugar para se esconder do revide inimigo. Usar flancos, explosivos, habilidades especiais e entender a movimentação do oponente ajuda os soldados a contrair a vitória, e aqui, já nos aproximamos de uma jogabilidade um pouco mais estratégica.

É dessa união que nasce Gears Tactics. Além da série clássica da lista de exclusivos do Xbox, temos todos os ares de uma outra franquia aqui, XCOM, um dos bastiões da estratégia em turnos. Uma mistura que pode parecer esquisita, mas só para quem tem um conhecimento superficial das duas franquias; na prática, essa salada funciona muito bem, obrigado, e os fãs das duas marcas se sentirão muito à vontade por aqui.

De murinho em murinho

É claro, a balança pende mais para um lado do que para o outro. Se na série Gears of War uma boa saraivada de balas pode resolver um vacilo, saber se posicionar no cenário é essencial em Tactics. Estamos em um mapa que funciona como um tabuleiro, no qual o usuário tem um determinado número de jogadas. Movimentar-se, atirar, usar itens de cura, recarregar a arma ou ativar habilidades especiais gastam as chamadas “ações”, e uma vez que o jogador termina sua rodada, é a vez do inimigo fazer o mesmo.

Gears Tactics ainda carrega consigo o principal elemento da franquia, unindo o tiroteio, a violência e o avanço rápido de tropas com a jogabilidade reconhecida e estratégica da franquia XCOM (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Na maior parte do game, o oponente assume uma postura reativa, agindo de acordo com o que os personagens centrais fazem, o que é bom e também ruim. De um lado, uma boa estratégia pode levar essa postura em conta para criar fintas ou colocar os inimigos Locust em uma enrascada. Por outro lado, ao cometer erros, você vai acabar assistindo sua equipe ser atacada e, possivelmente, dizimada pelas criaturas, que são tão implacáveis e violentos quanto os próprios soldados, além de possuírem características próprias que exigem abordagens diferentes.

O mesmo, claro, também vale para os Gears, e aqui, já temos um fator que diferencia Tactics de XCOM. No game da 2K, os protagonistas possuem classes e características especiais e únicas; entretanto, é possível alterar tais elementos para criar um esquadrão com maior afinidade ao estilo do jogador. O novo game não permite isso e os soldados não podem ter suas especializações modificadas — um sniper sempre será um sniper e um soldado amante das escopetas jamais vai encostar em uma metralhadora. As árvores de habilidades permitem certo nível de customização e até podem ser resetadas usando itens especiais, permitindo algum direcionamento, ainda que dentro de um cercadinho.

Gears Tactics diferencia seus personagens centrais, que levam a história adiante, das tropas "comuns" encaradas como bucha de canhão até nos gráficos, não tão bonitos quanto os dos Heróis (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

O game incentiva essa abordagem variada ao apresentar missões com certos critérios, que exigem a presença de certos protagonistas e bane outros. Gears Tactics também tem uma característica especial, devido a seu foco, também, no enredo — existem heróis, que são os personagens que levam a narrativa adiante, e as tropas comuns, soldados gerados aleatoriamente que também podem agir e possuem as mesmas características especiais.

A sensação de que as tropas servem apenas como complementos ao time de heróis aparece no conjunto gráfico. De maneira geral, os visuais de Gears Tactics não deixam a dever em relação aos games da série principal, por mais que seja possível perceber uma certa repetição de elementos, principalmente em missões secundárias. Ao perceber a clara diferença na aparência dos heróis em relação a seus subalternos, entretanto, o jogador saberá imediatamente quem é descartável ou não.

Porta aberta na porrada

Gears Tactics traz uma história pregressa à série principal, usada como mais uma maneira de introduzir novatos à guerra sem fim do exclusivo para Xbox (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A semelhança entre Gears Tactics e XCOM não é renegada, muito pelo contrário, faz parte do coração do título, que não esconde suas influências nem a intenção de se apoiar no que há de melhor entre os jogos de estratégia para entregar um produto próprio. Nesse sentido, existe uma clara intenção da desenvolvedora Splash Damage de tornar o título não apenas algo diferente, na franquia e no gênero, como fugir do aspecto punitivo de sua principal inspiração.

Os soldados não morrem de imediato ao fim da barra de energia e podem ser revividos por companheiros desde que não sofram um novo ataque em seu estado de rendição, digamos assim. Por um lado, isso gera um sentimento de urgência, enquanto a trama faz com que o jogador crie laços com os soldados, que não são mera bucha de canhão; por outro, a exigência pode travar a jogabilidade um bocado, além de exigir, muitas vezes, que missões sejam reiniciadas enquanto os erros do passado seguem reverberando.

Combates contra chefes de fase gigantes obrigam o jogador a pensar fora da caixa e são um dos diferenciais de Gears Tactics (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

As decisões difíceis que eram tomadas em XCOM, por exemplo, não aparecem aqui, com o questionamento sobre o sacrifício de um soldado poderoso para que outros três possam completar a missão se tornando praticamente inexistente. Pelo contrário, a morte (ou desmaio) de um pode muito bem servir para que os outros completem a missão, com uma cutscene agraciando o jogador mesmo diante da tragédia, com o título seguindo como se nada tivesse acontecido.

Isso é perceptível, principalmente, nas batalhas contra chefes de fase, um dos principais destaques e diferenciais de Gears Tactics em relação a outros jogos do gênero. Os monstros gigantes e devastadores aparecem aqui de forma tão ameaçadora quanto nos games principais e obrigam o jogador a pensar fora da caixa, assumindo abordagens diferentes daquelas que vinham sendo utilizadas com maestria contra os oponentes normais.

A sensação de urgência destes momentos acompanha o mundo sempre devastado e decrépito de toda a franquia. A escolha por uma história que se passa antes dos jogos originais, apesar de ter bastante relação com o game mais recente, é outro aspecto desenhado com foco claro: trazer os fãs do Gears tradicional para essa abordagem diferente e, também, levar os fãs da estratégia que nunca experimentaram a franquia de ação a seus games principais.

A interface de Gears Tactics é extremamente poluída, apresentando informações repetidas e obrigando o jogador a treinar o olhar para não se confundir (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Isso também explica porque a Splash Damage decidiu adotar, sem cerimônia, o que há de melhor no estilo. A desenvolvedora dá alguns tropeços aqui e ali, principalmente quando se fala na interface, bastante poluída e com diversos elementos repetidos em pontos diferentes da tela. Os controles funcionam, mas exigem certo costume, principalmente diante de decisões questionáveis como a de pressionar o scroll do mouse para girar a câmera ou, novamente, a presença de diferentes botões para fazer a mesma coisa no layout com joystick, o que pode acabar levando a ações realizadas por engano.

O mote central da franquia, porém, não só permanece como aparece aqui de forma brilhante. Gears of War sempre foi sobre seguir em frente pelos cenários e a jogabilidade rápida de Tactics permite exatamente isso, com a mão pesada dos soldados descendo sobre os oponentes na mesma medida em que o jogador aprende a utilizar habilidades e evolui seus personagens, que vão se tornando mais fortes e preparados na mesma medida em que as ameaças aumentam.

Gears Tactics acerta em quase todos os aspectos da mistura entre estratégia e violência, sendo ao mesmo tempo um grande exemplar de sua franquia e um belo filhote de XCOM (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

As missões mais divertidas acabam sendo, justamente, aquelas em que é preciso avançar de forma estratégica por um terreno, e sabendo usar as características especiais de cada soldado, é possível multiplicar o número de ações e não dar chances aos oponentes. Realizar execuções é um deleite visual, enquanto o ódio flui sempre que um Gear dos mais experientes erra o tiro contra um oponente a poucos metros de distância. Nem tudo, claro, pode ser perfeito, e aqui, somos colocados na posição de mandar atirar, em vez de fazer isso diretamente.

Independente da missão que a Splash Damage desejava cumprir, ela conseguiu com louvor, seja trazer novos jogadores para a franquia (já que experimentar Tactics faz ter vontade de jogar os originais) ou entregar uma visão diferente deste mundo para os que já são aficionados por ele, sem que suas características originais sejam perdidas. Um grande Gears, sem dúvida nenhuma, e também um dos grandes nomes da estratégia. Um filho do qual o pai XCOM pode se orgulhar.

Gears Tactics foi analisado no PC com cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Microsoft.

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