Análise | Fear Effect Sedna é o retorno sem propósito de um clássico esquecido

O auge do primeiro PlayStation, entre o final dos anos 1990 e início dos 2000, é também a ascensão do Survival Horror, um estilo que, até hoje, deixa saudades. Com franquias como Resident Evil e Silent Hill já estabelecidas, muitas desenvolvedoras tentaram adotar a mesma jogabilidade e estilo a outros gêneros. Foi o que a Kronos Interactive fez com Fear Effect, lançado em 1999.

O título trouxe uma mistura de misticismo e tecnologia, com enredo passado em um futuro não tão distante, mas grande foco em fábulas do passado. Os jogadores enfrentavam soldados humanos e criaturas satânicas no velho estilo tanque, em um game que foi um dos precursores dos gráficos cel shading e trazia um foco adulto que, na época, era inusitado. Apesar do olhar hiperssexualixado sobre a protagonista Hana, ter uma personagem homossexual era novidade em uma época na qual games ainda eram vistos como coisa de criança.

A franquia, entretanto, nasceu e morreu no primeiro PlayStation, e foram quase 20 anos até que ela retornasse à vida. Por meio de seu programa de fomento à produção independente de jogos, a Square Enix recrutou a desenvolvedora Sushee Games para criar Fear Effect Sedna e trazer a série de volta à vida. Se depender desse primeiro passo, entretanto, teria sido melhor se ela continuasse no ostracismo.

Participe do nosso GRUPO CANALTECH DE DESCONTOS do Whatsapp e do Facebook e garanta sempre o menor preço em suas compras de produtos de tecnologia.

Erro primordial

O que parecia como uma boa ideia, durante o processo de desenvolvimento e divulgação, se provou o maior erro de Fear Effect Sedna. Como dito, estamos falando de um game que nasceu e cresceu no auge do Survival Horror, mas, aqui, a jogabilidade tradicional do estilo foi substituída por uma visão isométrica, que dá ares de jogo de estratégia ao título.

São apenas ares mesmo, pois, na prática, o que temos é uma jogabilidade lenta e desinteressante. Até mesmo elementos padrões desse tipo de título, como as habilidades exclusivas de cada personagem ou um posicionamento inteligente pelo cenário, são deixados de lado quando os disparos começam e os protagonistas são, inevitavelmente, fracos demais para os confrontos armados.

Fear Effect Sedna abandona jogabilidade tradicional da franquia em prol de visão isométrica (Imagem: Square Enix)

Sem tutoriais relacionados aos poderes de cada protagonista, o jogador é deixado à própria sorte para entender, por exemplo, como funciona o taser de Rain ou a besta do novato Axel — tendo de atirar contra inimigos para descobrir e, provavelmente, morrer nesse processo. Usar o recurso que para o tempo e permite coordenar o posicionamento do grupo não ajuda a evitar a conta da funerária, já que os inimigos são, sempre, mais fortes e estão em maior quantidade.

Essa abordagem transforma os encontros com inimigos normais em uma busca frenética por mortes furtivas, única maneira de seguir em frente sem sofrer dano absurdo. Nos combates contra chefes, a coisa beira a punição, com inimigos muito mais poderosos e com grande vantagem, enquanto os protagonistas, mesmo em grupos grandes, parecem disparar com armas de ervilha.

Nem mesmo o tal efeito medo do título é bem utilizado. Nos games originais, esse aspecto era um reflexo do estado mental do personagem — ao sofrer dano ou bater a cabeça com um quebra-cabeça, ele se desesperava e podia morrer, enquanto matar inimigos e ser eficaz nos combates o deixava mais calmo. Em Fear Effect Sedna, entretanto, isso é completamente deixado de lado em prol do que mais parece uma barra comum de energia, com kits médicos para recuperação.

Em meio às cenas de ação, o game ainda traz uma série de puzzles, um lampejo de boas ideias em um mar de jogabilidade ruim. Entretanto, assim como no caso das habilidades especiais e elementos de combate, há zero intuitividade aqui, com o jogador, mais uma vez, tendo de fuçar para entender o que é necessário para resolver o enigma. Em alguns casos, as pistas estão nos cenários, enquanto em outros basta mexer com cuidado nas peças para que o quebra-cabeça se monte.

Furtividade é um dos poucos caminhos a seguir na jogabilidade ruim de Fear Effect Sedna (Imagem: Square Enix)

Em todos os casos, porém, fazer algo errado significa a morte, o que também demonstra um aspecto inusitado de Fear Effect Sedna. Assim como nos games do passado da saga, a Sushee demonstra uma predileção pelas cenas de morte, trabalhando muitas vezes de forma bem cuidadosa em cutscenes que exibem os personagens sendo explodidos ou apanhados. A cada falecimento, um loading e pelo menos uma cutscene, a de game over, retardando o retorno à jogatina.

Esse aspecto, ao lado de uma movimentação lenta por parte dos protagonistas e cenários mal construídos para exploração e passagem, transformam a experiência de Fear Effect Sedna em algo bem aquém do esperado. A vontade, após as primeiras horas com o game, é de seguir logo pelas salas até a próxima cutscene, para que a história, um dos poucos aspectos que são realmente interessantes, se desenrole.

Roubando a cena

Fear Effect Sedna se salva, em grande parte, pelo charme de seu visual e a força de suas protagonistas. Hana e Rain chamam a atenção sempre que aparecem nas cutscenes, levando a história adiante e se portando com a força de suas protagonistas que lideram seu próprio bando de mercenários tresloucados. O foco maduro do original também aparece aqui, mas, em mais um acerto, sem a hiperssexualização do passado.

Dupla de protagonistas de Fear Effect Sedna rouba a cena, apesar de diálogos esquisitos (Imagem: Square Enix)

As duas, agora, são efetivamente um casal, o que, entretanto, não coloca fim ao clima de paquera. Para cada fala sobre o enredo, há uma piadinha com conotação sexual ou uma frase de duplo sentido que deixam as coisas um pouco esquisitas. O charme das cutscenes, entretanto, fala mais alto e a mistura dos diálogos cheios de personalidade com o estilo visual fazem com que as cenas constituam a melhor parte do jogo.

Fear Effect Sedna carrega um clima altamente canastrão, outra herança do original também muito bem aplicada. Junto com os visuais, que mostram a força do cel shading, agora em alta definição, o jogo se constrói como uma daquelas propostas mais interessantes de serem assistidas do que efetivamente jogadas.

O novo game constitui, ainda, uma aposta bizarra por parte da Square Enix. Não estamos falando exatamente de uma franquia consagrada e clássica, mas sim de um nome lembrado com carinho por quem o jogou, mas completamente desconhecido de todos os outros. Ao lançar Sedna antes do remake do primeiro Fear Effect, que ainda está em desenvolvimento e promete trazer de volta aquilo que consagrou a marca, a empresa começa esse revival com o pé esquerdo.

Não se deixe enganar pelo mistério interessante deixado pela cutscene inicial e pela pegada mais madura e estilosa do jogo. Fear Effect Sedna, infelizmente, presta um desserviço à franquia e está longe de ser um retorno interessante, uma péssima notícia para os fãs, que sabem que Hana, Rain e os outros merecem algo muito melhor. A eles, resta apenas esperar que a nova versão do primeiro game represente um novo começo, apesar de as esperanças serem poucas.

*Fear Effect Sedna foi analisado no PlayStation 4, em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Square Enix.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.