Análise | Um filme interativo, Erica chega para deixar o jogador desconfiado

Por Felipe Demartini | 26 de Agosto de 2019 às 14h00

Dois elementos foram muito pouco usados no PlayStation 4. O primeiro deles é o PlayLink, uma plataforma que permite usar o celular para experiências interativas com games no console, o que fez com que muitos jogos de tabuleiro ganhassem versões digitais. O segundo é o próprio touchpad do DualShock 4, uma inovação originada no PS Vita que acaba sendo mais utilizada como botão extra pelos desenvolvedores do que com seu recurso imaginado (e isso inclui até mesmo jogos da própria Sony).

Com Erica, porém, esses dois recursos encontram seu momento de brilhar, pelo menos um pouco. Em um dos anúncios que chamaram a atenção durante a recente Gamescom 2019, o game completamente em live action não apenas retornou à cena como foi disponibilizado de forma imediata, trazendo aos jogadores o que a desenvolvedora Flavourworks chama de uma experiência de “noite de filme”.

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Em seu primeiro título, ela investe em um estilo que ficou consagrado justamente nas plataformas da Sony, tendo suas origens em games como Until Dawn ou, ainda mais no passado, na obra da Quantic Dream. No título, os jogadores não efetivamente interagem com o cenário ou seus personagens, mas realizam escolhas em pontos-chave para mudar a trama, tendo de lidar com as consequências de um resultado que pode nem sempre ser o esperado.

Em Erica, isso é aplicado de maneira quase literal, não apenas pelo game ser um filme jogável, mas também pelo aspecto da protagonista. Interpretada por Holly Earl (Skins), ela tem um aspecto de passividade inerente a si, com traumas no passado que continuam ecoando em sua mente enquanto flashes de uma importância que desconhece a torturam, impedindo que ela siga uma vida normal.

Ela é jogada no centro desses eventos traumáticos ao receber uma mão decepada pelo correio. Na verdade, as engrenagens já estavam em andamento antes mesmo disso, quando seu pai foi assassinado, e a conspiração a levará para o centro dos trabalhos da vida dele e de sua mãe, com elementos místicos que a envolvem diretamente e, em grande parte, são responsáveis por sua relação distante e absurdada em relação ao mundo.

Holly Earl interpreta a protagonista Erica, que surge como elemento espremido entre traumas, conspirações e o poder de escolha do jogador (Imagem: Divulgação/Sony)

Esse atormento todo aparece na forma de atuações não necessariamente ótimas, mas competentes, principalmente no caso de Earl. Espremida entre eventos que não consegue controlar, aspectos que não compreende e o fato de o próprio jogador estar responsável por suas decisões, a Erica do título desempenha um papel mais passivo do que ativo no game, enquanto toda a pressão sobre o que está acontecendo recai tanto sobre ela quanto no próprio jogador.

A grata surpresa é termos um game desse tipo completamente em português e, mais do que isso, com uma dublagem sem os problemas usuais. Ela também contribui para o trabalho de atores que, no original, nem sempre entregam, permitindo um envolvimento ainda maior com a história que, afinal de contas, é o foco central de Erica.

Você decide

A ideia de filme interativo faz com que a jogabilidade seja incrivelmente simples, apenas com toques na tela ou no touchpad e um eventual pressionamento para sair do foco dado a algumas fotos e documentos, de tempos em tempos. É um game claramente feito para que até mesmo jogadores iniciantes consigam experimentar sem nunca tirarem os olhos da tela.

Usando a tela do celular ou o touchpad do DualShock 4, Erica pede que o usuário faça escolhas importantes e analise pistas (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Entretanto, um grave problema acabou sendo encontrado durante o processo de análise e atinge diretamente o centro da experiência: foi simplesmente impossível jogar com o celular, uma alternativa, inclusive, recomendada pela Flavourworks em detrimento do DualShock 4. O aparelho tem uma superfície de toque maior e facilita movimentos mais longos, mas o título simplesmente travava o tempo todo.

Não sabemos exatamente o que aconteceu, mas todas as possibilidades que estavam em nosso alcance foram testadas. Deletamos e reinstalamos o game duas vezes em nosso PlayStation 4 e também experimentamos diferentes iterações de conectividade. Inicialmente, o console estava cabeado, enquanto o celular, um iPhone XR, se encontrava no Wi-Fi, mas os problemas continuaram mesmo com ambos na rede sem fio. Felizmente, Erica é perfeitamente jogável com o controle.

A simplicidade máxima da jogabilidade, se é que podemos chamar assim, deve afastar muita gente. A Flavourworks também sabe disso e investiu em uma trama não exatamente intrincada, mas que possui ramificações claras e, principalmente, sabe deixar o jogador instigado.

Erica pode ser finalizado em menos de duas horas, como um filme, mas a variedade de finais confere fator replay ao título (Imagem: Divulgação/Sony)

Não vamos falar muito sobre o enredo para não entregar spoilers, mas é preciso dizer que, na maioria das decisões importantes, o jogador jamais saberá em quem confiar. Mesmo tendo informações e compreendendo mais ou menos o que está acontecendo, o caráter destes personagens nem sempre fica claro, dádiva de um roteiro bem escrito para aumentar ainda mais a ênfase sobre as decisões.

As barreiras entre verdade e mentira são indistinguíveis, com o jogador percebendo claramente os momentos que alteram pontos principais da história. Mais do que isso, em diversos momentos, importantes alinhamentos e até mesmo a vida de personagens estarão nas mãos do jogador e ele nem sempre se sentirá seguro do que está prestes a fazer, torcendo pelo melhor.

A recomendação da desenvolvedora de Erica é jogar com o celular, mas não conseguimos fazer o game funcionar desta maneira (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Como um filme, Erica pode ser terminado em cerca de duas horas, mas a quantidade de finais e opções faz com que o fator replay seja alto. Muitas coisas não mudam de verdade na primeira metade do game, mas as opções do segundo arco podem levar a desfechos completamente diferentes, alguns heroicos, outros perturbadores.

Erica não é o maior blockbuster do mundo nem um game surpreendente e cheio de plot twists. Os valores de produção podem não ser altíssimos, mas são o suficiente para não deixar o título cair no abismo da galhofa. Por outro lado, o que a Sony e a Flavourworks apresentam é uma gratíssima surpresa para os fãs de jogos em live action e também para aqueles que procuram uma experiência instigante para acompanhar sozinho ou com os amigos.

Erica foi testado em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Sony.

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