Análise | 20XX mata a saudade de Mega Man X e ainda traz novidades à fórmula

O mundo do desenvolvimento de jogos pode ser cão para quem não está atrelado a um grande estúdio ou franquia. Afinal de contas, como podem as propostas menores competirem pela atenção dos jogadores com os grandes bastiões da indústria, apoiados por tradição e grandes orçamentos de marketing? De que maneira encontrar espaço nesse segmento cada vez mais competitivo?

Uma maneira comum é a referência a outros jogos mais consagrados, na tentativa de capturar um nicho. Afirmar que um título é “tipo alguma outra coisa” é uma maneira veloz de capturar a atenção dos jogadores, mas ao mesmo tempo também pode depor contra o próprio projeto, principalmente caso ele não entregue o que promete. Afinal de contas, porque alguém jogaria o game que é “parecido com algo” quando ele pode jogar “algo”?

Falar de 20XX como um jogo “tipo Mega Man X”, entretanto, é deixar de lado suas principais qualidades. Ele é, sim, totalmente inspirado nas aventuras do robozinho azul e nem esconde essas influências, que vão desde o título até a abertura, passando pelo design geral de personagens, controles e o sistema de progressão.

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O que, então, nos leva a olhar de forma nova algo que traz a boa e velha dinâmica de enfrentar chefes, obtendo armas que nos auxiliam a enfrentar os próximos, e assim por diante até o final? A forma como 20XX faz isso, nesse caso, com cenários gerados de forma aleatória, fazendo com que cada partida seja diferente da anterior e também da próxima. Imagine ter que terminar Mega Man X em uma “sentada” e com uma única vida. É mais ou menos isso que temos aqui.

O estilo procedural traz não apenas um sopro de ar fresco ao título, mas também está entremeado a outros aspectos de sua jogabilidade. Os poderes obtidos, por exemplo, não são permanentes e, ao morrer, você deve começar praticamente do zero, retendo apenas alguns poucos upgrades que estão disponíveis no hub inicial e garantem, por exemplo, itens especiais durante as partidas ou um robô mais forte ou com mais poder de “magia” no início das partidas.

Cenários procedurais tornam cada rodada de 20XX diferente das anteriores (Imagem: Divulgação/Batterystapple Games)

Desafios diários, semanais ou mensais ajudam nessa sensação de evolução permanente, permitindo, por exemplo, que o usuário trabalhe naqueles aspectos que estão faltando, garantindo mais energia para os confrontos ou poder extra para utilizar nos chefes de fase. Além disso, há um sistema de economia, baseado em porcas e chips, que serve para comprar energia antes do combate contra os inimigos principais e upgrades.

De resto, a progressão cabe ao jogador e, ao aceitar uma melhoria na armadura dos protagonistas Nina ou Ace, também significa girar a roleta procedural da geração dos cenários. Aplicar um upgrade que permite pulo duplo, por exemplo, vai fazer com que as fases passem a exigir saltos mais longos, enquanto um aumento no poder de fogo dos personagens fará com que inimigos mais fortes e resistentes surjam pelo caminho.

Levando em conta que esses elementos, como dito, são aleatórios, aplicá-los ou não pode se tornar a diferença entre um passeio tranquilo até o final ou um aumento significativo no desafio. A dificuldade de 20XX é regulada de forma a jamais se tornar punitiva, um verdadeiro feito quando falamos de tantos elementos sendo levados em conta ao mesmo tempo. Não existem momentos de apelação extrema e, ao morrer, o jogador sempre saberá que isso aconteceu por erros e incompetência próprios.

Upgrades e melhorias podem ser aplicadas às armaduras dos protagonistas, mas, em 20XX, essas escolhas mudam o andamento das fases (Imagem: Divulgação/Batterystapple Games)

Ao longo das partidas, o título acaba se tornando um processo de tentativa e erro, mas não daqueles chatos e que obrigam o usuário a continuar persistindo, e sim como um divertido jogo em que a presença de uma peça pode influenciar todas as outras. Fases bônus, melhorias que podem aparecer com a morte de um oponente e o sistema de economia criam uma torta saborosa da qual o jogador dificilmente vai querer parar de comer.

Isso é válido, principalmente, quando se leva em conta que a jogabilidade de 20XX é extremamente ágil e rápida. É possível seguir do início ao fim da jornada em cerca de duas horas, mas, claro, as mortes e desafios colocados diante do usuário farão com que esse processo demore muito mais, sem contar as diferentes combinações de poderes que estão sempre gerando resultados diferentes em termos de jogabilidade. No pacote básico, são dois personagens, com outros ficando disponíveis por meio de DLCs.

Diversos personagens trazem jogabilidades e desafios diferentes a 20XX (Imagem: Divulgação/Batterystapple Games)

É claro que, na hora de misturar todo esse caldo, a Batterystaple se viu obrigada a fazer algumas concessões e elas estão relacionadas, principalmente, à dificuldade dos chefes de fase. Eles são um dos poucos elementos “fixos” de toda a aventura e, dependendo da quantidade de upgrades e energia disponível, podem se tornar até mesmo a parte mais fácil de cada estágio. Muitas vezes, nem mesmo o uso das magias dos anteriores é necessária e chega a ser impressionante ver o quão poderosa a espada de Ace pode ser contra alguns deles.

O foco nos sistemas de jogabilidade também cobra seu preço na história, quase inexistente, e em cutscenes que não fazem muito sentido. Com o tempo, a ideia é que as cenas aparecem aleatoriamente e sem muita relação com o que efetivamente está acontecendo nas partidas — um mesmo vídeo exibido após a morte de um personagem, por exemplo, pode ser exibido também após a vitória contra um chefe de fase.

Animações esquisitas são ponto negativo de 20XX, mas que não tornam o conjunto menos interessante (Imagem: Divulgação/Batterystaple Games)

A arte também parece não finalizada, com uma esquisita cara de rascunho. O design dos personagens é feliz, trazendo personalidade e características claras a cada um deles, bem como aos upgrades aplicados nas armaduras. Durante as fases, tudo brilha — o problema está fora delas, quando as imagens parecem mal-acabadas.

É um elemento pequeno, entretanto, que nem de longe macula um resultado dos grandes. 20XX é uma demonstração de que boas influências, pura e simplesmente, não são suficientes para vender um game — é preciso adicionar algo de novo a um caldo com o qual os jogadores já estão bem acostumados.

E, assim, quem sabe, a fórmula de afirmar que algo é “tipo outra coisa” funcione. 20XX é, efetivamente, um jogo a la Mega Man X, mas quem experimentar atraído pela saudade do personagem vai encontrar mais do que um sentimento suprido aqui - verá autenticidade, desafio e, acima de tudo, diversão.

* 20XX foi analisado no PlayStation 4 em cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Batterystapple Games.

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