Nintendo tenta sobreviver em um novo universo de video games

Por Luciana Zaramela

Três décadas após o surgimento do encanador bigodudo Mario, ainda no jogo arcade de Donkey Kong, a Nintendo agora se vê em uma situação delicada: ter de enfrentar Angry Birds, Fruit Ninja e outros jogos baratos (ou gratuitos), fáceis de baixar e que geralmente rodam em dispostivos portáteis, como smartphones e tablets.

A estratégia da empresa foi contra-atacar, em 18 de novembro, com a estreia de seu novo console, o Wii U. O Wii original foi o primeiro console sem fio e com sensor de captura de movimentos. E foi revolucionário, principalmente por ter conquistado novos públicos, como pessoas idosas e mulheres.

No início, a novidade era um grande sucesso, mas a fama do console voltado à família durou pouco. Na tentativa de reconquistar toda a sua glória, a Nintendo lança um dispositivo que mais parece a mistura de um iPad com um console tradicional, mas sem todos aqueles botões e alavanças direcionais. Sim, o Wii U é diferente dos outros consoles e inaugurou a nova geração dos videogames. Mas, ainda assim, é um pouco precipitado arriscar um palpite a respeito de sua fama no mercado.

No entanto, parece que a aceitação do público tem tudo para ser positiva, já que na Black Friday dos Estados Unidos, quase todas as unidades de Wii U foram vendidas, em 3.000 lojas, segundo informações do jornal norte-americano The New York Times. De acordo com Tony Bartel, presidente da GameStop, "as pessoas estão com sede de inovação, e o Wii U oferece isso a elas".

Será mesmo? Será essa a estratégia que a Nintendo precisa para reconquistar o que um dia pode ser chamado de mercado de ouro? Vários veteranos e especialistas da indústria de games se mantêm céticos quanto ao sucesso do novo console.

"Na verdade, fiquei perplexo com tudo isso", dizze Nolan K. Bushnell, fundador da Atari, a respeito do Wii U. "Não acho que vai ser um grande sucesso".

A grande questão é o que o futuro espera destas grandes plataformas de games, incluindo, além da Nintendo, a Sony e a Microsoft para o próximo ano. Os consoles já estão oferecendo gráficos sem precedentes, mas, de acordo com Bushnell, apenas uma pequena parcela de jogadores está disposta a pagar caro por um novo console. "Parece que é o fim da era", revelou o especialista.

Já Reggie Fils-Aime, presidente e diretor de operações da unidade da Nintendo nos Estados Unidos, reconhece que os jogos móveis mudaram bastante o mercado. Mas diz que o amplo reconhecimento que as pessoas já têm das marcas Nintendo, Wii, Mario e Zelda fortalece a empresa e seus sistemas, até mesmo neste novo mercado.

"Tudo se resume a oferecer experiências novas e únicas aos consumidores, experiências que eles não terão em nenhum outro lugar e que realmente os faça dizer: 'Uau, isso é fantástico!'", afirma Fils-Aime, cheio de esperanças.

Mesmo não tendo acompanhado seus rivais nos quesitos gráficos e alta definição, o Nintendo Wii trouxe um grande retorno para a empresa. A Nintendo vendeu cerca de 100 milhões de unidades do console, enquanto a Sony e a Microsoft venderam aproximadamente 70 milhões de seus consoles mais recentes, cada uma. O console feito para a família acabou dando certo, mas não parecia concorrer diretamente com seus rivais, por ter uma abordagem e um público alvo diferente.

Apesar do sucesso de vendas, a decisão estratégica mais difícil da história da Nintendo deixa seus executivos apreensivos. Será que lançar uma versão de Mario ou Zelda para o mercado móvel não seria uma tacada de mestre? Segundo Fils-Aime, não. A Nintendo continua batendo na tecla da criação de games exclusivos. O máximo que a empresa pode se aproximar da plataforma móvel é na questão das vendas: uma pessoa pode comprar o game pelo dispositivo móvel, mas terá de jogá-lo no console. Nada de aberturas aos sistemas iOS e Android.

E assim, a empresa tenta voltar à tona, mesmo depois de enfrentar uma queda brutal no mercado, que fechou o último ano fiscal com um déficit de 530 milhões de dólares, o equivalente a 1,1 bilhão de reais. Tal realidade a levou a reduzir o preço de seu console portátil, o Nintendo 3DS, como uma tentativa de reanimar as vendas. Mesmo assim, sua receita estava a um terço da receita de três anos atrás, quando as vendas do Wii e do Nintendo DS explodiram no mundo.

A grande verdade que amendronta as empresas de videogames é que a facilidade de uso e a enorme oferta de jogos gratuitos para smartphones e tablets torna a concorrência quase desleal. É bem provável que a Nintendo ofereça jogos gratuitos para o Wii U, desde que possam gerar receita com a venda de itens virtuais. A Sony também investe nessa abordagem para o PlayStation 3. E, muito provavelmente, a Microsoft não vai ficar de fora dessa e investirá em jogos gratuitos também para a plataforma Xbox.

Ao frigir dos ovos, quem será que vai vencer essa batalha? Os insistentes encanadores bigodudos ou os passarinhos mais nervosos do pedaço? Em pouco tempo, teremos a resposta.