Análise: Dota 2, o retorno

Por Felipe Santana Felix

Dota, MOD do jogo de estratégia Warcraft, foi o grande responsável pelo surgimento do gênero MOBA (multiplayer online battle arena). O estilo de jogo dinâmico onde duas equipes se enfrentam de forma competitiva, utilizando diversos personagens, conseguiu cativar muitos dos jogadores apaixonados por MMO's, RTS e até mesmo fanboys de console. Após o enorme sucesso, inúmeros outros concorrentes surgiram e Dota foi comprado pela Valve para ser relançado com o nome de Dota2.

O jogo foi "encubado" no Steam durante dois anos e, ao longo desse período, algumas pessoas tiveram a oportunidade de jogar as fases beta, alpha, gama, teta de testes e passar feedbacks à equipe de desenvolvimento.

Agora o game está disponível no formato Free to Play para todos os jogadores do Steam e a Valve promete colocar Dota2 em seu lugar de origem: no topo!

Nós não vamos pagar nada.

Por ser um MOD, o primeiro Dota ja era totalmente gratuito, mas isso não implicava em um sistema comercial. Consequentemente, os desenvolvedores não recebiam nada pelo game e isso impossibilitava o jogo de se tornar um produto mais profissional. Agora, Dota2 foi lançado utilizando o modelo comercial Free to Play. Assim, ele continua sendo grátis e aqueles que quiserem "investir" podem comprar acessórios de boticário – roupinhas, imagenzinhas, fofurinhas em geral – que não interferem nas partidas.

Até mesmo os inúmeros heróis existentes estão disponíveis para todos de forma totalmente gratuita e este acaba sendo o grande atrativo para os jogadores. Ter todos os personagens à disposição a qualquer hora é como ser um mimado filho único criado pela avó milionária, ou seja, ter o que quiser na hora que desejar. Se algum personagem está em alta no momento ou se um pró fez uma jogada sensacional com determinado herói, qualquer um, a qualquer hora, pode jogar com o mesmo personagem. Porque é tudo free!

Outro elemento legal, mesmo que secundário, está na fantástica fabrica de boutique de Dota2. Todos os elementos de customização podem ser comprados separadamente e, com isso, os jogadores podem deixar o visual dos heróis da maneira que quiserem utilizando composições a gosto com os itens comprados ou até mesmo conquistados por vitória.

Abordando o assunto de games comercialmente, não poderíamos esperar nada mais da Valve do que a perfeição neste modelo. Todo o ecossistema comercial Free to Play de Dota2 é extremamente saudável e justo. Isso aliado à politica da Valve em deixar que a própria comunidade possa desenvolver boticário poderá fazer com que Dota alcance os mesmos níveis de diversão, entretenimento e "zoeira" que Team Fortress 2 alcançou.

Tudo ficou no lugar

Dota é a origem, o começo. Todos os outros MOBA possuem diferenças em relação à dinâmica de selvas e rotas, mas basicamente todos os jogos se resumem a matar monstrinhos – injustamente chamados de minions –, tirar seus adversários das rotas e destruir torres e construções.

Dota2 continua com estes elementos e os demais pontos estratégicos de sua primeira versão, todos inalteráveis. As florestas estão lá, os heróis podem se esconder entre árvores, destruir troncos e até mesmo transformá-los em criaturas de auxílio. O rio que divide o mapa em dois também está presente, dando acesso aos caminhos principais e aos buff's de tempos em tempos. Até mesmo a mulinha, grande amiga da galera, esta lá, galopando e voando. Carregadores, tankers, assassinos e os suportes, todos estão lá. Além disso, as dinâmicas de evolução diária, com noite e dia, e a punição de gold ao morrer também continuam presentes e influenciando bastante o jogo.

A grande mudança do jogo foi gráfica e isso é lindo! Dota sempre aliou estratégia com ação e as mecânicas do jogo eram tão bem polidas que mudar alguma delas seria um delito muito grave.

Mantendo estes elementos, o game ainda continua um pouco difícil para os iniciantes, pois entender todos os tipos de recursos e estratégias continua complicado. Outro elemento que torna a coisa bem complexa para newbies é a ausência de elementos informando a dificuldade de utilizar cada um dos campeões. São tantas opções, tão diferentes umas das outras, que escolher se torna uma tarefa extremamente complicada. Já que a Valve resolveu implementar um belo tutorial sobre os combates, a adição de indicações sobre a dificuldade de jogar com determinado herói também seria muito bem recebida e evitaria essa dúvida cruel que é escolher um personagem.

Claro que estas informações podem ser verificadas nos foruns das comunidades, mas se a desenvolvedora teve a atenção de integrar sugestões de builds que podem ser acessadas no meio do jogo, por que não integrar mais conteúdo da comunidade? Afinal, este é definitivamente o ponto alto da Valve: a integração total entre jogadores e game.

À espera de novas ideias

Manter as bases do jogo inalteráveis foi uma sábia decisão, mas olhando apenas a ponta do iceberg parece que nenhuma novidade irá surgir no horizonte. Desde a invenção de Dota os MOBAS evoluíram e muitos deles fornecem outras arenas de batalha para dar novos horizontes aos jogadores e seus personagens favoritos.

Por enquanto não temos nenhum sinal de que isso vá acontecer com o produto da Valve e mesmo com algumas interações legais, como entrar na pele de um pró em um game mítico. Falta algo novo no mundo mágico de Dota2 que o lançamento periódico de novos campeões talvez não possa suprir.

Sem penalidade Máxima

Pegando esse gancho da comunidade, presenciei em poucas partidas o famoso Rage ou Rage quit e até mesmo quando a saída de um jogador acontecia, não importa o motivo. O game tem seus recursos, seja um pause automático de tempo pré-determinado ou até mesmo dando o controle do herói aliado, ou de seus recursos financeiros, à equipe. Quando se joga um MOBA os jogadores são dependentes de mais quatro outras pessoas e, na grande maioria das partidas, os envolvidos não possuem nenhum laço entre si, ou seja, são cinco indivíduos totalmente desconhecidos unidos para vencer uma partida. Este elo é frágil e pode ser quebrado por discussões, indisposições ou até mesmo uma internet a lenha. Dota2 é perfeito em tentar manter um time "desmembrado" ainda competitivo e, por isso, sua comunidade não parece ser tão tóxica. Sempre parece que ainda há luz para a equipe com um a menos.

Um outro elemento que talvez ajude neste resultado é a possibilidade de comunicação nativa via áudio entre os jogadores. Assim é possível elaborar jogadas e tomar decisões em grupo, facilitando o gameplay coletivo e distribuindo a culpa das falhas a todos.

Veredito

Jogar Dota2 é ter uma experiência profunda no mundo dos MOBAs. Claro que todo jogo do gênero tem suas próprias mecânicas de mapa e personagens, porém os diversos elementos estratégicos distintos do game da Valve fazem com que jogadores tenham que tomar mais decisões durante uma partida e a enorme penalidade de experiência e ouro por cada morte torna estas escolhas mais difíceis de serem feitas. Por isso entender Dota2 é compreender o universo do gênero.

Este volume de elementos estratégicos é o que torna o MOBA da Valve o mais desafiador de todos e faz com que a vitória seja tanto por motivos técnicos quanto táticos. Entretanto, esse nível de dificuldade acima da média pode fazer com que jogadores mais casuais ou interessados em menos estratégia e mais ação partam para outras arenas por não desejarem um aprofundamento tão intenso em relação a grande quantidades de dinâmicas existentes.

Dota2 ainda tem um bom caminho a percorrer no que diz respeito a tornar o jogo mais compreensível a novatos e trabalhar a integração de seu produto com os conteúdos gerados pela comunidade é um bom caminho para deixar a coisa mais didática para os iniciantes. Mesmo assim, é legal tentar pelo menos doses homeopáticas de Dota2, não só por ser graficamente excitante, mas pelo teor de estratégia que faz cada sinapse nervosa crepitar de prazer.

Notas:

  • Arte: 9.0
  • Audio: 9.4
  • Jogabilidade: 9.5
  • Conjunto: 9.8
  • Nota Final: 9.4